30 de dez de 2014

Sobre o Início do Tratamento de Freud


Freud começa o texto “Início do Tratamento”, de 1913, fazendo uma analogia entre as técnicas do tratamento psicanalítico com as regras de um jogo de xadrez.  No jogo, segundo ele, há uma infinidade de movimentos após a abertura que de forma a não poderem ser tratados de modo sistemático e premeditado, pode-se dizer que na sessão psicanalítica ocorre dessa forma. Nos dois casos, apenas um estudo de experiências anteriores pode preencher lacunas no momento da ação.
Os movimentos de uma sessão psicanalítica surgem pelo lado do terapeuta e do paciente, de forma infinita, pois como o próprio autor traz em seu trabalho, há uma “extraordinária diversidade das constelações psíquicas envolvidas, plasticidade de todos os processos anímicos e riqueza de fatores determinantes” que tornam inviável o uso rígido de regras técnicas.
De qualquer forma, se salva o início do tratamento como um período em há uma possibilidade maior quanto ao seguimento de normas (como o próprio xadrez).
Sobre o tempo, quanto à periodicidade, cabe ao terapeuta marcar os horários fixos semanais do paciente. Este horário pode servir para a organização do primeiro, para estabelecer alguma norma, etc., mas, principalmente, demarca ao paciente que esse tempo - usualmente uma hora diária, três horas semanais, segundo Freud – é um tempo específico para seu uso, colocando o terapeuta e o ambiente da sessão como componentes disponíveis ao paciente.
Quanto ao tempo de duração do tratamento, não se pode prever, apesar de a partir de experiências anteriores poder ter alguma ideia, como já foi dito anteriormente, os movimentos durante a sessão tem possibilidades diversas e encadeamentos infinitos, fazendo com que a duração do tratamento também não possa ser premeditada. No entanto, é necessário que se revele ao paciente que o tratamento pode ser estender por um longo período, de modo a ele não se sentir enganado no decorrer das sessões. 
Sobre os honorários do terapeuta, a questão do pagamento na psicanálise está para além de obtenção de poder no terapeuta e a sua autopreservação. Freud traz, neste ponto, elementos sexuais envolvidos, como “duplicidade, falso pudor e hipocrisia”. Deste modo, tratar o dinheiro na relação entre terapeuta e paciente com maior franqueza possível, sem falsa polidez ou cordialidade quanto ao estimo por seu tempo faz parte de um início de uma relação também franca e com o mínimo de duplicidade. Aliás, tal característica me parece fundamental para um tratamento psicanalítico, de modo que paciente e terapeuta possam encarar a realidade e produzir alguma coisa.
Outro elemento, ainda quanto ao pagamento, que Freud trata é de que o tratamento gratuito pode gerar resistências em pacientes neuróticos. O “dever da gratidão” vem de modo a afastar o tratamento da realidade e o paciente pode se empenhar em menor proporção para chegar ao final do tratamento. Além do mais, o dinheiro funciona como um regulador na relação.
Dessa forma, as diferenças econômicas entre as classes sociais interfere na possibilidade de um tratamento efetivo, ao menos nesse contexto histórico-cultural. Fica uma questão de como esse processo pode ocorrer na atualidade, com as mudanças nas relações econômicas, principalmente a partir de intervenções públicas.
A psicanálise e suas produções, nessa lógica, parece um bem privado que talvez possa ser superado hoje em dia. Se o regulador, que é o dinheiro, não passa de forma direta do paciente ao terapeuta, mas o intermédio do setor público, garantindo o tratamento daqueles que não possuem condições financeiras, não pode, também, assumir uma função de regulador da relação? E eliminar da identidade do terapeuta diante do paciente o dever da gratidão?



28 de dez de 2014

O lúdico nos grupos infantis

1.      Psicoterapia de Grupos com Crianças

Os trabalhos em grupo têm a característica de trabalhar a narrativa coletiva, o entrelace entre discursos, pensamentos e emoções. No caso da psicoterapia infantil, há o elemento do enquadre das especificidades desses sujeitos, assim como a captação de sintomas.
Um elemento fundamental para a condução de um grupo é ter claro os objetivos propostos e critérios de inserção de seus membros, assim como o modo como se dará a composição, o enquadramento e a técnica utilizada.
De modo geral, a seleção das crianças ocorre por meio de avaliações. Pode-se recolher os dados de anamnese e entrevistas com os pais, conhecendo as motivações de busca do serviço e entrevistas lúdicas com as crianças. A contraindicação do grupo ocorre para crianças com perturbações mais severas, como transtornos de personalidade, perversidade, compulsões, etc.
Durante a psicoterapia são apresentadas, no contrato com a criança, as regras do grupo. Segundo Ginott e Leibovici, alguns limites são comuns entre terapias de diferentes orientações: agressão direcionada aos outros sujeitos do grupo; agressão direcionada a equipamentos; comportamentos socialmente inaceitáveis; áreas de segurança; rotinas, horários; manifestações físicas de afeto; levar lanche ou outras pessoas no ambiente da terapia; permanecer na sala após o fim da sessão.
No grupo se leva em conta os padrões de adaptação, ansiedades, comunicação, inter-relação a partir de jogos. Avalia-se, também, a motivação para maturidade no tratamento, os conflitos psíquicos e a flexibilidade para com tensões que emergem, de modo a diminuí-las.
Quanto à integração entre os membros, considera-se a coesão entre os mesmos e o terapeuta, inclinação social, capacidade de compartilhar segredos ou não e de trocar papéis.
No grupo os sentimentos, problemas, ansiedades e fantasias dos sujeitos se encontram. Estes, por sua vez, passam a ter o sentimento de pertença e compreensão, junto aos outros membros do grupo. O ambiente da psicoterapia é um espaço de aprendizagem de outras formas de relacionamento, tanto entre os membros quanto com o terapeuta.

