26 de fev de 2014

Homenagem a Dona Flor.



Para ser grande, sê inteiro: nada
          Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
          No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
          Brilha, porque alta vive


(Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa)



            Escrevemos esse trabalho como resultado de observações e uma entrevista com uma profissional que trabalha no sistema do Restaurante Universitário do centro da Universidade Federal de Santa Maria. Nós buscamos adquirir uma perspectiva e analisar as inter-relações entre a organização do trabalho e a saúde mental da funcionária, com relevância nos aspectos intersubjetivos da atividade.
O principal motivo da nossa escolha foi o contato diário com a profissional, como usuários do restaurante universitário, pois a sua principal atividade é passar no sistema da universidade as carteirinhas estudantis que recebe na entrada do estabelecimento, para comprovar a existência de créditos, algo muito presente no nosso cotidiano.
A perspectiva teórica que embasa o texto é da psicodinâmica do trabalho, de Dejours, em que defasamos o trabalho prescrito e o trabalho real; descrevemos além da atividade operatória, a apreensão da atividade afetiva, e analisamos os processos subjetivos mobilizados pelo trabalho.

Relação com os profissionais

A nossa profissional entrevistada retratou as relações entre ela e seus colegas como marcadas por cooperação no momento da resolução de conflitos e a preocupação com a saúde um dos outros. Os laços de amizade também são desenvolvidos, com o auxílio de momentos de integração presentes em datas comemorativas, como o Natal.                                
A relação com o diretor do estabelecimento, o seu chefe, é aparentemente boa, nessa relação dual, pois ele se preocupava com o seu bem-estar e mantinha um diálogo com a funcionária. Ela alegou também estar no trabalhando no Restaurante Universitário, local que gostava bastante, devido ao diretor, que a tirou do Hospital Universitário, pois neste estava adoecendo física e mentalmente.
A funcionária trabalhou também no Restaurante Universitário que se localiza no campus da universidade, por um ano, antes de trocar para o centro. O primeiro, por ser muito maior e atender, em média, dois mil estudantes a mais que o segundo, desgastava-a, não permitia que ela fizesse o seu trabalho do modo como gostaria e as consequências do número alto de serviço e movimento maior refletiam-se na relação entre os profissionais do local, pois, neste, ela não mantinha a mesma integração com os colegas como a que mantém hoje, no centro.

Relação com os usuários

Os usuários do restaurante universitário são as pessoas que tem algum tipo de vínculo com a universidade, estudantes, professores e técnicos administrativos, na maioria dos casos, estudantes.
Segundo há funcionária, que trabalha na recepção desses estudantes, ao receber as suas carteirinhas, há diversos tipo de comportamento, que ela observa minuciosamente. Ela se diz preparando-se sempre para responder o humor dos estudantes da melhor maneira possível, como se pudesse apreender o que se passa com os mesmos. A profissional fala de estudantes que sempre chegam de forma extrovertida e outros que passam por ela fechados, o que ela aceita como justificável. Exemplo de um ocorrido marcante em sua vida foi quando uma jovem, que acabara de chegar na universidade, para cursar direito, vinda de outra cidade do interior, assusta-se com a sua presença e faz um comentário interpretado como racista pela funcionária, que é negra. Depois de mais de um semestre, essa estudante se vê sem créditos em sua carteirinha para almoçar e sem dinheiro, e a funcionária, observando a menina ir ao caixa e, em seguida, sentar-se em uma mesa que fica em frente ao restaurante, discretamente, sai do seu lugar de serviço, senta-se ao lado da menina e lhe oferece dinheiro emprestado, que é aceito. A partir de então, as duas passaram a construir uma ótima relação, que levou com que se emocionassem no momento da estudante se formar.
Essas atitudes afetivas para com os estudantes acontecem cotidianamente, fazendo com que a profissional seja reconhecida pelos mesmos, que, em muitos casos, devolvem o afeto.

Relação com o trabalho

Esse reconhecimento devolvido pelos estudantes é retratado pela profissional como, justamente, o motivo valoroso de seu trabalho. Pode-se afirmar que receber as carteirinhas dos estudantes não é, de fato, o seu trabalho, mas a relação que ela cria com os estudantes a partir diz. Durante todo o momento, na entrevista, a funcionária descreveu o seu trabalho quanto ao cuidado e acolhimento dos estudantes na hora do almoço, que é um momento sagrado, segundo a mesma, em seu contexto religioso (pois é pastora de uma igreja). 
Imagina-se que o trabalho prescrito, isto é, o operatório previsto, que ela precisa fazer em seu setor, é simples, repetitivo e mecânico o suficiente para que não haja quase nenhuma possibilidade da realização de um trabalho real, do qual se trata da criação e expansão que o sujeito pode fazer em cima do prescrito, deixando uma marca de si na produção, sendo reconhecido e reconhecendo-se no trabalho. No entanto, nessa relação da profissional com trabalho, com os colegas e, principalmente, usuários, que contém a troca, o afeto e o acolhimento, faz com que ela faça o prescrito de forma singular, tornando-o fundamentalmente real.

Um trabalho que tem todas as características para tornar a profissional mecânica e operativa, apenas, foi instrumento de criação de identidade de uma mulher. É de se considerar que tal feito parte mais dela do que do sistema em si e que não é nada comum. Durante a entrevista, a próprio profissional relatou ver colegas doentes, com dores no corpo e insatisfeitos, mas isso não acontecia a ela, pois, os estudantes a pagam apenas com o sorriso e o aprendizado que ela diz ter todos os dias.

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