8 de ago de 2014

Competência




O que, de fato, se trata o conceito de competência?

O conceito de competência passa por diversas definições, Perrenoud fala em seu artigo das três pistas falsas, apesar de aceitáveis. Primeiro como a necessidade de expressar objetivos a partir de práticas observáveis, colocando a competência como uma simples forma de pedagogia por objetivos; relacionando a uma meta verificável, a partir da aquisição escolar. Desse modo, a competência confunde-se com um modo de ensino centrado em conhecimentos, nas palavras de autor.
Outra relação conceitual da competência é com os desempenhos observáveis dos estudantes, o que reduz também a esfera de sua conceitualização. Observar o desempenho dos alunos e o seu desenvolvimento está na dimensão do saber, no entanto, as competências não se reduzem a tal esfera, pois as relações mentais devem se incluir.
Outra concepção que traz Perrenoud é a de Chomsky (1977), na perspectiva de competência lingüística e sua “capacidade de produção infinita”. Ou seja, todo e qualquer ser humano tem uma potencialidade infinita para produzir frases e ações. Não há predefinições em tais atos humanos, a todo dia inventa-se novos conjuntos de frases e ações. Todavia, o autor, Perrenoud, analisa tal ponto como um equívoco, pois, sim todos os seres humanos possuem o potencial de construção de competências, porém, estas não são espontâneas e reforçadas desde o início. As competências são desenvolvidas pelos sujeitos, junto à maturação do sistema nervoso, a partir de seus aprendizados construídos.

Linguagem enquanto competência

A linguagem é um bom exemplo para tratar do desenvolvimento de uma competência. Na escola, ao ensinar as regras gramaticais e realizar alguns exercícios de interpretações de textos em línguas estrangeiras com estudantes, uma vez por semana, não se tem um desenvolvimento da competência de determinado idioma de forma a ser utilizado com efetividade no futuro.
O desenvolvimento da competência deve ter uma aprendizagem com exercícios freqüentes e a prática como fundamental para a aquisição da mesma. A partir da prática do exercício de um idioma estrangeiro e sua interação que surgem as infinitas possibilidades em potencial citadas por Chomsky. Ao se ver produzindo frase que não foram pré-determinadas o sujeito estará, nesse momento, aprimorando o seu conhecimento a partir de operações mentais e objetivas.
A noção de competência perpassa pela concepção de inserção do sujeito em um mundo em que desenvolve, com seu potencial, suas experiências, hábitos e práticas, um conhecimento do qual tenha efetuação praticamente automática. Como a língua que desenvolvemos desde a nossa origem. A linguagem se encaixa perfeitamente nesse contexto, pois se desenvolver dentro dela é como se desenvolver dentro de um mundo de um conhecimento específico e a partir da prática ter uma relação mental de forte capacidade operativa.
A maturação corporal do indivíduo também se desenvolve de acordo com as competências, o desenvolvimento a partir do esporte exemplifica bem este ponto.

Competência e Esquemas

A competência não existe a partir de um esquema, mas de vários. Ela se desenvolve de tal forma a poder a ser transversal e de ser “utilizada”em múltiplas situações que não são idênticas. A sua formação se dá a partir de diversas experiências que ocorrem durante a vida, que se constituem e se enriquecem de forma a se apresentar nas práticas e no desenvolvimento mental do indivíduo, cada vez mais complexos e especializados.
A construção ocorre de modo pragmático a partir das situações que se apresentam repetidamente na vida do indivíduo, porém, como já citado, de forma não idêntica. As questões desconhecidas que surgem no intermédio das experiências conhecidas, tendem a se somar na construção da competência.

A Competência na formação dos professores

Diante das exposições do autor Perrenoud sobre a noção de competência e da leitura das propostas de diretrizes para a formação inicial de professores da educação básica, em curso de nível superior, do Ministério da Educação (Maio de 2000), identifica-se um grande problema no contexto educacional que é a falta de compactação entre o conhecimento adquirido na formação profissional do professor e o que se espera de sua atuação.
O conhecimento adquirido na formação profissional do professor leva em conta, principalmente, o conteúdo específico pelo qual ele optou (física, matemática, educação infantil) e práticas pedagógicas – porém, na maioria dos casos, essas competências são desenvolvidas de forma desfragmentada. O que limita, na prática, o vínculo entre o conteúdo e a ação pedagógica.
Sem contar que, muitas vezes, a prática não é valorizada nos cursos formadores desses profissionais, fazendo com que não desenvolvam tão bem as suas competências pedagógicas.
Para além do ensino conteúdista, é esperado do professor da educação básica (e não apenas) que contribua para com o aluno em sua formação sócio-cultural, ética, física e afetiva. No entanto, nada disso está incluso na formação profissional do professor.
Outra competência esperada, pelas diretrizes apresentadas pelo Ministério da Educação, é a de formação de autonomia do aluno, compreendendo suas características sociais e econômicas e suas necessidades de desenvolvimento. Porém, como o professor adquire esta competência na graduação?
A formação multi e interdisciplinar também é foco de muita discussão, e influi em quase todas as profissões – extrapolando o assunto então referido. No entanto, a universidade não dá conta de preparar os profissionais, ampla e efetivamente, com tal característica. 
A competência que se esperar dos professores se realiza em diferentes enfoques, para que contribua com o desenvolvimento do estudante para além da reprodução de conteúdos. Ou seja, para que também contribua no desenvolvimento das competências de fato desses estudantes, respeitando as suas singularidades e autonomia, contextos sociais e econômicos. Mas que também não tenham na educação apenas um modo de atingir a um objetivo de reproduzir certo conteúdo por um determinado tempo, sem relação com a dinâmica de sua vida e sem desenvolvimento ligado às capacidades mentais e práticas.




Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Educação. Proposta para a formação inicial de professores da educação básica, em curso de nível superior. 2000.
PERRENOUD, P. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed, p. 23 a 33, 1999.

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