2.     O Lúdico nos Grupos Infantis

Há diversas dinâmicas que podem ser utilizadas em grupos terapêuticos. No caso de grupos infantis, é essencial que as dinâmicas e técnicas utilizadas contenham o aspecto lúdico. O exemplo do trabalho com contos, em grupos, demonstra a presença da simbolização e dos encontros entre as crianças a partir das narrativas e reflexões coletivas.
Gutfreind trabalha a teoria do eixo lúdico e do eixo reflexivo, na técnica em que se utiliza contos em grupos infantis. O primeiro caracteriza-se, além do prazer e do momento de criatividade que propicia, pela criação de um espaço interno no pequeno sujeito. O eixo reflexivo traz a capacidade do movimento da criança para gerar significados às suas angústias e ansiedades, a partir da reflexão e atividade do pensamento.
Além disso, significar sentimentos e conflitos psíquicos é conhecer o, até então não conhecido, a partir do discurso. Reconhece-se a partir da nomeação, e o “novo conhecido” pode ser representado, relacionado a outras situações e elementos da vida da criança. Isso, no caso dos grupos, de forma coletiva, promovendo a inclinação social por meio das trocas, encontros, compartilhamentos, acolhimentos e da construção de um inconsciente.
O inconsciente ocupa lugar no grupo, Kaës (1997) elaborou as seguintes hipóteses:
1)      o grupo enquanto lugar em que o sujeito deposita suas fantasias inconscientes;
2)     o grupo enquanto lugar onde as fantasias inconscientes do sujeito são trabalhadas,
3)     o grupo enquanto lugar onde se produz o inconsciente, a partir das exigências do mesmo.

O conto, ainda, traz o elemento das metáforas, funcionando como um suporte para as elaborações das situações que ocorrem na vida das crianças, abarcando uma série de emoções, muitas vezes não abordadas pela palavra, e atuando na construção de sua consciência reflexiva e de seu próprio inconsciente.

3.     Considerações Finais

No grupo se tem o potencial de trabalhar as trocas, os vínculos, acolhimento, as elaborações, a comunicação, a inter-relações, além de questões individuais que também podem ser trabalhar em uma psicoterapia individual.
As técnicas e dinâmicas de grupos têm dispositivos que podem contribuir tornando a terapia ainda mais efetiva para chegar aos objetivos determinados. Os contos, e terapias infantis, demonstram a capacidade de desenvolver o aspecto lúdico e reflexivo em crianças, além das características sociais necessárias a um sujeito para a sua saúde mental.

Referências:
GINOTT, H. G. Psicoterapia de Grupo de Crianças. Belo Horizonte, Interlivros, 1979.
GUTFREIND, C. O terapeuta e o lobo. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2003.
KAËS, R. O grupo e sujeito do grupo. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997.
LEIBOVICI, S. & DIATKINE, R. Significado e Função do Brinquedo na Criança. Porto Alegre, Artes Médicas, 1988.


21 de dez de 2014

Por um encontro com a palavra

Toda experiência tem o processamento do Eu. Quando aconteceu a experiência, o Eu terá o saber no tempo seguinte
Através das palavras criamos as significações para o que nos passa. Entende-se que lutar pelas palavras é lutar pelo sentido de nossas vivências. Palavras são mais do que palavras. Elas fazem parte do jogo em que se cria a realidade e apropria-se dela. O domínio do pensamento ocorre de acordo com a linguagem. Esse passa a ser significativo ao cruzar-se com ela. “O pensamento se reestrutura e se modifica ao transformar-se em linguagem. O pensamento não se expressa na palavra, mas se realiza nela” (Vygotski, 1993, p.298).

A formação analítica requer a experiência.
De qualquer modo, os psicanalistas trabalham sem um saber. Se o saber for produzido na sessão, será produzido pelo paciente.
O jogo jamais será colocado na mesa por um psicanalista.

A noção de psicanálise costuma perpetuar-se, na academia, como algo psicológico. Conceitua-se o inconsciente, aplica-lhe uma técnica – controla-se sua dimensão.
O inconsciente foi encontrado, por Freud, com as conotações sexuais.

Se a pulsão se insere nos meios de discursos que o sujeito provém, se torna um fato. Se o fato existe, não existe questão.
A pulsão está aquém do nível psíquico e do nível psicológico.

“A psicanálise é um discurso sem fala”.
O que seria um discurso sem fala?
O Eu fala. O sujeito (a nível do inconsciente) não fala – mas se encontra no discurso.

A angústia é a pulsão manifestando-se sem definição. O medo mostra como se dá o processo definido. O medo do escuro, por exemplo, ao ligar a luz, tudo fica bem. Nesse sentido, enquanto uns vêem a fobia como um problema a ser tratado, outros a vêem como uma solução, pois sempre que houver uma representação, não haverá angústia.
Essa angústia encontra-se no simbólico. Quando o simbólico surge, logo escapa, e o que fica é o que não se sabe e, não sabendo, não se aguenta. Dessa forma, é necessário significar e colocar a imaginação em jogo.
O simbólico não está na ligação de uma imagem a uma coisa. Ao contrário, tem-se o simbólico como uma coisa que desliza. Como deslocamento.


É preciso significar o que se passa, para que o sujeito possa agüentar os afetos. É preciso produzir um material de palavra. O trabalho do psicanalista se dá em torno disso, junto ao paciente, nessa produção de discurso, que apenas pode ocorrer com o outro.

10 de dez de 2014

Sobre o Narcisismo


Talvez a psicologia leve em conta a retomada de noções. Não se apropria de conceitos, mas se refaz o tempo todo. Como o passado, que só existe na dimensão do presente.
Já a dimensão psicológica não existe no tempo presente, mas, sim, em construções psicológicas que permitem suportar o presente. A dimensão da presença está no corpo (não psicológico?).
De qualquer modo, algo está presente – nesse sentido dá-se um tempo para a presença. Qual o tempo da presença? Esse tempo pode ser encontrado na sessão, um que tempo que não é psicológico e, portanto, requer um psicólogo.
No entanto, o produto de uma sessão (tempo presente) é psicológico.

Sob o conceito de Freud sobre o narcisismo, tem-se um sujeito que trata seu corpo como um objeto sexual. Esta noção de narcisismo está na raiz da criação de objetos – o objeto não é criado sem o movimento narcísico do sujeito.
O narcisismo não se trata de um estado (de contemplação), mas de um movimento psíquico – uma atividade de caráter psicológico.
A unidade de corpo (no campo psicológico) é criada a partir do narcisismo. No entanto não é simples criar unidade. Um psicótico, por exemplo, pode ter a sua unidade do corpo em pedaços.
Para Freud, o narcisismo se trata de uma colocação da libido. Libido = Energia Sexual (outro ponto relevante e aleatório: para os seres humanos o sexual pulsa sem parar).
Qual a explicação para o sexual criar unidade? Talvez, para adentrarmos na resposta, tenhamos que trocar sexual por erótico, pois o sexual não comporta unidade.
O termo “objeto sexual” é um tanto quanto paradoxo, pois o sexual não pode estar contido em um. O que dá a unidade às coisas (aos objetos) é o erótico.
Quanto ao sexual, não se trata apenas de não gerar unidade, mas de quebrar unidade.
Quando há o indivíduo (não dividido), não há o sexual, senão não haveria a coisa constituída.
No sujeito se constitui uma sexualidade que, para Freud, é da ordem erótica, não sexual.
O neurótico desempenha essa sexualidade abaixo de recalcamento. Porém ele tem o saber da sexualidade e que o seu objeto é outro, e que é cambiável.
Já na perversão o objeto é aquele, não está em outro, não está no lugar da falta de objeto.
O que a gente deseja é sempre outra coisa. A não ser para o perverso.
O encontro com o sexual está em uma erótica que se organiza de outra forma. Já o encontro com a erótica do outro é impossível. Cada um vive o momento sexual no seu mundo erótico. Nesse instante a sua erótica entra em questão.
Sobre o psicótico, ele não requer de elementos simbólicos na dimensão do psíquico.

