2 de abr de 2016

Esfinge muda e encurralada

O tempo nublado, ofegante de cansaço, amaçando um cigarro aceso na mão. Entrou na igreja, vazia, daquela cidade minúscula. Queria respostas.

Nunca teve certeza da existência de qualquer coisa em que pudesse colocar a sua fé sem que estivesse diante de seus olhos. A não ser o infinito para além do céu e do mar. No entanto, aquela igreja, naquela vila de desesperados, trazia a paz que remetia ao infinito. Respostas. 


Que viesse a resposta de um travo de crivo, de uma oração, dos olhos de alguém, de uma mão no ombro: não é em vão. Segurança. Não tinha ar que entrasse quando pensava que guiava o barco ao léu. Afundaria a nau e mataria milhões. Colocaria a perder a história que tatuara no peito. Mataria a criança que havia dentro de si. E seguia caminhando cego em plena luz.

Estava ali, sabia, e ao pensar nisso chorou tudo de uma vez. Estava ali, não era apenas por si.  Esteve ali e ha tempos que permanecia. Sem saber ou pensar que poderia dar o fora. Não faria isso com ninguém. Estava ali, cravado no peito a coragem do mundo inteiro. Mas era justo?

A mão no ombro que faltava dizendo que, sim, é justo, vá adiante, não está sozinho nem nunca estará, e se chorar não tem problema. E acende o cigarro. E já não dá conta de si mesmo. 

Mas a mão no ombro que falta acena de longe, assistindo a nau se perder, com o sorriso de fiz o que pude, peço perdão, vá adiante, não está sozinho nem nunca estará...palavras ao vento. 

O horizonte encara de volta como queria qualquer um fizesse. Encara de volta como se trouxesse a verdade que falta, encurralasse a esfinge e a fizesse falar absolutamente tudo. Mas o horizonte encara e não diz nada. Como a mão no ombro que não vem mas acena de longe e os olhos do companheiro estão no chão. 

Só queria saber se é certo, se não vai afundar o barco, se não vai matar ninguém. 


Um comentário:

  1. Subjetivo, mas acho que entendo. Te entendo. E é lindo o que sente.

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