31 de mar de 2015

Criar é possível

Será que aqueles que os detentores e impositores do saber (os professores), da lógica tradicional utilizada no Brasil (e não só, claro), sabem do mal que fazem aos estudantes e à sociedade com a arrogância dos seus métodos sem movimento - e que impossibilitam o movimento dos estudantes - de criação de conhecimento?
Me pergunto isso ao mesmo tempo que vou descobrindo que outra dinâmica de aprendizagem é realmente possível - vivenciando a dinâmica da Faculdade de Psicologia da UdelaR.
Porque, sim, é possível ter a teoria, a prática, discutir com os colegas, estudar muito (com tempo, com tranquilidade e com prazer) e produzir algo. É possível ser ativo na própria formação profissional e criar um saber que faça sentido com a própria construção social e histórica de cada sujeito, e que seja útil ao seu meio.
É possível se encontrar na formação, entrelaçar saberes com @s outr@s, e ser desenquadrado e singular.
Acho que nunca estudei tanto, e descobri tanto, e experienciei tanto, e discuti tanto - sem deixar de me movimentar para além da academia... em época de aula. Fazendo a mesma quantidade de matérias de sempre.
A educação, definitivamente, não precisa ser um sofrimento nem um processo quadrado pelo qual temos de nos submeter. Isso, hoje, é um fato muito para além da teoria para mim.
Hoje, o que não é possível, é apenas reproduzir um conhecimento e velhos métodos que já deveriam ter sido superados.
A dinâmica sala de aula - e nada pra fora, uma classe atrás da outra, professores/as e seus slides, estudantes em silêncio, nunca me pareceu tão ilógica como agora.
Obs.: depois de quase um mês, não tive nenhuma aula que não fosse em círculo, que não tivesse discussão em grupos, e que eu fosse obrigada a ficar horas olhando pra um reprodutor de tela.
E em nenhuma dessas aulas a teoria foi dispensada, pelo contrário, nunca me encontrei com tantos autores, e com tantas pessoas. A diferença é que eu não precisei de alguém inserindo as coisas em mim de cima pra baixo.

25 de mar de 2015

Lucía y Pepe

Um dia você percebe que o horizonte pode ser eternamente o horizonte.
E o processo, uma eterna caminhada, sem nenhuma garantia de se chegar lá. Mas sem outra saída senão continuar caminhando.
E que o endurecimento, por vezes é exigido, pela própria sobrevivência, pela garantia de seguir adiante... para não tombar no caminho.

Você olha para a realidade, e vê que não se tem nada além do agora. E não basta.
Você olha para a realidade, e não basta.
Não basta, sem utopia.
Seria ilógico se no caminho aprender a amar não fosse o mais importante. Aprender a amar. Aprender a amar a vida e o povo. Aprender a amar os olhos e os pés de cada um. Aprender a amar as tantas pessoas que estão nessa estrada, porque a realidade é bruta, mas não precisa ser o povo.
A realidade é dura, mas não precisamos ser nós mesmos.

-
Eu tive a sorte de presenciar uma fala do Pepe Mujica, o bom velhinho. Não por muito, mas pelo que representa, pelo que desperta. Ele não falou do sistema econômico, das táticas e estratégias, da conjuntura política internacional, nacional e regional. Ele não falou da realidade bruta e de suas exigências diárias. Ele não falou do que se sabe e não basta.
Foi de amor que ele falou, foi das pessoas, foi da vida. A comunidade, a (in)essência do dinheiro. 
Foi da base para todas as discussões sobre o sistema econômico, para todas as estratégias e ações. 
Foi para lembrar do porquê mais fundamental pelo qual estamos aqui. Do porque de tanto endurecimento, de tanta caminhada.

Porque, ah, o horizonte... se fosse apenas o que parece ser, em sua figura material, eternamente o horizonte... quem pagaria o preço?