Para Freud, de início, não há um Eu instituído no indivíduo. A questão é: como o Eu vai se instituindo? É preciso de um lugar (instância) que desempenha a função de mãe (lugar/instância, pois a palavra solitária “mãe” fica colada a real figura de mãe – o que não funciona de modo absoluto e necessário). Esse lugar de mãe, esse papel de mãe existe corporalmente.
A mãe (em seu papel) no reconhecimento de seu/sua filho/filha, jamais o/a confundindo com nenhuma outra criança, passa a  instituir um Eu no mundo – tem-se, dessa forma a constituição do que se conceitua narcisismo – Eu como objeto da mãe.
- Não encontrar um lugar no outro faz com que não se crie o objeto que o próprio sujeito seria.
“O outro não está” – é o que Freud chama de morte.
* Diferenciar pulsão (de morte) de pulsões (autoconservação)

O Eu encontra o que ele quer nos objetos. Ele participa de “Encontros”. Ele divide sua sexualidade – mas nunca o sexual.

Falo pode ser conceituado como aquilo que falta para a mãe. Um objeto bastante especial.
Quanto ao narcisismo, em um primeiro momento, há um investimento libidinal, originário, ao Eu. Mais tarde este investimento será destinado ao objeto.

A insistência da psicopatologia: o que se encontra no discurso psicótico?
Sobre as manifestações inconscientes, no psicótico, parece que as instâncias não se diferenciam por barreiras tão sólidas.




Medida como unidade.
Arte como sem medida.
Pai entra em questão: deixa-se a arte acontecer.

“O pai sabe” – posição da criança. Quando o outro sabe o sujeito está na posição infantil.
Para Freud, o psicótico não consegue operar mentalmente o esquema: coisa e palavra = objeto. Esse esquema trata-se de uma simbolização.
Há que se notar: código é diferente de língua. Código é diferente de simbolização. Na psicose há um código – um sinal que indica alguma coisa.
Na paranóia, cada elemento quer dizer alguma coisa.

Há o tempo do surto e há o tempo que está tudo em ordem.
Para o sujeito, o que está disponível em um dos tempos está disponível também no outro. O que faz com que alguém em pleno surto psicótico busque ajuda é o outro que não o acompanha. O outro está tenso, o sujeito em surto está sozinho e sem nenhum suporte.

30 de nov de 2014

sem auê


já não realizo despedidas,
como um evento, uma festa,
algo pontual, definitivo e preciso
- como se houvesse como se ter o momento exato em que a vida muda

despedida é coisa que acontece todo dia.

eu já não me despeço
já não acredito na precisão da partida
na pontualidade do final
na transformação definitiva
na premeditação da falta

falta é coisa que acontece.

e apesar de saber do tempo que vai se passar
e do que se muda, e do que se muda no outro, e do que se muda no jogo
e do que se muda na vida toda e no mundo
e no que se muda...
e que quando se volta, não se volta nunca
porque mudou
(e acho que já tinha mudado antes de ter ido
porque foi mudando aos poucos)

- e a despedida é apreender um mudar aos poucos -

eu não vou fazer auê.
desculpa, mas eu não vou avisar quando terminar
não vou dizer que acabou
se vou partir
se vai partir
não
eu não vou enganar ninguém
forçando algo que não tem como forçar.

eu vou sair de fininho
sempre que sair
e assim eu vou chegar.

tão sutil que só perceberá quem realmente merecer a despedida
que vem do silencio
da última tragada
da vista de cada janela
de cada fundo de cada olho

sem aviso por baixo da porta.

não, eu não vou fazer auê.

3 de nov de 2014

Nação


A arrogância gaúcha me incomoda. Sinceramente. Me contorce o estômago. "Vamos separar o Rio Grande do Sul do resto do Brasil". Eis a nossa "eterna batalha". Eu só consigo pensar: deus me livre!

Deus me livre perder o nordeste, a raiz cultural mais bonita desse país. Mais nossa. Mais a gente. O pedaço da história mais emocionante. A processo de produção mais doído. A vegetação mais teimosa.
E a chuva que não-se-sabe. E a água que não tem. E quando tem, tem que buscar, num chão de sertão, que é sertão mesmo (e não como aqui, que a gente faz piada em dia muito quente, chamando nosso calor de calor de sertão).

Deus me livre perder a força do sertanejo!

Lá chove pouco, sim. A gente não sabe que é difícil quando não chove?
A exploração e o descaso dos europeus, no início do que chamamos de descoberta e desenvolvimento do Brasil, se deu de modo mais brutal no sertão. A gente não sabe que a coisa toda não começou hoje?

O que se ouve, com mais frequência, pós-eleições: o nordestino é preguiçoso. O nordestino é burro. O nordestino não sabe votar.
A gente não sabe que isso não tem cabimento?
A gente não sabe ou não quer saber para não perder a pose de macho do país?

Porque, para estar a cima, precisa haver quem esteja por baixo.
E, de modo perverso, elegemos o nordeste.

11 de out de 2014

Diante do Pavor


Lasier me apavora. Aécio me apavora. Sartori me apavora. Alckmin me apavora. Eu tô realmente apavorada com o que vem pela frente.
Ver o Lasier se tornar nosso representante no senado. Um homem sem projeto, puro preconceito, filho da ditadura e da RBS. Meu deus, eu fico apavorada!
Me apavora pensar nos rumos que as coisas vão tomar. "Privatização" é a palavra que entra na ordem do dia. Privatização da USP. Privatização da saúde. Privatização da educação. O governo nas mãos dos latifundiários e dos empresários. Políticas Públicas não sendo mais uma tarefa prioritária... Justo quando cresce a esperança de avançar nos direitos e suas garantias; de avançar na participação e controle social; de avançar nos programas públicos (saúde, educação, cultura, etc.)
Me apavora me enxergar na classe trabalhadora e ver como a vida pode se tornar mais dura...
Ah, e essa ideia de que tudo vai virar mercado - nem quero pensar, vira até delírio.
Às vezes é preciso sentar na beira de uma calçada, chorar, ver uma dúzia de carros passarem, levantar e começar de novo.
Com Dilma! Com Tarso!
Ah, Olívio, contigo sempre - porque você está com a gente!

