28 de dez de 2014

O lúdico nos grupos infantis

1.      Psicoterapia de Grupos com Crianças

Os trabalhos em grupo têm a característica de trabalhar a narrativa coletiva, o entrelace entre discursos, pensamentos e emoções. No caso da psicoterapia infantil, há o elemento do enquadre das especificidades desses sujeitos, assim como a captação de sintomas.
Um elemento fundamental para a condução de um grupo é ter claro os objetivos propostos e critérios de inserção de seus membros, assim como o modo como se dará a composição, o enquadramento e a técnica utilizada.
De modo geral, a seleção das crianças ocorre por meio de avaliações. Pode-se recolher os dados de anamnese e entrevistas com os pais, conhecendo as motivações de busca do serviço e entrevistas lúdicas com as crianças. A contraindicação do grupo ocorre para crianças com perturbações mais severas, como transtornos de personalidade, perversidade, compulsões, etc.
Durante a psicoterapia são apresentadas, no contrato com a criança, as regras do grupo. Segundo Ginott e Leibovici, alguns limites são comuns entre terapias de diferentes orientações: agressão direcionada aos outros sujeitos do grupo; agressão direcionada a equipamentos; comportamentos socialmente inaceitáveis; áreas de segurança; rotinas, horários; manifestações físicas de afeto; levar lanche ou outras pessoas no ambiente da terapia; permanecer na sala após o fim da sessão.
No grupo se leva em conta os padrões de adaptação, ansiedades, comunicação, inter-relação a partir de jogos. Avalia-se, também, a motivação para maturidade no tratamento, os conflitos psíquicos e a flexibilidade para com tensões que emergem, de modo a diminuí-las.
Quanto à integração entre os membros, considera-se a coesão entre os mesmos e o terapeuta, inclinação social, capacidade de compartilhar segredos ou não e de trocar papéis.
No grupo os sentimentos, problemas, ansiedades e fantasias dos sujeitos se encontram. Estes, por sua vez, passam a ter o sentimento de pertença e compreensão, junto aos outros membros do grupo. O ambiente da psicoterapia é um espaço de aprendizagem de outras formas de relacionamento, tanto entre os membros quanto com o terapeuta.

2.     O Lúdico nos Grupos Infantis

Há diversas dinâmicas que podem ser utilizadas em grupos terapêuticos. No caso de grupos infantis, é essencial que as dinâmicas e técnicas utilizadas contenham o aspecto lúdico. O exemplo do trabalho com contos, em grupos, demonstra a presença da simbolização e dos encontros entre as crianças a partir das narrativas e reflexões coletivas.
Gutfreind trabalha a teoria do eixo lúdico e do eixo reflexivo, na técnica em que se utiliza contos em grupos infantis. O primeiro caracteriza-se, além do prazer e do momento de criatividade que propicia, pela criação de um espaço interno no pequeno sujeito. O eixo reflexivo traz a capacidade do movimento da criança para gerar significados às suas angústias e ansiedades, a partir da reflexão e atividade do pensamento.
Além disso, significar sentimentos e conflitos psíquicos é conhecer o, até então não conhecido, a partir do discurso. Reconhece-se a partir da nomeação, e o “novo conhecido” pode ser representado, relacionado a outras situações e elementos da vida da criança. Isso, no caso dos grupos, de forma coletiva, promovendo a inclinação social por meio das trocas, encontros, compartilhamentos, acolhimentos e da construção de um inconsciente.
O inconsciente ocupa lugar no grupo, Kaës (1997) elaborou as seguintes hipóteses:
1)      o grupo enquanto lugar em que o sujeito deposita suas fantasias inconscientes;
2)     o grupo enquanto lugar onde as fantasias inconscientes do sujeito são trabalhadas,
3)     o grupo enquanto lugar onde se produz o inconsciente, a partir das exigências do mesmo.

O conto, ainda, traz o elemento das metáforas, funcionando como um suporte para as elaborações das situações que ocorrem na vida das crianças, abarcando uma série de emoções, muitas vezes não abordadas pela palavra, e atuando na construção de sua consciência reflexiva e de seu próprio inconsciente.

3.     Considerações Finais

No grupo se tem o potencial de trabalhar as trocas, os vínculos, acolhimento, as elaborações, a comunicação, a inter-relações, além de questões individuais que também podem ser trabalhar em uma psicoterapia individual.
As técnicas e dinâmicas de grupos têm dispositivos que podem contribuir tornando a terapia ainda mais efetiva para chegar aos objetivos determinados. Os contos, e terapias infantis, demonstram a capacidade de desenvolver o aspecto lúdico e reflexivo em crianças, além das características sociais necessárias a um sujeito para a sua saúde mental.

Referências:
GINOTT, H. G. Psicoterapia de Grupo de Crianças. Belo Horizonte, Interlivros, 1979.
GUTFREIND, C. O terapeuta e o lobo. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2003.
KAËS, R. O grupo e sujeito do grupo. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997.
LEIBOVICI, S. & DIATKINE, R. Significado e Função do Brinquedo na Criança. Porto Alegre, Artes Médicas, 1988.


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