16 de mar de 2015

Diálogo e síntese coletiva

Sobre o diálogo, essa a abertura de uma concepção construída e – ao que parece até então – sólida a um sujeito em determinado grupo a outras concepções, construídas em outros sujeitos ou grupos. No diálogo se tem a troca e a dialética, por óbvio – e que quanto mais franco e livre de “jogos” e duplicidades ocorrer esse diálogo (ou seja, mais verdadeiro), mais efetivo será o processo da dialética e das trocas.

Exemplos vivenciais: nas primeiras semanas conhecendo a galera do DCE, me aproximei bastante da AE, com minhas concepções apartidárias e, muitas vezes, antipetistas, conversando com companheiros da tendência que respeitaram, esforçaram-se para consensuar em pontos possíveis e colocaram sua posição. Bem sutil.

Em outros momentos entrava em crise, me afastava, participava de atividades de outros grupos políticos (ainda na ideia do afastamento da galera da AE), por companheiros sem essa sutileza e abertura, que surgiam com suas concepções fechadas e as colocavam na mesa sem chance de contra-argumentação – fechando, assim, a minha. Ou seja, a dialética quase não ocorria nesses casos e eu pouco refletia sobre militar em um partido.

Claro que no meio disso tudo teve também a prática, que ajudou nessa construção de sentido.

O caso é, pra mim o diálogo é fundamental, e é a única forma, como disse a companheira Marjana, de desenraizar algumas concepções que se endurecem na gente de forma que nem percebemos e promover a dialética, promover um movimento de elaboração e criação, síntese, e transformação. E, na esquerda, a ausência desse processo é bastante visível, principalmente pelas nossas reproduções de ações e concepções.

O processo neurótico que eu entrei foi no caso de como isso se encaixa nessa perspectiva de que a realidade pode ser conhecida, pois é concreta, e não se trabalha, então, com relativismo e metafísicas de trocas e pontos de vistas pessoais (como se a cada um houvesse um ponto de vista diferente sobre essa realidade).

Trazendo pra nossa vidinha mais uma vez, quando falam: tal pessoa está em disputa, já a outra é orgânica nossa – o que isso quer dizer? Que tal pessoa ainda está aberta ao diálogo, ao debate, a troca de concepção? E a outra está fechada ao diálogo, ao debate, e possui a sua concepção sólida?
Mas de certa forma, isso não ocorre? Eu creio que ocorra, e eu mesma penso dessa forma quando olho para companheiros mais firmes, e outros que estão se aproximando agora.

Pensando nas nossas práticas, algumas referências nossas, com posições bastante bolcheviques, disciplinadas, organizadas parecem ter menor abertura ao diálogo, justamente por terem bastante base em sua formulação de concepção de sociedade, socialismo, tática e estratégia, etc. etc. Base, esta, das teses da AE. O diálogo pode ocorrer, a dialética também, mas não é com facilidade que se mexe em estruturas de concepções tão bem estabelecidas. Mas será que isso é ruim? Pois se as estruturas das nossas bases mais sólidas fossem constantemente remexidas, como poderíamos nos organizar e nos disciplinar em cima de uma práxis? Como poderíamos levar as táticas até o fim? A crise desorganiza, o que é importante. Mas a constância desta é que é o diabo.

Eu não sei se acredito que possa, de alguma forma, não haver nenhum enraizamento – pelo que o próprio poder da cultura e da linguagem demonstram. Acredito que as sínteses são constantes, justamente pela constância do diálogo e da dialética, mas algumas coisas se aprofundam mais na gente (por mais que a gente diga que nós é que “nos aprofundamos nas coisas) do que outras.
Agora, também não acredito que as nossas concepções – o que se enraizou na gente- são verdades absolutas. Mas, ainda mais, não acredito que podemos chegar a conhecer uma verdade absoluta (talvez eu não devesse generalizar, mas nesse contexto em que estamos).

...Até por que - aí eu entro nas contribuições do Lucas na minha vida – não conhecemos todas as variáveis de uma equação (espero que um dia ele me explique como se dá a matemática disso hehe). Ou seja, não conhecemos todas formas, pontos de vistas e modos possíveis de se saber de um fenômeno (um período histórico, um fato, um evento), uma coisa (a materialidade da realidade), um sujeito (em toda a sua condição histórica biopsicossocial).