20 de set de 2014

Eu não sabia que Pública e Cartolas ainda poderiam mexer comigo.

Eu não sabia que ainda esperava por isso.

14 de set de 2014

Só se for a dois

Excede o tempo de discutir o modo como se dão as relações e a sua falência na atualidade.

O controle, a relação de poder, a posse... o outro lado, a diversidade de jeitos e encaixes que podem se dar as relações afetivas, muito pr'além do sexual - e sexual muito pr'além do afetivo.

O direito de não atender o telefone. De variar os toques e os olhares. De não dar uma resposta. De não fazer uma pergunta.

A liberdade. As outras janelas e as outras manhãs.

Sim, excede o tempo de rediscutir e pensar nas práticas com o/a(s) outro/a(s).

...tenho aceitado este desafio, porém, quando penso "naquela coisa que não se explica", me vem: "só se for a dois."

-

Isso é só um semimanifesto para deixar claro que não aguento quando tratam a (falsa) polarização entre amor romântico e amor livre como algo simples.

1 de set de 2014

The End

sábado
23:00
mudança em flagrante
nunca mais do mesmo

"só coloca um The Doors"

- my only friend, the end...

31 de ago de 2014

Nunca mais do mesmo

      Em cima da montanha. Lá do alto. Fumando o cachimbo. Doce. A fumaça vai subindo. Parece, quase, se misturar com as nuvens. Por fora, nada. Por dentro, tudo.
      Saudades dele, sim. Saudades dela, sim. Saudades do cheiro. Saudades de tudo. Gentle Giant, toca ao fundo, toca em tudo. A vida é um conto de memória e de saudade e de aventura.
      Você foi embora, mas eu tenho os pássaros. Eu tenho tudo. E tem gente que volta. E traz algo novo.
   
       Não do mesmo
       Nunca mais do mesmo

      E eu olhei um monte pra você, querendo entrar naquele momento, estar o mais que pudesse, até com o pensamento dentro daquele quarto. Olhando pra você. Até não ter mais como olhar. Em silêncio. Olhando muito pra você.
      Concentrado. Arrumando as suas coisas.Arrumando a sua cabeça. Se despedindo por dentro.
      Eu olhava pra você porque eu sabia que ia querer olhar muito depois. Eu olhei pra você porque, sem drama, sabia que seria a última vez. Eu olhei pra você porque não havia outra coisa a fazer.
   
       Eu ainda não chorei. Talvez de tanto olhar. Eu não pude chorar. Mas admito, que também não consigo engolir. Admito, o choro na garganta.

      A janela aberta. O céu azul as nuvens a fumaça o cigarro o cachimbo o cabelo branco a cabeça pesada o choro na garganta tudo que valeu a pena as memórias o porvir o que voltou o que não vai voltar...

   




       Eu só queria olhar um monte para você mais uma vez.

30 de ago de 2014

Reestruturação

     Dizem que perder algumas coisas, nessa vida, serve para dar espaços a coisas novas.
     Então, a perda, o fim, a despedida tem o seu consolo: o novo. Ah, o novo, a nova escrita, o novo olhar, a nova pessoa, o novo objetivo, a nova vida, o novo. Eu... A mudança que ocorre pelas bordas, o problema que vira memória, aquilo que te bagunça...
      Ah, a reestruturação. A questão é: aquela reestruturação de algo tão central na sua vida que já não tem mais.

      Alguém tão importante, que te mostrou um novo jeito de ser no mundo, que te tirou dando mais, bagunçou pra disciplinar de um jeito que nunca se teve tanto. Foi-se. Com os olhos azuis, o blusão de listras verde e branco, o seu controle sobre o mundo, sobre o meu mundo, o jeito pesado de dormir, de fumar.Foi-se. E dessa vez é sério.

     E esse jeito novo de ser no mundo que vai chegar a partir desse buraco?
     
     E me pergunto: o que há de ser de mim sem você?
     Não com melancolia.
     Não com angústia ou ansiedade.
     De forma nenhuma com alegria.
     Apenas com a lucidez e a precisão dessa pergunta.
  

8 de ago de 2014

Competência




O que, de fato, se trata o conceito de competência?

O conceito de competência passa por diversas definições, Perrenoud fala em seu artigo das três pistas falsas, apesar de aceitáveis. Primeiro como a necessidade de expressar objetivos a partir de práticas observáveis, colocando a competência como uma simples forma de pedagogia por objetivos; relacionando a uma meta verificável, a partir da aquisição escolar. Desse modo, a competência confunde-se com um modo de ensino centrado em conhecimentos, nas palavras de autor.
Outra relação conceitual da competência é com os desempenhos observáveis dos estudantes, o que reduz também a esfera de sua conceitualização. Observar o desempenho dos alunos e o seu desenvolvimento está na dimensão do saber, no entanto, as competências não se reduzem a tal esfera, pois as relações mentais devem se incluir.
Outra concepção que traz Perrenoud é a de Chomsky (1977), na perspectiva de competência lingüística e sua “capacidade de produção infinita”. Ou seja, todo e qualquer ser humano tem uma potencialidade infinita para produzir frases e ações. Não há predefinições em tais atos humanos, a todo dia inventa-se novos conjuntos de frases e ações. Todavia, o autor, Perrenoud, analisa tal ponto como um equívoco, pois, sim todos os seres humanos possuem o potencial de construção de competências, porém, estas não são espontâneas e reforçadas desde o início. As competências são desenvolvidas pelos sujeitos, junto à maturação do sistema nervoso, a partir de seus aprendizados construídos.

