9 de jan de 2015

Negra sombra II

As ondas do mar negro e infinito adiante batiam com intensidade nas rochas marginais muito próximas à sacada baixa da casa em que se encontrava fitando o que havia de imenso na vida e no mundo.

A noite negra e o vento gelado a fumaça pesada do cigarro que segurava de forma suave - a única coisa suave que ainda lhe resta. A canção ecoando palavras soturnas espanholas só fazia aumentar a desesperança. Desesperança que chegava a não ter objeto. Desesperança apenas por não ter pelo que se esperar. Como o infinito negro adiante do encontro do mar com o céu, com a fúria das ondas batendo nas rochas quebrando o quadro que poderia ser o da própria morte.
As ondas que batem nas rochas, a fúria, quase como o amor sexual que bate nos corpos e contrasta com a própria morte. O movimento furioso das ondas que se entregam às rochas, soturnas e solenes - eternamente integras, mesmo aos pedaços.

O mar, ao fundo, que era negro, como os próprios olhos e a lua cheia, não traz nenhuma esperança. Mas não podia deixar de encarar o que parece ser o único sentido que lhe resta.

8 de jan de 2015

Sobre o caso de Schreber




O caso de Schreber tem seu início com manifestação de hipocondria e períodos de insônia. Porém, os relatórios médicos não diziam muito, segundo Freud, sobre a história do paciente, e detalhes pessoais. Sobretudo, Schreber descreve o seu casamento como um período de “grande felicidade”, assim define, também, seus filhos.

A “insanidade alucinatória”, como descreve Freud, desenvolveu-se em Schreber gradualmente. Após um período acreditando ter se curado da insônia e da hipocondria, em 1893, as enfermidades retornaram de maneira mais intensa. O sujeito acreditava ter seu corpo em decomposição, com o cérebro amolecido. Ele passou a sofrer de alucinações visuais e auditivas, tendo bastante sensibilidade a barulhos e à luz. No decorrer do curso da doença, Schreber adquiriu o caráter místico para as manifestações alucinatórias, alegava estar em contato com Deus e ser “joguete de demônios”, ouvias canções sagradas e aparições. Por fim, estava com a crença de viver em outro mundo.

Havia, ainda, algumas pessoas que Schreber acusava de estarem perseguindo a ele próprio. Uma das acusações era dirigida ao seu médico, Flechsig, a quem chamava de “assassino da alma” e gritava, repetidas vezes: “pequeno Flechsig!”.

Esse desenvolvimento gradual da doença psíquica atingiu toda a estrutura mental de Schreber, de modo a cristalizar-se. A partir disso, a sua personalidade foi reconstruída de uma forma que se adequasse à rotina de Schreber.

Observa-se, neste ponto, como traços de percepção que surgem e se associam a determinados eventos históricos e elementos atuais podem, pouco a pouco, ser enraizados na estrutura mental, mesmo que alucinatórios.

Apesar da patologia ter sido estruturada, observou-se no paciente boas condições: a menta calma, o pensamento coerente e ordenado, boa memória, acúmulo de conhecimentos, etc.

Aparece, de modo forte, nos relatos de Freud, o delírio da emasculação em Schreber, ou seja, o desejo de tornar-se mulher, com todos as características que traz o feminino vinculado ao sexual. Neste desejo, Schreber fala da “submissão ao ato da cópula” e de abusos de seu corpo. Tal pensamento vem a ele como uma “missão de Redentor” que ele precisa cumprir.

Deus, que representa conhecimento e poder, espera de Schreber a submissão e entrega do próprio corpo. Ser uma mulher, submeter-se ao abuso e poder o “saber” de um homem  é uma missão divina de Schreber.

O delírio de tal caso tem como desejo secundário a ambição de tornar-se redentor da sociedade. O desejo primário é ser abusado, tornando-se mulher. Isso apenas poderia correr fora da Ordem das Coisas. Além disso, seria um modo de sair fora da Ordem das Coisas, o que apenas poderia ocorrer, a partir da história de vida de Schreber, em um delírio, pois o seu papel social era, justamente, de um homem que existia dentro e para a ordem.

5 de jan de 2015

1. O desenvolvimento do capitalismo e as transformações profundas na estrutura social rural de sociedades tradicionais

Para Marx, as condições fundamentais da produção capitalista encontram-se na separação entre os detentores de meios de produção e de subsistência e os possuidores apenas de sua força de trabalho, colocando-a a venda. Diante dessa circunstância, tem-se a transformação dos meios de produção e de subsistência, da mercadoria e do dinheiro em capital, e do produtor direto em trabalhador assalariado. Assim, a produção capitalista desenvolve-se, de modo a crescer. Cabe ressaltar que a condição manufatureira é fundamental, nos conceitos marxistas, para o início da acumulação.
A ascensão do capitalismo aparece como uma superação do período feudal, e como uma libertação do trabalhador, que agora é livre e possuidor de sua força de trabalho – e também é detentor dos direitos de um sujeito autônomo.
Partindo para o desenvolvimento histórico, Marx trata, ainda, n’O Capital (cap.XXIV, A Assim Chamada Acumulação Primitiva), o que chama de “golpe parlamentar”, em que, por decretos ocorre a expropriação de terras do povo e a sua transformação em propriedade privada. Junto a tal ação, tem-se uma indenização aos que perderam suas terras, de tal modo que a terra torna-se capital, e, não sendo suficiente, o povo rural fica com a venda de sua força de trabalho para a indústria como sendo a sua única alternativa. 
As terras que antes eram povoadas por diversas famílias (pequenos proprietários), que produziam para a sua subsistência, passaram a pertencer a poucos grandes arrendatários, gerando o monopólio em torno desses meios de subsistência. O cercamento dessas terras expulsou os trabalhadores rurais para as cidades e manufaturas.
Nesse ponto, as interferências do capitalismo, em seus primórdios, na cultura de produção rural ficam explícitas. A produção e o sistema de trabalho deixam de funcionar de modo a suprir, como objetivo, a subsistência da comunidade. Em contraponto, o princípio da produção passa a ser o excedente.

Lênin traz a organização das famílias camponesas patriarcais, comunidades rurais primitivas e domínios feudais como unidades econômicas homogêneas em torno de uma economia natural, em que cada unidade executa todos os tipos de trabalhos, sendo participante de todo o processo de produção (desde a obtenção da matéria-prima até a realização do consumo).
Essa economia natural passa a sofrer interferência e ser substituída pela economia mercantil, em que as unidades econômicas são heterogêneas, ou seja, a produção é repartida, de modo que cada unidade exerce apenas uma função.
Pode-se observar em todos os países em que o capitalismo se desenvolveu, segundo Lênin, o processo de transformação da agricultura em indústrias. Além disso, observa-se o intenso processo de especialização, fragmentando a produção, que as regiões agrícolas passam. Decorre-se a isso o início das trocas de produtos (agrícolas mercantilizados, entre si, e industriais), pois não há mais um setor que produza todos os meios de subsistência.
Assim, a interferência do capitalismo, em seu desenvolvimento, nas comunidades rurais ocorre, principalmente, a partir da divisão social do trabalho e fragmentação da produção, o que se vê no desenvolvimento histórico, mas também no sistema de produção agrícola atual (não de modo absoluto).
O movimento do capitalismo tende a ser crescente. Esse movimento constante pressupõe a diminuição dos povos rurais em detrimento do setor urbano, haja vista que novas terras precisam ser expropriadas para o contínuo crescimento do capital variável e, tão logo, do capital constante, na exploração dessas novas terras. Essa expropriação também gera mão de obra às indústrias, aumentando a produção. 
A perda dos meios de produção que o pequeno produtor sofre, apesar da “liberação” desse sistema de trabalho, causa prejuízos ao seu bem-estar. Esses prejuízos são consequências que decorrem da transformação do que antes era meio de produção e de subsistência do produtor em mercadorias do novo proprietário que serão consumidas pelo primeiro.
Esse processo, como o próprio capitalismo como um todo, é crescente, e o pequeno produtor tem de cada vez mais vender a sua força de trabalho e, na mesma proporção, é cada vez maior os meios de subsistência que ele precisa comprar. Lênin chama tal processo de “ruína” do pequeno produtor rural. Cabe ressaltar, neste ponto, que esse processo também cria o mercado interno.

O mundo rural, a partir desse desenvolvimento histórico, passa a apresentar todas as contradições existentes em qualquer sistema capitalista: o monopólio dos meios e da produção, a detenção do capital por uma minoria, a proletarização da maioria; a concorrência, etc.
No entanto, para além disso, a região rural, ainda reserva, sob a visão de Lênin em uma análise da Rússia,  a base mais profunda e sólida do capitalismo, devido à tradição da antiguidade sobre a qual as comunidades rurais se erguem, carregando em si princípios patriarcais. Esse elemento impede que justamente o que é chamado de “ação transformadora do capitalismo”, ou seja, o rompimento com a velha tradição conservadora e a mudança das relações sociais, desenvolva-se plenamente.
Uma interferência crucial do capitalismo na organização rural é a própria desintegração da comunidade e divisão de classes: de um lado se tem a burguesia rural, que contém os proprietários industriais e comerciais, e os grandes proprietários de terra; por outro, o proletariado rural, em que sem encontram os assalariados, o campesinato pobre, que possuem um lote comunitário ou não possuem terras. Estes têm a sua sobrevivência diretamente dependente à venda de sua força de trabalho, e seu nível de vida é extremamente baixo, assim como o seu consumo.
Passa a haver, também, uma classe intermediária, que Lênin chama de campesinato médio. Trata-se de um grupo menos desenvolvido que a burguesia rural, mas com poder de consumo, que sobrevive em um ciclo em que contrai dívidas que depois precisará pagar, portanto, procura trabalho e rendas suplementares, vendendo, também, a sua força de trabalho. Esse grupo tem um papel importante no sistema capitalista, a partir de sua instabilidade social: em momentos de crise, os camponeses médios são eliminados, uma minoria passa a fazer da burguesia rural – a maioria intensifica a classe de assalariados.

Para Weber, as intervenções do capitalismo no meio urbano de uma determinada região (país) afeta, em uma mesma dimensão, a comunidade rural. Portanto, as diferenças de desenvolvimento das comunidades rurais entre os países citadas em seu trabalho estão de acordo com as diferenças das próprias comunidades urbanas e as intervenções pelo capitalismo nas últimas.
A quantidade de matéria-prima e mão-de-obra (força de trabalho) presentes no território são elementos determinantes em como decorre o processo de produção, intervindo nas comunidades, e não deixando diferenças quanto a problemas sociais entre o urbano e o rural. As diferenças profundas de problemas sociais encontram-se entre um território e outro (em que as características anteriores também se diferem).
A questão histórica, ou seja, o fato dos países europeus pertencerem a uma civilização mais antiga do que os Estados Unidos, coloca elementos cruciais nessa diferenciação de desenvolvimento do capitalismo. Na Europa a força da tradição e do alto valor da terra, que são elementos dessa sociedade rural mais antiga, interferem profundamente (na mesma medida em que recebem interferência) na inserção do sistema capitalista.
A partir de alguns exemplos europeus, nota-se as influências do mercado na produção agrícola do camponês. A independência deste está ligada ao fato do camponês ser dono da terra e de seus meios de produção.
Há uma característica peculiar no território rural: o seu vínculo mais profundo com o período histórico anterior, a tradição, o conservadorismo.
Diante dessas características e influências no Continente Europeu, essa resistência do território rural, a diferenciação maior entre a aristocracia rural e a burguesia urbana (que é menos resistente ao capitalismo pelo menor vínculo com o período histórico anterior), o capitalismo interveio no setor rural europeu de modo autoritário, de modo a romper agressivamente tal resistência. Cabe ressaltar que o capital interfere na medida em que se sobressai a importância qualitativa do trabalho.
Chayanov (1981), além de outro período, trabalha sob uma perspectiva diferente, pois alega estar grande parte da organização econômica, principalmente quanto à produção agrária, baseada em uma “unidade econômica familiar não assalariada”.
Sobre o caráter qualitativo do trabalho na unidade familiar econômica, o produto final é a quantidade de bens equivalente à quantidade de trabalho da família. Essa quantidade de bens pode ser trocada no mercado por outros produtos equivalente ao produto bruto de sua unidade econômica. Não há outro modo de renda nem como calcular o lucro de um ponto de vista capitalista, quantitativamente.
Chayanov ressalta as interferências, na produção, do contexto territorial, distância dos mercados, número de integrantes da família, capacidade e condições de produção, etc. No entanto, o excedente produzido por unidades econômicas a partir melhores condições em algum desses pontos, que será maior que em outras com condições piores, não é equivalente ao lucro do capitalismo.

2. Processo de formação da estrutura agrária brasileira

Costuma-se pensar na história do Brasil a partir de uma colonização português, partindo desse evento isoladamente. Caio Prado Jr. traz em seu trabalho, Formação do Brasil Contemporâneo (Prado Jr., 1979), a necessidade de olhar para esse evento apenas “como parte de um todo”. Além disso, há a necessidade de olhar para os motivos inspiradores e determinantes da colonização e o seu decorrer.
Os portugueses buscavam privilégios geográficos, relacionados a outros territórios já explorados e ocupados. O objetivo principal da exploração da costa africana e ocupação das novas terras era o tráfico.
A América parecia, a priori, não oferecer o proveito esperado nessas rotas de exploração, tratava-se de um território primitivo habitado por alguns indígenas. Os portugueses tiveram o papel de “povoar e organizar a produção”.
O colono europeu também vem dispor de sua energia de trabalho para dirigir um processo de produção e obter alguma renda que lhe valesse a pena de vir, contando que outros trabalhassem para ele.
O processo de ocupação e exploração do Brasil se deu em torno da agricultura. O território brasileiro passou por processos de desenvolvimentos diferentes em cada região. O planalto paulista, passando a representar mais do que o próprio litoral, representou a principal região em que se produzia açúcar. A partir disso, São Paulo passa a progredir. Já os produtores de café buscaram, para sua produção, as encostas da serra, permanecendo no bordo oriental do planalto, retornando ao litoral ocupado no início.
O sertão nordestino, região historicamente afetada pela seca, foi substituído pela costa e, como produtores de carne, pela região sul, mais especificamente, pelo Rio Grande do Sul.
Na análise do desenvolvimento da agricultura colonial brasileira, Caio Prado distingue dois setores: 1) grande lavoura e 2) e agricultura de subsistência. A primeira possui como característica fundamental a exploração em larga escala; tem em sua organização unidades produtoras, a partir de grandes áreas e grande quantidade de trabalhadores, com seus trabalhos especializados. Na produção de açúcar, tal modo de organização era bastante comum.
Este modo de organização, a relação de exploração rural nas grandes lavouras e indústrias anexas, deixou bastantes frutos no complexo de relações sociais existentes na atualidade brasileira. Aliás, pode-se afirmar que, de fato, estruturou as classes sociais da população do Brasil.
Enquanto a grande lavoura possibilita ao Brasil as grandes exportações de produtos, a agricultura de subsistência possibilita exportações em menor escala. Esta possui outro modo de organização, em uma unidade familiar (contingente bem menor de trabalhadores). Contribui também para a empresa comercial e o consumo interno do Brasil. Caio Prado Jr., trata tal estrutura agrária como um “apêndice” da grande lavoura. 

A agricultura itinerante atinge maior intensidade a partir de 1930, com a crise econômica mundial (Martine, G. e Garcia, R. C., 1987), que fortaleceu a indústria incipiente em detrimento das importações. A partir de então, trabalhadores rurais dispersaram-se pelo país em busca de terras. Outra grande parte desses trabalhadores migraram para o setor urbano.
Segundo Guilherme C. Delgado (2005), o período do regime militar (1965 – 1982) incorpora uma nova demanda: o estreitamento das relações técnicas da agricultura com a indústria e destas com o mercado externo, de acordo com as políticas comerciais da época.
Neste período há o que é chamada de modernização conservadora. Aumenta-se a produtividade, a diversidade e o declínio do antigo padrão do setor rural. Dessa forma, geram-se demandas de produtos industriais, e se intensifica a política de créditos.
Em 1971, com o avanço da modernização da agricultura e as necessidades de eficiência e articulação, surge, criada pelo governo, a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (EMBRAPA). Esta sofre influência dos centros internacionais, a partir do fornecimento de subsídios, técnicos, orientações, etc. Este é um tipo de controle de setores privados sobre instituições que comumente ocorre nesse tipo de relação – em que não há autonomia diante da dependência de recursos das últimas pelos primeiros.
Esses elementos que aparecem nesse período são características da chamada Revolução Verde, que se tratou de um programa com o objetivo de aumentar a produtividade agrícola no mundo, que teve seu início nos Estados Unidos. Os interesses econômicos da Revolução Verde baseavam-se em expandir as empresas de grupos econômicos internacionais, ampliando a venda de insumos agrícolas (máquinas, fertilizantes, implementos, etc.) (Brum, 1988).
Segundo Brum, apesar de tais interesses, as consequências da Revolução Verde foram positivas aos países que realizaram a redistribuição de terras, pois trouxe benefícios à maioria da população. Já em países como o Brasil, em que não houve nenhuma reestruturação na forma de propriedade, as consequências econômicas e sociais foram ruins: tratou-se de um instrumento de modernização conservadora, intensificando a dependência e internacionalização da economia, e os proprietários rurais foram, ainda mais, marginalizados.
Cabe acrescentar os objetivos primordiais da modernização da agricultura, citados por Brum, que se tratam do aumento da mais-valia apropriada pelo capitalista, a partir do aumento da produtividade do trabalho concebido pela introdução de equipamentos modernos “capacitantes de operários”; o aumento da taxa de lucro; a superação do conflito entre o capital e o latifúndio, tornando este elemento essencial da produção, e a satisfação de interesses do complexo agroindustrial.
Com o fim do regime militar, inicia-se um período de intensa contradição em torno da questão agrária. Durante a ditadura não houve espaço para discussão em torno do tema, o que justifica a ampla organização de movimentos sociais vinculados a partir da década de 80, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Além e a partir da movimentação política e social em torno da questão agrária, a constituição sofre alterações (Constituição de 1988), garantindo a função social no estatuto da propriedade fundiária.
No entanto, com a implementação das políticas neoliberais, o crescimento do vínculo com o mercado externo, o desenvolvimento do agronegócio, a estrutura fundiária manteve-se com a sua principal característica secular, a desigualdade.
A concentração de terras mantém-se, até então, de forma legitimada pelo estado.

3. A estrutura da agricultura familiar na atualidade

As discussões sobre a agricultura familiar, hoje, colocam em questão a representação e identidade do trabalhador rural. Este, ao mesmo tempo em que se insere no mercado, recebe ações do Estado, a partir de programas e políticas públicas (Wanderley, 2009).
Sobre o campesinato, tem no agricultor tal elemento como uma base histórica. Por mais que tenha havido certa ruptura com as características tradicionais de organização familiar e de produção do camponês para o agricultor familiar, como a mecanização da agricultura; o conhecimento técnico; a relevância da produtividade, etc., devido à própria estrutura da sociedade, a organização do agricultor está em torno da família.
Apesar do fato de que a produção da agricultura familiar precisa atender ao mercado externo, e de que as relações econômicas visando a produtividade e o lucro interferem nas relações dentro da família – inserindo a situação de “negócios entre pais/mães e filhos/filhas”, esta produção também é consumida pela própria família, ocorre no ambiente em que vivem os produtores e tem o tempo e a diversificação de atividades administradas pelos próprios produtores/moradores/familiares. Ou seja, a organização, a matéria-prima, os instrumentos, os saberes e o espaço em que se desenvolve o trabalho da família não se trata apenas de questões técnicas, mas sim do pertencimento dos sujeitos a uma cultura e resistência às formas de dominação políticas e econômicas (Rambaud apud Wanderley, 2003).
De qualquer forma, as interferências do capitalismo na organização da produção irrompem em elementos essenciais na vida do agricultor familiar. A produção, mesmo que em torno do núcleo familiar, está mais próxima de uma profissão do que de um modo de vida, e os resultados dessa produção precisam atender a um mercado externo, além da subsistência da própria família.
Além disso, os saberes tradicionais não são mais suficientes para garantir a produção, nem um desenvolvimento desse conhecimento aplicável que parta da própria comunidade, levando em conta a sua história e cultura. Mas o conhecimento técnico, como algo alheio e necessário, surge como base para a orientação do desenvolvimento da produção e organização econômica, influenciando dentro da própria estrutura familiar.

4. Coação e emancipação do sujeito a partir do modo de produção agrário

A perda dos meios de produção que o pequeno produtor sofre, aliada à transformação de sua produção, que antes tinha como objetivo a sua subsistência, em objetos de mercado de valor numérico faz parte do início da reificação do sujeito e da perda da submissão à sua própria subjetividade.
Considera-se, segundo Habermas, o agir instrumental do sujeito correspondente à natureza exterior, em que o mesmo utiliza de sua força de produção e técnica para a coerção da natureza externa. Esta força de produção, repressão, coerção e criação a partir da técnica, que ao voltar-se para a natureza interna torna-se agir comunicativo, promovendo a interação social, perde o seu valor para a subjetividade do indivíduo quando o seu produto final é um objeto alheio a ele próprio. Ou seja, a produção advinda da força de trabalho do sujeito, que é elemento essencial da sua subjetividade inscrita na realidade material, torna-se não dele quando passa a ser quantitativo e pertencente ao mercado. A subjetividade do sujeito passa a ser do mercado.
A coação exterior coloca em jogo o agir instrumental do indivíduo, a partir do momento que o nível das forças produtivas determina o alcance da disponibilidade técnica sobre as forças da natureza em detrimento do processo de produção de um saber aplicável. Neste ponto, pode-se dizer que o sujeito é separado do próprio processo de produção, estando alienado a forças produtivas exteriores que determinam os próprios limites de sua criação. Afirma-se, ainda, que o sujeito separa-se da própria materialidade responsável pela sua individualidade.

O camponês , com a sua organização de produção a partir de um núcleo familiar e o seu objetivo de subsistência possui uma relação com o trabalho que se difere da relação do produtor moderno.
O primeiro analisa o seu produto de forma qualitativa, ao atender as necessidades básicas da família, podendo transformação a sua relação com o trabalho em uma relação de criação, a partir de um saber aplicável e da coerção de sua ação instrumental. Esta, a ação do trabalho (de criar e modificar), estando aliada à personalidade do sujeito, não coagido pelo sistema externo de forças produtivas, é uma forma de descarga psíquica, que gera prazer e constrói a subjetividade do indivíduo (Dejours, 1994). 
Wanderley traz em seu trabalho “Agricultura familiar e campesinato: rupturas e continuidade” o que Brandão (1999) chama de “o afeto da terra”, em que o agricultor familiar, no desenvolvimento do seu trabalho, mostra-se como aquele que age de acordo com natureza, com comprometimento e respeito. Não se trata de uma ação degradante com o objetivo de modificar, produzir, correspondendo demandas externas e lucrar, em que tanto o processo de produção como o produto em si estão alheios a si próprio, mas, ao contrário, a partir do conhecimento detalhado da natureza, das estratégias e saberes tradicionais que integram o objetivo do agricultor para com o resultado final do produto à preservação do ambiente em que ele próprio vive, trata-se da ação, modificação e criação de forma integrada com o ambiente, inscrevendo a sua subjetividade em todo o processo.
Os produtos artesanais, por exemplo, trazem em si a criatividade do sujeito no momento de sua produção, materialmente, nesses produtos se tem a inscrição subjetiva do indivíduo, e o seu valor é qualitativo. Isto é, quando tais produtos não são produzidos com o objetivo de atingir o mercado de modo premeditado, pois, quando isso acontece, passam a ser medidos quantitativamente e produzidos em grande número.
O pequeno produtor, que trabalha em relação às demandas dos mercados, calculando a sua produção quantitativamente, sofre, segundo Dejour, do sofrimento patogênico de criação empurrado pelas forças produtivas a partir do modo de organização: com hierarquia, controle, imposição de ritmos, fragmentação. Este modo de organização entra em conflito com o funcionamento psíquico dos homens e mulheres, e gera problemas na saúde mental destes quando a organização do trabalho não entra em acordo com os desejos dos sujeitos, não havendo, assim, descarga psíquica durante o processo de produção, ao contrário, a tendência é o aumento da tensão psíquica.

A produção organizada na lógica da agricultura familiar é considerada mais sustentável, por Veiga, do que a agricultura patronal, por elementos simples como o fato de que o agricultor familiar vive onde ocorre a produção e a relação da produção com a subsistência da família é maior. Esta está mais vinculada ao seu trabalho, vendo-se de forma mais intensa em sua produção.
Neste caso, pode-se afirmar que é sustentável nos sentidos ecológico, econômico e social. Quanto ao último, afirma-se a sustentabilidade na própria organização da comunidade, relação dos sujeitos entre si e com a natureza.
Algumas organizações trabalham em torno da agroecologia, esta relação mais integrada com o ambiente traz um agir instrumental emancipador ao sujeito, em que a repressão de sua energia e força de trabalho funciona de modo não degradante, ao mesmo tempo que canaliza a sua ação para produção de materiais de subsistência, produtos de seu saber aplicável, com os quais o sujeito exerce, durante todo o processo de produção, a sua criatividade e inscrição subjetiva, fazendo com o que a função material adquira o seu papel na construção da subjetividade do indivíduo social. Isto é, trabalhar com uma plantação diversificada (o produtor pode visualizar o consumo dos alimentos pela própria comunidade), orgânica (em que o agricultor aplica estratégias que conhece no lugar de agrotóxicos), repleta de saberes tradicionais e de raízes culturais inscreve no produto o valor do trabalho e da subjetividade do indivíduo, incluindo a sua história, a ele próprio e à comunidade.

5. Considerações Finais

O capitalismo interferiu de diferentes modos em cada região e período histórico, assim como se deu o seu próprio desenvolvimento nos locais onde se davam os modos de organização em torno do campesinato.
A quase impossibilidade de desenvolvimento de qualquer comunidade rural sem qualquer capitalização de recursos faz com que hoje não exista organizações campesinas completamente livres do mercado, no entanto, as raízes de tal cultura se movimentam, também, para interferir e transformar a cultura do capital.
O modo de organização de produção da agricultura familiar, ainda que atenda às exigências do mercado, garante qualidade aos alimentos e de vida aos próprios trabalhadores. O método de produção desenvolvido na pequena propriedade familiar, que se trata de um método coletivo, integrado com a natureza, diversificado, voltado para a subsistência da comunidade, preservação do ambiente e tem em si afeto para com o produto, espaço, matéria-prima e o próprio trabalho dá ao sujeito o pertencimento a todo processo, fazendo com que veja a si mesmo no resultado final da produção. Dessa forma, a qualidade do produto aumenta, pois o produtor não é apenas uma parte técnica do todo, em que o produto é demandado por setores completamente externos a ele e sua comunidade, mas, além do sujeito que produziu, é consumidor e criador do material produzido.


Referências

BRUM. Modernização da agricultura: trigo e soja. Petrópolis: Vozes, 1988. Cap. 4 – A revolução verde, Pp. 44-50; Cap. 6 – Modernização da agricultura no Planalto Gaúcho, pp. 56- 89.

CHAYANOV, A. La Organización de la Unidad Económica Campesina. Buenos Aires: Nueva Visión, 1974. Introducción, pp. 25-45.

DEJOURS, C.; ABDOUCHELI, E.; JAYET, C.  Psicodinâmica do trabalho: contribuições da Escola Dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho.  São Paulo: Atlas, 1994.
DELGADO, G. C. A Questão Agrária no Brasil, 1950-2003. In: JACCOUD, L. (org.). Questão social e políticas sociais no Brasil contemporâneo. Brasília: IPEA, 2005. pp. 51-61.
HABERMAS, J. Teoria de la acción comunicativa I - Racionalidad de la acción y racionalización social. Madri: Taurus, 1987.   
LÊNIN, V. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. São Paulo: Abril,
 1982. Cap. 1 – Os erros teóricos dos economistas populistas, pp. 13-16;
 Conclusões do capítulo II, pp. 112-121.

MARTINE, G.; GARCIA, R. C. Impactos sociais da modernização da agrícola. São Paulo: Ed. Caetés, 1987. Cap. 4 – Êxodo rural, concentração urbana e fronteira agrícola. Pp. 59-78.

MARX, K. O capital. 30ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012 (livro 1,
 vol. 2). A chamada acumulação primitiva, pp. 825-847 e 858-862.

MARX, K. & ENGELS, F. A Ideologia Alemã. Trad. Castro e Costa, L. C. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

PRADO JR., C. A questão agrária. São Paulo: Brasiliense, 1979.

VEIGA, J. E. da. Agricultura familiar e sustentabilidade. Cadernos de Ciência & Tecnologia. Brasília, v.13, n.3, 1996, p.383-404.

WANDERLEY, M. N. B. O mundo rural como espaço de vida: reflexões sobre a propriedade da terra, agricultura familiar e ruralidade. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2009. Apresentação, pp. 12-17; Agricultura familiar e campesinato: rupturas e continuidades, pp. 185-200.

WEBER, M. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. Capitalismo e

 sociedade rural na Alemanha, pp. 413-437.

3 de jan de 2015

Negra Sombra

Se essa noite
com essa lua
e esse vento
num filme espanhol
mais esse sentimento de ser triste
que o pensamento chega até na morte
pedindo por poesia
assim, cruza-se por Bandeira
e chega até Cecília
não há por que reclamar
o encontro com a poesia
vale o sem-vontade e o saber que vai morrer