Isso pode parecer aquela conversa de ponto de vista de novo, de metafísica, de negação da materialidade da realidade e a sua possibilidade de ser conhecida. Mas, me atendo aos fenômenos políticos, pelo contrário, há realmente diversos fatores materiais que fazem com que não haja pontos de vistas idênticos – apenas algo próximo disso, que os grupos tentam realizar a partir do discurso e das práticas.

O Lucas deu o exemplo do olhar sobre determinado período histórico – haverão elementos vivenciais de sujeitos que experienciaram eventos diferentes de um mesmo período e que conheceram materialmente a realidade, mas nas suas narrativas aparece de forma. Como o exemplo do protagonismo (ou ausência dele) de mulheres no período da ditadura militar. É por fatores materiais que muitas pessoas não trazem na sua formulação do processo a presença de mulheres, mas também é por fatores materiais que nós trazemos. É uma questão de ponto de vista, pode até se dizer que é relativo, mas é material.

E com essas questões, eu acho importante provocarmos essa questão da importância da abertura ao diálogo pra justamente adquirirmos os diversos pontos de vistas, na medida do possível, e, concordando ou não, crescermos enquanto coletivo – porque é no coletivo que, a meu ver, devemos voltar da nossa solidão e momento de elaboração  e enriquecer ainda mais esse processo, pois um grupo, pra mim, além de ter um papel de compartilhar de uma visão de mundo, da práxis,  e se organizar para a ação coletiva, tem o papel de desenvolver novas concepções (aliadas a cada vez mais variáveis) – concepções do sujeito que não são, jamais, senão concepções que vieram do coletivo – através do entrelace e cruzamento de discursos, dessas novas variáveis que chegam, se agregando ou não.

Se elaboramos dialogando com um outro, de outra concepção, e crescemos, também temos de fazer no grupo onde nos encontramos segundo os nossos próprios enraizamentos – e contribuir nessa síntese coletiva. 

5 de mar de 2015

Processo dialético de si próprio

Não quero ser alguém que jamais sai da sua zona de conforto de ser um "ser sozinho". Que jamais sai da sua ilhota, da sua crença existencial que a salvação é uma conquista individual das mentes iluminadas e nunca se desapega disso, nunca se mistura, nunca faz troca. Não quero ser alguém que não abdica desse tempo todo para si mesmo e se doa ao grupo, se expõe e dispõe ao coletivo, se organiza com quem se pode acompanhar. Não quero nunca mais ser alguém que age não sendo para transformar esse mundo, não sendo junto com outras pessoas. Por isso, é preciso abdicar um pouco desse tempo de si mesmo, para ser com os outros.
Mas eu também não quero ser o oposto: alguém que não sai da sua zona de conforto para atravessar a rua sem companhia, que não vai à fonte beber água sozinho, que não senta na beira da calçada e traça algumas linhas só em si mesmo. Alguém que não escuta os próprios pensamentos. Alguém que não se encontra, que não se olha no espelho. Que não vê o outro em si quando não está com o outro, pois para isso é, por óbvio, é preciso não estar com ninguém. Não quero não ouvir mais o silêncio. Ligar no automático quando já não estiver mais suportando. Fingir que ouço o outro, quando na verdade não ouço nem a mim mesma. É preciso ouvir a si próprio antes de querer ouvir qualquer um. É preciso estar só para se ouvir, se ver, se encontrar, se aprofundar em si - e ser melhor, por si e pelos outros. É preciso abdicar da identidade constituída, do papel coletivo tão bem desempenhado pela experiência. É preciso abdicar do que já foi preenchido - sem nunca negar raízes, e o processo histórico - mas é preciso abdicar do consolidado para ter espaço de renovação, reformulação, transformação, revolução.
O processo da vida deve ser muito mais complexo, desde o "quem somos afinal?" ao "que fazer?", passando por algum deus e pela realidade material. Mas essa dialética da vida e do tempo me soou bem pelas ruas uruguaias.