Linguagem enquanto competência

A linguagem é um bom exemplo para tratar do desenvolvimento de uma competência. Na escola, ao ensinar as regras gramaticais e realizar alguns exercícios de interpretações de textos em línguas estrangeiras com estudantes, uma vez por semana, não se tem um desenvolvimento da competência de determinado idioma de forma a ser utilizado com efetividade no futuro.
O desenvolvimento da competência deve ter uma aprendizagem com exercícios freqüentes e a prática como fundamental para a aquisição da mesma. A partir da prática do exercício de um idioma estrangeiro e sua interação que surgem as infinitas possibilidades em potencial citadas por Chomsky. Ao se ver produzindo frase que não foram pré-determinadas o sujeito estará, nesse momento, aprimorando o seu conhecimento a partir de operações mentais e objetivas.
A noção de competência perpassa pela concepção de inserção do sujeito em um mundo em que desenvolve, com seu potencial, suas experiências, hábitos e práticas, um conhecimento do qual tenha efetuação praticamente automática. Como a língua que desenvolvemos desde a nossa origem. A linguagem se encaixa perfeitamente nesse contexto, pois se desenvolver dentro dela é como se desenvolver dentro de um mundo de um conhecimento específico e a partir da prática ter uma relação mental de forte capacidade operativa.
A maturação corporal do indivíduo também se desenvolve de acordo com as competências, o desenvolvimento a partir do esporte exemplifica bem este ponto.

Competência e Esquemas

A competência não existe a partir de um esquema, mas de vários. Ela se desenvolve de tal forma a poder a ser transversal e de ser “utilizada”em múltiplas situações que não são idênticas. A sua formação se dá a partir de diversas experiências que ocorrem durante a vida, que se constituem e se enriquecem de forma a se apresentar nas práticas e no desenvolvimento mental do indivíduo, cada vez mais complexos e especializados.
A construção ocorre de modo pragmático a partir das situações que se apresentam repetidamente na vida do indivíduo, porém, como já citado, de forma não idêntica. As questões desconhecidas que surgem no intermédio das experiências conhecidas, tendem a se somar na construção da competência.

A Competência na formação dos professores

Diante das exposições do autor Perrenoud sobre a noção de competência e da leitura das propostas de diretrizes para a formação inicial de professores da educação básica, em curso de nível superior, do Ministério da Educação (Maio de 2000), identifica-se um grande problema no contexto educacional que é a falta de compactação entre o conhecimento adquirido na formação profissional do professor e o que se espera de sua atuação.
O conhecimento adquirido na formação profissional do professor leva em conta, principalmente, o conteúdo específico pelo qual ele optou (física, matemática, educação infantil) e práticas pedagógicas – porém, na maioria dos casos, essas competências são desenvolvidas de forma desfragmentada. O que limita, na prática, o vínculo entre o conteúdo e a ação pedagógica.
Sem contar que, muitas vezes, a prática não é valorizada nos cursos formadores desses profissionais, fazendo com que não desenvolvam tão bem as suas competências pedagógicas.
Para além do ensino conteúdista, é esperado do professor da educação básica (e não apenas) que contribua para com o aluno em sua formação sócio-cultural, ética, física e afetiva. No entanto, nada disso está incluso na formação profissional do professor.
Outra competência esperada, pelas diretrizes apresentadas pelo Ministério da Educação, é a de formação de autonomia do aluno, compreendendo suas características sociais e econômicas e suas necessidades de desenvolvimento. Porém, como o professor adquire esta competência na graduação?
A formação multi e interdisciplinar também é foco de muita discussão, e influi em quase todas as profissões – extrapolando o assunto então referido. No entanto, a universidade não dá conta de preparar os profissionais, ampla e efetivamente, com tal característica. 
A competência que se esperar dos professores se realiza em diferentes enfoques, para que contribua com o desenvolvimento do estudante para além da reprodução de conteúdos. Ou seja, para que também contribua no desenvolvimento das competências de fato desses estudantes, respeitando as suas singularidades e autonomia, contextos sociais e econômicos. Mas que também não tenham na educação apenas um modo de atingir a um objetivo de reproduzir certo conteúdo por um determinado tempo, sem relação com a dinâmica de sua vida e sem desenvolvimento ligado às capacidades mentais e práticas.




Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Educação. Proposta para a formação inicial de professores da educação básica, em curso de nível superior. 2000.
PERRENOUD, P. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed, p. 23 a 33, 1999.

7 de ago de 2014

Reflexões sobre a Disciplina de Ética e Psicologia



As aulas de Ética e Psicologia trouxeram muitas questões para reflexão sobre o exercício da profissão.
Primeiro pela própria leitura do Código de Ética, que contribuiu para a formação pelo fato da necessidade de termos acesso a tal documento, por princípios básicos. Este se faz necessário quando pensamos em ações como a da psicóloga cristã.          No caso referido, ela garantia a realização da "cura gay", o que se torna absurdo em um país em que a liberdade quanto à orientação sexual é garantida por lei, e a homossexualidade não é considerada uma doença. 
Tal fato torna-se um absurdo diante de princípios gerais da profissão e da sociedade, garantidos pela constituição. Ou seja, a discussão que ocorre em torno do código de ética é que o psicólogo, sendo um indivíduo que é influenciado por diversas crenças, precisa ter suas ações profissionais permeadas por discussões realizadas amplamente com outros sujeitos que exercem a mesma função social, da forma que as suas ações condigam com as normas e a sociedade em si.
A palavra função social torna-se, então, um termo chave. É necessário perceber a profissão do psicólogo, assim como qualquer outra, a partir de seu papel social. Com isso, o sujeito profissional não pode estar deslocado de sua cultura e das leis que regem a sociedade, garantindo, em seus atos, os direitos e deveres civis. Por exemplo, se a constituição alega que o estado é laico, os profissionais devem evitar utilizar o seu registro da profissão para assegurar o desenvolvimento de suas ações vinculadas à religião da qual faz parte - tal ponto atinge questão muito além da religião, como ideologias, etc.
Outro ponto interessante das aulas foi discutir sobre a política que rege o código de ética da profissão de psicólogo. Por trás das regulamentações profissionais, há concepções relacionadas à constituição. Como se refere a cima, o Código de Ética garante que o profissional irá garantir os direitos dos sujeitos que se utilizarem de seus serviços. Sem contar que tal ponto coloca o próprio código como algo passível a constantes discussões e modificações, pois a sociedade não estável, e todo o seu processo leva a mudanças materiais, estruturais e da própria concepção de sujeito, alegando novos direitos e novos deveres.
Portanto, o profissional, mesmo depois de formado, precisa continuar se especializando e se informando. Tal especialização não se refere apenas a teorias e técnicas de saúde ou de psicologia em geral, mas dá própria situação política e social de seu contexto.
Diante disso, pode-se colocar a visão profissional bastante próxima da visão política, percebendo o quanto a última pode interferir na primeira. Ao discutirmos nas aulas temas polêmicos, como drogas, aborto, eutanásia, entre outros, percebemos o quanto precisamos trabalhar na nossa própria percepção política sobre um determinado assunto para a nossa prática profissional.
A intervenção em grupos, por exemplo, em torno de uma problemática ou conflitos em geral, requer pensamento crítico, histórico, social e político, desenvolvido com racionalidade e boa capacidade de argumentação. Acredito que a prática profissional do psicólogo, no contexto social, demanda tal modo de intervenção e as aulas de Ética e Psicologia fizeram com que fosse colocado em prática esse modo de pensar e se comunicar.

