6 de dez de 2013

Cabeças

Uma mulher muito velha, em um hospital psiquiátrico- também conhecido como asilo de loucos; abandono de estranhos; depósito de alienados; esconderijo do diferente, etc. – possui uma fábrica de bonecas, a qual acredito ser a sua própria família. O seu quarto, bastante precário, é todo o seu mundo. Outra pessoa que se perde dentro da própria cabeça.

Essa mulher muito velha construiu o seu mundo imaginário – onde encontra abrigo e afeto. Portanto, merece um lugar alheio à sociedade. E nós, julgo normais, não precisamos ter contato com esse tipo de estrangeiro ao nosso mundo.

Nós, humanos corretos, morais, organizados, bem vestidos e possuidores do mais certo estado mental, não construímos esses mundos imaginários.
Será?
Não se vê na arte, na literatura, nos pensamentos mais pessoais, também, um mundo imaginário?

Drogados também são uma espécie humana a se pensar, pois encontraram uma passagem a esse mundo imaginário através da química. Não merecem conviver conosco, normais e respeitáveis. Mas e nós, também, não encontramos abrigo e uma fuga da pesada realidade em antidepressivos, prozacs e ritalinas? Vinhos e cigarros?

Os seres humanos, por si só, constroem pontes com a loucura. Para ir e vir. E vamos e voltamos, com frequência. Então, o que nos diferencia daqueles que vivem, e vivem toda a sua vida, como doentes em manicômios, os loucos com certificado? O quê, além do sofrimento?


O que nos separa é que a nossa realidade foi normalizada por alguém. E aceitamos isso como se não fosse, da mesma forma, imaginária. Como se não estivéssemos perdidos, igualmente, num mar de simbolismos. Como se não houvesse nada de perversidade em nossos atos. Nem quando matamos a chance de viver daquele que têm simplesmente um olhar diferente.

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