30 de nov de 2014

sem auê


já não realizo despedidas,
como um evento, uma festa,
algo pontual, definitivo e preciso
- como se houvesse como se ter o momento exato em que a vida muda

despedida é coisa que acontece todo dia.

eu já não me despeço
já não acredito na precisão da partida
na pontualidade do final
na transformação definitiva
na premeditação da falta

falta é coisa que acontece.

e apesar de saber do tempo que vai se passar
e do que se muda, e do que se muda no outro, e do que se muda no jogo
e do que se muda na vida toda e no mundo
e no que se muda...
e que quando se volta, não se volta nunca
porque mudou
(e acho que já tinha mudado antes de ter ido
porque foi mudando aos poucos)

- e a despedida é apreender um mudar aos poucos -

eu não vou fazer auê.
desculpa, mas eu não vou avisar quando terminar
não vou dizer que acabou
se vou partir
se vai partir
não
eu não vou enganar ninguém
forçando algo que não tem como forçar.

eu vou sair de fininho
sempre que sair
e assim eu vou chegar.

tão sutil que só perceberá quem realmente merecer a despedida
que vem do silencio
da última tragada
da vista de cada janela
de cada fundo de cada olho

sem aviso por baixo da porta.

não, eu não vou fazer auê.

3 de nov de 2014

Nação


A arrogância gaúcha me incomoda. Sinceramente. Me contorce o estômago. "Vamos separar o Rio Grande do Sul do resto do Brasil". Eis a nossa "eterna batalha". Eu só consigo pensar: deus me livre!

Deus me livre perder o nordeste, a raiz cultural mais bonita desse país. Mais nossa. Mais a gente. O pedaço da história mais emocionante. A processo de produção mais doído. A vegetação mais teimosa.
E a chuva que não-se-sabe. E a água que não tem. E quando tem, tem que buscar, num chão de sertão, que é sertão mesmo (e não como aqui, que a gente faz piada em dia muito quente, chamando nosso calor de calor de sertão).

Deus me livre perder a força do sertanejo!

Lá chove pouco, sim. A gente não sabe que é difícil quando não chove?
A exploração e o descaso dos europeus, no início do que chamamos de descoberta e desenvolvimento do Brasil, se deu de modo mais brutal no sertão. A gente não sabe que a coisa toda não começou hoje?

O que se ouve, com mais frequência, pós-eleições: o nordestino é preguiçoso. O nordestino é burro. O nordestino não sabe votar.
A gente não sabe que isso não tem cabimento?
A gente não sabe ou não quer saber para não perder a pose de macho do país?

Porque, para estar a cima, precisa haver quem esteja por baixo.
E, de modo perverso, elegemos o nordeste.