29 de jul de 2014

Neurose Obsessiva



Um ponto relevante para começar a discorrer sobre um caso neurótico obsessivo: não há neurose obsessiva sem atividade sexual efetiva na infância.

Outro ponto é na dimensão da linguagem: a erótica existe na Representação. A excitação existe nas brechas da erótica.

Na dimensão da erótica, tem-se a Significação: há uma ação dirigida na formação de signos. Portanto, é fundamental que o sujeito fale.

Para Freud, o desenvolvimento sexual está na disposição indiferenciada da criança – aquém da diferença entre os sexos.

Ao discurso neurótico corresponde uma fantasia de ordem sexual. Ao perverso há correspondente uma ação perversa. “O neurótico fantasia o que o perverso realiza.”

O objeto psicopatológico sempre se apresentará em forma de questão. O motivo da neurose obsessiva, o pensamento compulsivo, liga-se a uma excitação que, como já foi exposto, não foi representada.

O termo neurose obsessiva em alemão é Zwangsneurose. Zwangs traduz-se como compulsão, algo que repele. Zwangsneurose = neurose de compulsão.


A neurose obsessiva é vivida no pensamento, diferentemente da histeria que é vivida no corpo, e tem o salto do anímico à inervação somática. O homem dos Ratos, caso de neurose obsessiva relatado por Freud, padece de representações compulsivas desde a infância.

Conteúdo do padecer: temores de que algo aconteça a pessoas amadas (mulher que admira e seu pai), e produções de impulsos.

O temor tem a marca da indefinição, ao contrário do medo (como o medo de escuro), que tem um objeto definido.

           O homem dos ratos tinha a ideia doente de que seus pais ouviriam os seus pensamentos – eis o início da doença para Freud. Para o sujeito mencionado, algo aconteceria se ele pensasse (sobre seu desejo de ver garotas nuas). Então, fazia de tudo para impedir o seu pensamento.

Pensamento – centro da neurose obsessiva, ocorrendo de modo compulsivo.





É característico do temor a indiferença. Mas ele não é a angústia, pois está prestes a se definir.

Medo – definido;
Temor – indefinido prestes a se definir;
Angústia – indefinível.

Neurose obsessiva

- O Eu se põe em contradição com esse desejo – caráter obsessivo do desejo.
- Neste caso, o Eu sente o desejo como alheio.
- O temor surge para contrariar o desejo.
- Ao temor obsessivo liga-se um afeto penoso.
- Este afeto origina impulsos.

O desejo obsessivo ocorre pela posição de contradição do Eu quanto ao desejo. Esta contradição coloca o desejo na posição de um dizer, que é contradito, que é negado. Este desejo é de outro.

1) Uma pulsão erótica e um levante contra ela – contradição do desejo.
Em O Homem dos Ratos, a contradição do desejo se expressa no temor de que algo aconteça a alguém que gosta muito.

O temor liga-se ao desejo através de elementos da linguagem.

- Encontra-se neste caso, “Uma espécie de delírio ou formação delirante”. Em O Homem dos Ratos, os pais saberiam seu pensamento.

O sem sentido está presente nas formações de neuroses obsessivas. No entanto, não se fala aqui em psicose. Portanto, não se trata de um delírio, mas de uma espécie de delírio.

Na cabeça de um neurótico obsessivo pensamentos se opõem com hostilidade.

Para Freud, na neurose obsessiva, há um descasamento entre o conteúdo e um afeto. Melhor falando, uma representação banal ganha um afeto intenso.
Este afeto pertence a outro conteúdo de representação, não ao propriamente conhecido.

“O amor intenso é uma condição para um ódio reprimido” – no neurótico obsessivo.

O Homem dos Ratos possui hostilidade para com o que perturba seus desejos sexuais. Então, ódio ao pai!






Ele fala, Freud, no texto de duas compulsões: 1) compulsão protetora, e 2) compulsão de compreender.

1)Por exemplo, o Homem dos Ratos enxerga uma pedra no caminho e a retira para que não aconteça nada de mal a mulher que ama. No momento seguinte, ele recoloca a pedra no lugar, dizendo a si mesmo que a retirada da pedra foi uma bobagem.

A vida do Homem dos Ratos é tirar e recolocar a pedra, o tempo todo, sem cessar. A sua cabeça é um retira e recoloca a pedra o tempo inteiro.

2) Há uma mistura de proteção e compreensão. Tudo passando pelos pensamentos.

15 de jul de 2014

24 de Julho de 2013

     Acordar para outra dureza de dia, cheio de avaliações e olhares avaliadores. É duro.

11 de jul de 2014

23 de Julho de 2013

     Há dias em que a vida apresenta-se como uma prova de resistência.
     Ainda assim, empolgante - vive-se.

     O inverno é anestesiante.
     Mas o sol aparece por alguns segundos, que é pra provocar aquela esperança de calor que volta em algum momento.
    

8 de jul de 2014

Escrevendo-se

     Coisa mágica é sentar para escrever, sem saber com certeza o que escrever
     - a certeza que falta de si mesmo -
     florescendo no papel a escrita e o sujeito.

22 de jun de 2014

TeoriAção

     Até que ponto temos a prática desvinculada da teoria? Nos questionamos no grupo onde estava a prática e por que não saíamos das discussões.
    Tal fato me remete às reuniões do Movimento Estudantil, em que participamos de reuniões que duram, em média, umas cinco horas. Compartilhando um espaço de fala e escuta. Cada qual anuncia a sua perspectiva. E, de forma mágica, no fim da reunião "surgem" encaminhamentos.
     Num passe de mágica as tantas falas (in)coesas dão lugar a uma estratégia de futura ação.
     Depois de todas as manifestações, eis o consenso. Não por que alguns abriram mão de sua opinião própria e se alienaram ao pensamento alheio. Mas por que um espaço de discussão trata-se justamente, de um espaço de construção e desconstrução de ideias; de reflexão e significação. Trata-se de ação.

10 de jun de 2014

Entrevista sobre Diagnóstico Clínico na Abordagem Psicanalítica



1. Introdução

A entrevista foi realizada com uma psicóloga clínica de abordagem psicanalítica. O tema psicanalítico não foi premeditado, gerando, posteriormente, questões quanto ao diagnóstico na psicoterapia, e suas diferenciações relacionadas aos princípios teóricos que regem o tratamento.
Inicialmente, na perspectiva da psicanálise, pareceu haver incompatibilidades profundas de tal área com o uso do diagnóstico. No entanto, em um segundo momento pós-entrevista preenchido com estudos teóricos, foi percebido um uso parcial do diagnóstico em psicanálise, porém sem a mesma ênfase que se encontra em outras abordagens.

