30 de mar de 2014

É tempo de avançar quanto às ações afirmativas na UFSM!



Em nossa vida diária, há vários aspectos da desigualdade vivenciados entre as pessoas nos espaços sociais. As universidades públicas refletem fortemente essa desigualdade em suas práticas tradicionais de ingresso. Com o vestibular, forma tradicional de concorrer às vagas da universidade, a porcentagem de estudantes de escolas públicas, negros (as) e indígenas que conseguem ingressar no ensino superior é mínima. Tal fato ocorre devido a não serem ofertadas a todos e todas as mesmas oportunidades de preparação para a prova de inserção.

Por não existir igualdade de oportunidades ofertadas, nem políticas públicas suficientes que priorizem onde há mais carência de oportunidade, não há equidade. Princípio este que trata desigualmente os desiguais, dando a cada sujeito o que necessário de acordo com as suas condições e levando, de fato, à igualdade social. Portanto, as ações afirmativas, como uma política equitativa, são imprescindíveis para superarmos o contexto desigual em que vivemos.

Em 2012, foi aprovada a lei 12711/2012, garantindo 50% das vagas das universidades federais do país a estudantes provenientes de modo integral das escolas públicas de ensino médio. Dentro desses 50% de vagas reservadas para escolas públicas, há subdivisões: 25% das vagas serão para os estudantes com renda familiar igual ou inferior a um salário mínimo e meio. Também será levado em conta, dentro das vagas destinadas a escolas públicas, o percentual mínimo correspondente ao de sujeitos autodeclarados pretos ou pardos, de acordo com os últimos dados do IBGE. As universidades terão até 2016 para se adaptar.

Nós acreditamos que a lei deve ser cumprida imediatamente, pois implementar apenas os 37,5% de ações afirmativas obrigatórios para este ano é um retrocesso relacionado às conquistas históricas do movimento estudantil da UFSM quanto às cotas e outras políticas estudantis.

A UFSM, cuja Assistência Estudantil é exemplo nacional devido a sua evolução diretamente relacionada à entrada de cotistas, que contribuíram ativamente na construção de uma universidade democrática e popular, não pode estancar em seu processo. Pelo contrário, ressaltamos a importância de aderir aos 50% de cotas este ano, pois é tempo de avançar!

16 de mar de 2014

Etnografia virtual sobre o Canal de Vídeos Porta dos Fundos



Comportamento Dinâmico e Instantâneo

Nesses últimos anos temos vivenciado a era da superinformação, das mensagens e respostas instantâneas, da instabilidade de leitura e atenção, em que diversas informações nos chegam de uma só vez e dificilmente existe uma proposta de se aprofundar em alguma delas, pois, a variedade de informação e de possibilidade de comunicação é imensa, quase infinita.

Diferentemente das mercadorias fordistas, cujo consumo implica o seu desgaste, o consumo do conhecimento, da informação, dos serviços não os esgota e passam a ser um fator importante na atividade criadora requisitada para a produção. (PINHEIRO, M. A., 2008)


Esse processo dinâmico que retém em si milhares de possibilidades para escolher o caminho informativo a ser seguido é a principal característica que diferencia o meio de comunicação da rede virtual e a televisão, que, ao contrário, tem possibilidades de informações bem definidas, não requer a troca de informação, sendo estática - com um sujeito para receber e apreender de sua forma (sendo sempre ativo nessa apreensão, que depende de sua constituição e contexto para compreender e elaborar a informação) a proposta de informação de outro sujeito – que está na construção da programação da TV e que tem consigo, portanto, o poder da informação (claro que o que, aqui, denominamos “sujeitos” pode se tratar, e, na maioria dos casos, se trata, na verdade, de um grupo de sujeitos).

 

Se no ambiente fora do espaço virtual, as novas mercadorias têm em sua produção de significado e valores nas formas estéticas e em seus conteúdos sócio culturais, e as condições de sua possibilidade são justamente o excesso, a banalização, a intensificação e a fluidez (PINHEIRO, M. A., 2008), no ciberespaço não é diferente. Essa diferenciação do meio de comunicação que é a rede virtual, com a sua diversidade de informações, rapidez quanto à propagação e pouca ocupação do tempo é o que contribui no sucesso de microblogs, como o twitter, que aceita, no máximo 180 caracteres por postagem e canais de vídeos que não passam de dez minutos – no caso do Porta dos Fundos, cinco minutos.


3. Perspectiva crítica no modelo instantâneo de informação

Pode-se ver pela articulação do grupo virtual, Porta dos Fundos; a sua linguagem; tempo de duração, que não passa de cinco minutos; a abertura a um público irrestrito, e modo de apreensão das questões sociais que são discutidas, utilizando de uma perspectiva crítica aliada ao humor, que a intenção é atingir amplamente o maior número possível de pessoas e, com isso, possibilitar um diálogo, de fato, sobre o conteúdo tratado nos vídeos.

