10 de jun de 2014

Entrevista sobre Diagnóstico Clínico na Abordagem Psicanalítica



1. Introdução

A entrevista foi realizada com uma psicóloga clínica de abordagem psicanalítica. O tema psicanalítico não foi premeditado, gerando, posteriormente, questões quanto ao diagnóstico na psicoterapia, e suas diferenciações relacionadas aos princípios teóricos que regem o tratamento.
Inicialmente, na perspectiva da psicanálise, pareceu haver incompatibilidades profundas de tal área com o uso do diagnóstico. No entanto, em um segundo momento pós-entrevista preenchido com estudos teóricos, foi percebido um uso parcial do diagnóstico em psicanálise, porém sem a mesma ênfase que se encontra em outras abordagens.

2. Diagnóstico na abordagem psicanalítica

As investigações clínicas rumo à resolução dos problemas do paciente se dão na dimensão do dizer, segundo a psicanálise. A atuação do psicólogo caracteriza em dois momentos distintos: 1) o momento da psicoterapia em si, a partir da relação com o sujeito e a escuta do psicoterapeuta, e 2) o momento pós-psicoterapia, com a teorização e conceituação do desenvolvido pelo sujeito, e a construção do pensamento diagnóstico. Este pensamento orienta o tratamento, no entanto não o limita (Rosa, M. D., 1996).
Ao diagnosticar, o psicoterapeuta relaciona-se a partir da dimensão sujeito-objetivo com o paciente, incidindo desta forma em sua identidade. Torna-se propício que o último passe a tratar-se também como um objeto, aceitando a explicação prévia, o diagnóstico do psicólogo, como uma forma de controlar a si mesmo– e, por si só, praticando o autocontrole e utilizando das explicações científicas. No entanto, ao contrário de outras abordagens, na perspectiva psicanalítica, tal situação é negativa, pois esse controle sobre si mesmo trata-se apenas de uma impressão ao sujeito.
Outro ponto relevante é o fato de que, em um contexto psicanalítico, os conflitos psíquicos do paciente, que se expressam em sinais e sintomas. Estes não possuem valor diagnóstico em si, pois podem compor diversas formas de quadros clínicos em indivíduos diferentes, do mesmo modo que um quadro clínico pode expressar sintomas e sinais diferentes em sujeitos distintos. A interação do sujeito com




o seu meio e a adaptação do primeiro que trazem consigo uma importância diagnóstica (Romaro, R. A., 1999).
A partir de 1895, Freud passou a alertar sobre a ambiguidade do processo diagnóstico no tratamento clínico psicanalítico: positivamente, falava da necessidade dos apontamentos precoces de um diagnóstico para a condução à cura; porém, ressaltando o fato de que o mesmo só poderia ser confirmado após uma quantidade relevante de tempo do tratamento (Dor, 1994 apud Romaro, R. A., 1999).

3. Entrevista

Linha teórica: Psicanálise.

Sobre o desenvolvimento do diagnóstico: não costuma usar, pelo fato de muitos pacientes chegarem à psicoterapia se autorrotulando (ex.: “eu sou bipolar”). O diagnóstico, na visão da psicóloga entrevistada, acaba limitando o paciente, não permitindo que o discurso flua de forma espontânea. 

Sobre a necessidade do diagnóstico: Para o psicoterapeuta que segue a psicanálise, é importante ter noção da estrutura de base (neurose, psicose etc.) do paciente, para saber como proceder com o tratamento. Mas o diagnóstico que a psiquiatria segue (DSM, CID) não se faz necessário para que ocorra o processo terapêutico.

4. Conclusão

O uso do diagnóstico clínico tem sua relevância diferenciada dependendo da abordagem pela qual é utilizado.
A psicanálise utiliza-o como instrumento, compreendendo a sua importância em certo direcionamento à cura. Todavia, não trata o diagnóstico como ponto crucial para o desenlace do tratamento, tomando, inclusive, cuidado para que o diagnóstico não acabe por limitar a psicoterapia no momento do discurso do paciente.  




Referências Bibliográficas


Rosa, M. D. (1996). O diagnóstico psicanalítico e os métodos projetivos. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 16, nº. 2, Brasília.

Romaro, R. A. (1999). O estabelecimento do diagnóstico em psicanálise. Revista Psicoufsc, v. 3, nº. 2, p. 23.

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