2. Diagnóstico na abordagem psicanalítica

As investigações clínicas rumo à resolução dos problemas do paciente se dão na dimensão do dizer, segundo a psicanálise. A atuação do psicólogo caracteriza em dois momentos distintos: 1) o momento da psicoterapia em si, a partir da relação com o sujeito e a escuta do psicoterapeuta, e 2) o momento pós-psicoterapia, com a teorização e conceituação do desenvolvido pelo sujeito, e a construção do pensamento diagnóstico. Este pensamento orienta o tratamento, no entanto não o limita (Rosa, M. D., 1996).
Ao diagnosticar, o psicoterapeuta relaciona-se a partir da dimensão sujeito-objetivo com o paciente, incidindo desta forma em sua identidade. Torna-se propício que o último passe a tratar-se também como um objeto, aceitando a explicação prévia, o diagnóstico do psicólogo, como uma forma de controlar a si mesmo– e, por si só, praticando o autocontrole e utilizando das explicações científicas. No entanto, ao contrário de outras abordagens, na perspectiva psicanalítica, tal situação é negativa, pois esse controle sobre si mesmo trata-se apenas de uma impressão ao sujeito.
Outro ponto relevante é o fato de que, em um contexto psicanalítico, os conflitos psíquicos do paciente, que se expressam em sinais e sintomas. Estes não possuem valor diagnóstico em si, pois podem compor diversas formas de quadros clínicos em indivíduos diferentes, do mesmo modo que um quadro clínico pode expressar sintomas e sinais diferentes em sujeitos distintos. A interação do sujeito com




o seu meio e a adaptação do primeiro que trazem consigo uma importância diagnóstica (Romaro, R. A., 1999).
A partir de 1895, Freud passou a alertar sobre a ambiguidade do processo diagnóstico no tratamento clínico psicanalítico: positivamente, falava da necessidade dos apontamentos precoces de um diagnóstico para a condução à cura; porém, ressaltando o fato de que o mesmo só poderia ser confirmado após uma quantidade relevante de tempo do tratamento (Dor, 1994 apud Romaro, R. A., 1999).

3. Entrevista

Linha teórica: Psicanálise.

Sobre o desenvolvimento do diagnóstico: não costuma usar, pelo fato de muitos pacientes chegarem à psicoterapia se autorrotulando (ex.: “eu sou bipolar”). O diagnóstico, na visão da psicóloga entrevistada, acaba limitando o paciente, não permitindo que o discurso flua de forma espontânea. 

Sobre a necessidade do diagnóstico: Para o psicoterapeuta que segue a psicanálise, é importante ter noção da estrutura de base (neurose, psicose etc.) do paciente, para saber como proceder com o tratamento. Mas o diagnóstico que a psiquiatria segue (DSM, CID) não se faz necessário para que ocorra o processo terapêutico.

4. Conclusão

O uso do diagnóstico clínico tem sua relevância diferenciada dependendo da abordagem pela qual é utilizado.
A psicanálise utiliza-o como instrumento, compreendendo a sua importância em certo direcionamento à cura. Todavia, não trata o diagnóstico como ponto crucial para o desenlace do tratamento, tomando, inclusive, cuidado para que o diagnóstico não acabe por limitar a psicoterapia no momento do discurso do paciente.  




Referências Bibliográficas


Rosa, M. D. (1996). O diagnóstico psicanalítico e os métodos projetivos. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 16, nº. 2, Brasília.

Romaro, R. A. (1999). O estabelecimento do diagnóstico em psicanálise. Revista Psicoufsc, v. 3, nº. 2, p. 23.

25 de mai de 2014

"Desastre"

Apesar de esperar grande movimentação entre os diversos setores da cidade, manifestação de opiniões - inclusive contrárias - e transtornos, vou confessar que não esperava tanta violência.

É bom lembrar aos estudantes universitários que dentre os estudantes "semianalfabetos" (referindo-se aos cotistas), alguns são seus colegas, e que o conceito de "se preparar melhor" não se trata mais de "investir mais dinheiro".

Outra coisa, setor empresarial, comercial, prefeitura, etc. etc. etc., defensores da economia da cidade, não vamos nos esquecer que estamos falando de educação pública. Ou seja, pensem em um evento à caráter para movimentar o comércio, já que o vestibular da UFSM já era. Digo isso estufando o peito: já era!

95 reais de inscrição? Já era!

Dezembro-Janeiro, Santa Maria, cidade turística, feirão da educação? Já era!

Leilão dos primeiros lugares da lista de chamada? Já era!

Não que alguns setores destes já não estejam adequando seu lucro à prova do ENEM, com antecedência e com eficácia.

Mas, meus caros, sabemos bem que o buraco é mais embaixo e que o desespero é compreensível.

E ao senhor prefeito, quanto ao "desastre" aqui colocado, como já disseram, menos, bem menos.

23 de mai de 2014

UFSM aprova 50% de Cotas e 100% SiSU

Parecer
 
que o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão aprove o seguinte posicionamento em relação aos itens propostos, quais sejam:

1.      Cumprimento imediato da Lei 12.711/2012, em sua integralidade, compreendendo que o porcentual mínimo de reserva de vagas aos estudantes cotistas deverá ser de 50%.

 

Defendemos a implementação de cotas, não apenas em relação ao cumprimento da lei. As cotas tratam-se de uma medida por direitos e justiça. Em sua definição jurídica, de caráter objetivo e racional, tem o princípio da igualdade a ser atingido.

Sob a perspectiva dos direitos humanos, necessita-se ter sobre os sujeitos um olhar diferenciado, focado em sua particularidade contextual e histórica, com todas as suas especificações e peculiaridades, pois eles têm condições e oportunidades diferentes diante da realidade material. As ações afirmativas entram neste cenário com a sua compreensão de que o tratamento dos indivíduos de forma geral, genérica e abstrata fere o direito à diferença e à diversidade, garantido na constituição.

As Ações afirmativas tratam-se de medidas pontuais e temporárias com o objetivo de minimizar desigualdades sociais e históricas acumuladas. Elas garantem a equidade, que é tratar desigualmente àqueles que historicamente obtiveram oportunidades desiguais para que se chegue à igualdade de fato, e compensações a grupos que tiveram perdas, discriminações e marginalizações históricas.

