5 de mar de 2015

Processo dialético de si próprio

Não quero ser alguém que jamais sai da sua zona de conforto de ser um "ser sozinho". Que jamais sai da sua ilhota, da sua crença existencial que a salvação é uma conquista individual das mentes iluminadas e nunca se desapega disso, nunca se mistura, nunca faz troca. Não quero ser alguém que não abdica desse tempo todo para si mesmo e se doa ao grupo, se expõe e dispõe ao coletivo, se organiza com quem se pode acompanhar. Não quero nunca mais ser alguém que age não sendo para transformar esse mundo, não sendo junto com outras pessoas. Por isso, é preciso abdicar um pouco desse tempo de si mesmo, para ser com os outros.
Mas eu também não quero ser o oposto: alguém que não sai da sua zona de conforto para atravessar a rua sem companhia, que não vai à fonte beber água sozinho, que não senta na beira da calçada e traça algumas linhas só em si mesmo. Alguém que não escuta os próprios pensamentos. Alguém que não se encontra, que não se olha no espelho. Que não vê o outro em si quando não está com o outro, pois para isso é, por óbvio, é preciso não estar com ninguém. Não quero não ouvir mais o silêncio. Ligar no automático quando já não estiver mais suportando. Fingir que ouço o outro, quando na verdade não ouço nem a mim mesma. É preciso ouvir a si próprio antes de querer ouvir qualquer um. É preciso estar só para se ouvir, se ver, se encontrar, se aprofundar em si - e ser melhor, por si e pelos outros. É preciso abdicar da identidade constituída, do papel coletivo tão bem desempenhado pela experiência. É preciso abdicar do que já foi preenchido - sem nunca negar raízes, e o processo histórico - mas é preciso abdicar do consolidado para ter espaço de renovação, reformulação, transformação, revolução.
O processo da vida deve ser muito mais complexo, desde o "quem somos afinal?" ao "que fazer?", passando por algum deus e pela realidade material. Mas essa dialética da vida e do tempo me soou bem pelas ruas uruguaias.

Nenhum comentário:

Postar um comentário