No entanto, apesar de utilizar dessa linguagem virtual que contribui na instantaneidade na propagação de informação, diferentemente de como esse método é usado por outras comunidades virtuais, os responsáveis assumem uma perspectiva crítica em seu conteúdo. Por exemplo, vemos uma ironia que beira a ausência de sentido em alguns vídeos como em “A boa segunda”, em que os personagens retratam dois deputados marcando uma votação na plenária como se estivessem marcando um encontro em um bar, para se divertir sem qualquer seriedade. No fim, essa quase ausência de sentido se dá como uma crítica social bastante forte ao que realmente em nossa sociedade.

Os vídeos são fundamentalmente humorísticos, mas tratam de temas como opressão, violação de direitos humanos, banalidades cotidianas, etc. explicitando todo o seu ridículo óbvio e absurdos que não faz sentido que existam, mas que são aceitos no dia a dia.

Podemos atentar a tal característica como uma diferenciação aos primeiros vídeos que seguiam esse modelo, que contém humor em um tempo curto e informações dinâmicas e relacionadas ao cotidiano (instantâneo), permitindo que o acesso a outros vídeos do mesmo canal não se tornem cansativos. Esses obtiveram o reconhecimento de seu humor como politicamente incorreto, com inspiração no humor gerado em stand ups – que existem antes e independentemente de canais do site YouTube, mas que também tratavam de casos cotidianos e aparentemente banais, em um espaço curto de tempo. No entanto, o humor politicamente incorreto era assim denominado por, justamente, tratar de temas até então considerados politicamente incorretos ou amorais e, com essa justificativa, tomar a iniciativa, alegando “liberdade de expressão”, de fazer piada sobre qualquer assunto, como mulheres, negros, usuários de drogas, religiões, culturas de minorias sociais em geral, sujeitos físicos, etc. 

Portanto, por isso falamos de diferenciação, o humor virtual que até então estava propagando-se e se expandindo como um modo de opressão, utilizando de argumentos liberais quanto à expressão, está, então, usando das mesmas características do atual sistema virtual abrangente para fazer piada com os mantenedores do sistema opressor, por exemplo, em seu vídeo que ridiculariza e retira todo o sentido da instabilidade da moda (“Moda”), da possessividade nos relacionamentos (“Ciúmes”), descaso de profissionais com seus cargos públicos (“Xingó Kaiapu” e “A boa segunda”), programas sensacionalistas e expositivos na televisão (“Fidelidade”), etc.

Torna-se relevante socialmente repararmos nos sentidos que tais vídeos trazem junto a suas informações quando enxergamos esses ciberespaços como os novos ambientes de formação de sentidos e percepções de mundo e sensibilidades, no sentido de uma biopolítica foucaultiana, bem como o “playground sendo o espaço no qual se podia construir uma relação de simpatia e verdade com as crianças, observar suas vidas verdadeiras, presenciar suas delinquências, suas disposições” (ROSE apud PINHEIRO, M. A., 2008).

4. Conclusão

Os ambientes virtuais, ciberespaços, são vistos como os novos ambientes constitutivos da nossa relação com mundo e da nossa própria sociedade. Nessa perspectiva, um canal de vídeos, do site YouTube, o Porta dos Fundos, tem um papel fundamental na constituição na percepção social cotidiana e em nossa formação de opinião.

Se outrora a nossa opinião e perspectiva social era perpassada e embasada pelos meios de comunicação em massa que permitiam um diálogo e uma diversidade de informação quase nulos, como a televisão e o rádio,  hoje, com a cibercultura, ganhamos em possibilidade de troca real de informação, dinamicidade e facilidade quanto a sua aquisição.

No entanto, ao afirmar que (MELLO, J. N. e RIBEIRO, R. F.) a “realidade social passa a ser representada por um cenário montado a partir dos meios de comunicação de massa” e que os meios de comunicação de massa hoje estão contidos no ciberespaço e que sobrevivem de modo instável, fluído, com informações excessivas e superficiais, é necessário que se mantenha uma análise mais profunda do que e como as informações são propagadas, do que está querendo ser dito no meio da torrente informacional.

Deter-se nos detalhes da sensibilidade que é formada pelos microblogs, os canais de vídeos curtos, como o Porta dos Fundos e ver que tipo de opinião social está sendo formada a partir de algo que aparentemente não teria tanta relevância social é um modo de aprisionar um conhecimento frágil que passaria despercebido e transformar em experiência uma simples vivência virtual que, com uma duração mínima e sua fluidez não deixaria nenhuma marca social nem no indivíduo.