A história que aqui se refere leva em conta um processo concreto por igualdade após um século de exclusão de minorias sociais do ensino superior, essencialmente os negros. Com 126 anos de abolição da escravidão, vive-se um período efervescente na luta por inclusão social e étnica.

As primeiras universidades a instituírem cotas, em 2002, foram a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), por meio de uma lei aprovada em 2001, na Assembleia Estadual do Rio de Janeiro. Logo em seguida, outras universidades passaram a aderir tais ações afirmativas.

Com legitimidade social e acadêmica, com afirmação da justiça, com os benefícios de tal projeto, propostas de ações afirmativas propagaram-se por todo território nacional. A repercussão positiva destas iniciativas demonstra a sua adequação em consonância aos ideais de justiça compartilhados amplamente por diversos setores na sociedade, que encontram nas ações afirmativas uma forma sólida e legítima de democratizar o acesso a camadas excluídas da população a um direito (o ensino superior) que historicamente esteve ao alcance de poucos.

2007 foi um ano de consolidação para as ações afirmativas como uma ação possível, profunda, comprometida e coerente com a democratização do ensino superior do Brasil. Neste ano 93 universidades já haviam aderido às cotas.

A UFSM está entre estas 93 universidades. Em 2007, a Universidade Federal de Santa Maria aderiu a 40% de cotas (resolução 011/07): 15% para afrobrasileiros; 5% para portadores de necessidades especiais, e 20% para oriundos de escolas públicas.

Seguiu-se a tal providência, em 2008, amplo investimento e desenvolvimento da Assistência Estudantil na UFSM, contando com ampliação de vagas na Casa do Estudante Universitário; ampliação do Restaurante Universitário; Bolsas formação; laboratórios de informática e línguas. Ações, estas, fundamentais para a permanência dos estudantes, que se segue ao acesso à universidade, principalmente quanto àqueles que ingressam por sistema de cotas.

Nos dados apresentados no relatório de atividades da PROGRAD, de 2008 a 2011, sobre as ações afirmativas, intitulado Programa de Ações Afirmativas de Inclusão Racial e Social, nota-se a redução porcentual do índice de evasão de estudantes cotistas da Universidade Federal de Santa Maria. Em 2008, o porcentual de evasão de estudantes que ingressaram via ação afirmativa C (reserva de vagas para estudantes oriundos de escolas públicas) era de 18,44%; em 2009 foi de 18,66%; já em 2010 se reduziu a 3,6%, e, em 2011, tínhamos 100% de alunos regulares não apenas na Cota C, mas também nas Ações Afirmativas A (Afrobrasileiros) e B (Portadores de Necessidades Especiais). Mostrando assim, que em 2011 não houve evasão de alunos cotistas, e que o índice de investimentos na permanência dos estudantes vem ocorrendo em paralelo com a democratização do acesso, colocando a UFSM como referência nacional em Assistência Estudantil.

Sobre o cenário da educação brasileira e sua influência no acesso à universidade:

De acordo com dados do Censo Escolar, de 2010, divulgados no MEC, 85,4% de estudantes matriculados na educação básica são oriundos de escolas públicas. No ensino médio há 8,3 milhões de estudantes matriculados, e, destes 8,3 milhões, 85% estão matriculados em rede pública.

No entanto, no ensino superior tem-se 5,95 milhões de estudantes matriculados, destes, 4,43 milhões provêm da rede privada e apenas 1,52 milhão provém de escolas públicas.

Portanto, afirma-se, sem hesitação: as universidades públicas não condizem com o retrato da maior parte da população e toda a sua diversidade.

Diante dos motivos apresentados, o item 1 deste parecer afirma a necessidade da implementação integral da Lei 12.711/2012, garantindo no mínimo 50% da reserva de vagas para estudantes de escolas públicas, como um avanço para esta Universidade, quanto à inclusão social, democratizando o seu acesso e impactando positivamente a sociedade.

2.     Utilização do Sistema de Seleção Unificada (SISU) como a única forma ingresso na UFSM, aderindo 100% das vagas a este sistema de ingresso.

Defendemos neste item a integralidade de um único sistema de ingresso na UFSM, no caso o SiSU, devido ao fato de que as universidades que adotaram o sistema híbrido como forma de experiência identificaram diversos problemas para a administração no momento de equacionar o preenchimento das vagas entre os dois sistemas, e por parte dos estudantes no momento de inscrição, preparação para a prova e matrícula nos cursos. Diversas universidades que implementaram o sistema híbrido acabaram substituindo pela integralidade do SiSU. Atualmente 80% das universidades já aderiram a este sistema, e destas, a grande maioria tem o SiSU como única forma de ingresso.

Sobre a ocupação das vagas nas instituições que adotaram o SiSU, 90% são estudantes oriundos da própria região, sendo 85% alunos do próprio estado onde se encontra a IFES. As regiões Sudeste e Nordeste possuem índices ainda maiores, de, aproximadamente, 97% de estudantes da mesma região.

Se o regionalismo é entendido enquanto seus aspectos culturais e particularidades regionais envolvidas nas provas, pode-se dizer que sequer o vestibular faz isso, até por não ser este o seu objetivo. Aliás, a ideia de que esses aspectos regionais devem ser incorporados ao ensino seria uma meta da escola no tocante a formação do estudante e não propriamente no conteúdo de prova.

Quanto ao problema de desistência das vagas, as IFES que não possuem SiSU tem uma taxa média de 10% de evasão, devido ao fato de que o próprio SiSU funciona como concorrência ao modo tradicional de ingresso que é o vestibular.  Por exemplo, o curso de medicina, mais concorrido da UFSM, tinha em sua 3ª chamada 25 vagas, e na chamada oral ainda restavam 14 vagas a serem preenchidas.

 Outro elemento positivo é que a mobilidade inter-regional que o SiSU proporciona pode ser produtiva para o desenvolvimento do estudante e para a qualificação das instituições, do ensino e da pesquisa.

Ademais, o vestibular não tem como objetivo, diferentemente do ENEM, a avaliação e o aprimoramento do ensino médio.

Apesar do vestibular da UFSM ter ampliado o acesso à prova com a descentralização, o ENEM hoje já é realizado pela maior parte dos estudantes do ensino médio, em todo estado e no país.

Se com a recente descentralização do vestibular foi possível ampliar o acesso à prova e ao ensino superior, com o SiSU, podemos ampliar ainda mais a democratização do acesso às universidades brasileiras. É tempo de avançar rumo a uma universidade pública, democrática e popular!







Diretório Central dos Estudantes