8 de jan de 2015

Sobre o caso de Schreber




O caso de Schreber tem seu início com manifestação de hipocondria e períodos de insônia. Porém, os relatórios médicos não diziam muito, segundo Freud, sobre a história do paciente, e detalhes pessoais. Sobretudo, Schreber descreve o seu casamento como um período de “grande felicidade”, assim define, também, seus filhos.

A “insanidade alucinatória”, como descreve Freud, desenvolveu-se em Schreber gradualmente. Após um período acreditando ter se curado da insônia e da hipocondria, em 1893, as enfermidades retornaram de maneira mais intensa. O sujeito acreditava ter seu corpo em decomposição, com o cérebro amolecido. Ele passou a sofrer de alucinações visuais e auditivas, tendo bastante sensibilidade a barulhos e à luz. No decorrer do curso da doença, Schreber adquiriu o caráter místico para as manifestações alucinatórias, alegava estar em contato com Deus e ser “joguete de demônios”, ouvias canções sagradas e aparições. Por fim, estava com a crença de viver em outro mundo.

Havia, ainda, algumas pessoas que Schreber acusava de estarem perseguindo a ele próprio. Uma das acusações era dirigida ao seu médico, Flechsig, a quem chamava de “assassino da alma” e gritava, repetidas vezes: “pequeno Flechsig!”.

Esse desenvolvimento gradual da doença psíquica atingiu toda a estrutura mental de Schreber, de modo a cristalizar-se. A partir disso, a sua personalidade foi reconstruída de uma forma que se adequasse à rotina de Schreber.

Observa-se, neste ponto, como traços de percepção que surgem e se associam a determinados eventos históricos e elementos atuais podem, pouco a pouco, ser enraizados na estrutura mental, mesmo que alucinatórios.

Apesar da patologia ter sido estruturada, observou-se no paciente boas condições: a menta calma, o pensamento coerente e ordenado, boa memória, acúmulo de conhecimentos, etc.

Aparece, de modo forte, nos relatos de Freud, o delírio da emasculação em Schreber, ou seja, o desejo de tornar-se mulher, com todos as características que traz o feminino vinculado ao sexual. Neste desejo, Schreber fala da “submissão ao ato da cópula” e de abusos de seu corpo. Tal pensamento vem a ele como uma “missão de Redentor” que ele precisa cumprir.

Deus, que representa conhecimento e poder, espera de Schreber a submissão e entrega do próprio corpo. Ser uma mulher, submeter-se ao abuso e poder o “saber” de um homem  é uma missão divina de Schreber.

O delírio de tal caso tem como desejo secundário a ambição de tornar-se redentor da sociedade. O desejo primário é ser abusado, tornando-se mulher. Isso apenas poderia correr fora da Ordem das Coisas. Além disso, seria um modo de sair fora da Ordem das Coisas, o que apenas poderia ocorrer, a partir da história de vida de Schreber, em um delírio, pois o seu papel social era, justamente, de um homem que existia dentro e para a ordem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário