30 de dez de 2014

Sobre o Início do Tratamento de Freud


Freud começa o texto “Início do Tratamento”, de 1913, fazendo uma analogia entre as técnicas do tratamento psicanalítico com as regras de um jogo de xadrez.  No jogo, segundo ele, há uma infinidade de movimentos após a abertura que de forma a não poderem ser tratados de modo sistemático e premeditado, pode-se dizer que na sessão psicanalítica ocorre dessa forma. Nos dois casos, apenas um estudo de experiências anteriores pode preencher lacunas no momento da ação.
Os movimentos de uma sessão psicanalítica surgem pelo lado do terapeuta e do paciente, de forma infinita, pois como o próprio autor traz em seu trabalho, há uma “extraordinária diversidade das constelações psíquicas envolvidas, plasticidade de todos os processos anímicos e riqueza de fatores determinantes” que tornam inviável o uso rígido de regras técnicas.
De qualquer forma, se salva o início do tratamento como um período em há uma possibilidade maior quanto ao seguimento de normas (como o próprio xadrez).
Sobre o tempo, quanto à periodicidade, cabe ao terapeuta marcar os horários fixos semanais do paciente. Este horário pode servir para a organização do primeiro, para estabelecer alguma norma, etc., mas, principalmente, demarca ao paciente que esse tempo - usualmente uma hora diária, três horas semanais, segundo Freud – é um tempo específico para seu uso, colocando o terapeuta e o ambiente da sessão como componentes disponíveis ao paciente.
Quanto ao tempo de duração do tratamento, não se pode prever, apesar de a partir de experiências anteriores poder ter alguma ideia, como já foi dito anteriormente, os movimentos durante a sessão tem possibilidades diversas e encadeamentos infinitos, fazendo com que a duração do tratamento também não possa ser premeditada. No entanto, é necessário que se revele ao paciente que o tratamento pode ser estender por um longo período, de modo a ele não se sentir enganado no decorrer das sessões. 
Sobre os honorários do terapeuta, a questão do pagamento na psicanálise está para além de obtenção de poder no terapeuta e a sua autopreservação. Freud traz, neste ponto, elementos sexuais envolvidos, como “duplicidade, falso pudor e hipocrisia”. Deste modo, tratar o dinheiro na relação entre terapeuta e paciente com maior franqueza possível, sem falsa polidez ou cordialidade quanto ao estimo por seu tempo faz parte de um início de uma relação também franca e com o mínimo de duplicidade. Aliás, tal característica me parece fundamental para um tratamento psicanalítico, de modo que paciente e terapeuta possam encarar a realidade e produzir alguma coisa.
Outro elemento, ainda quanto ao pagamento, que Freud trata é de que o tratamento gratuito pode gerar resistências em pacientes neuróticos. O “dever da gratidão” vem de modo a afastar o tratamento da realidade e o paciente pode se empenhar em menor proporção para chegar ao final do tratamento. Além do mais, o dinheiro funciona como um regulador na relação.
Dessa forma, as diferenças econômicas entre as classes sociais interfere na possibilidade de um tratamento efetivo, ao menos nesse contexto histórico-cultural. Fica uma questão de como esse processo pode ocorrer na atualidade, com as mudanças nas relações econômicas, principalmente a partir de intervenções públicas.
A psicanálise e suas produções, nessa lógica, parece um bem privado que talvez possa ser superado hoje em dia. Se o regulador, que é o dinheiro, não passa de forma direta do paciente ao terapeuta, mas o intermédio do setor público, garantindo o tratamento daqueles que não possuem condições financeiras, não pode, também, assumir uma função de regulador da relação? E eliminar da identidade do terapeuta diante do paciente o dever da gratidão?



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