29 de dez de 2013

13 de Julho de 2013.

Ao terminar o último capítulo do livro "Psicologia Social crítica: Como Prática de Libertação" do Pedrinho Guareschi, eu passei por uma reação de assombro enxergando o óbvio: "então é a felicidade que se busca?"

Sim, parece que estamos buscando o óbvio. O que há de mais humano. 

Então, todo o esforço da doação de si é pelo óbvio. O empenho em se enfiar pelas brechas, caminhar pelo caminho mais difícil - sem deixar de se demorar nas curvas e admirar a paisagem porque também vive-se de afeto - é apenas pelo óbvio.

16 de dez de 2013

Voz e Vez aos Estudantes!

Reunimo-nos nessa segunda, dia 16 de Dezembro de 2013, estudantes de diversos semestres do curso de psicologia da UFSM e também da Unifra para discutir o autoritarismo dentro do curso e da universidade.

A discussão iniciou em torno do evento ocorrido na última semana, em que uma estudante teve a sua nota prejudicada pela alegação da professora da disciplina de que a primeira não fez um trabalho acadêmico que, na verdade, fez. Apesar da estudante afirmar ter feito o trabalho e se dispor a trazê-lo para a professora reavaliar, esta não aceitou e argumentou que qualquer um poderia ter assinado pela mesma.

Tal fato pode ser conceituado como assédio moral, que pode ter recorrência em instâncias superiores e acabar com a discussão. No entanto, fomos além.

O autoritarismo está presente nas relações de poder que perpassam em todos os âmbitos da universidade. Essa cena que ocorreu dentro da sala de aula traz tais relações de forma clara. Porém, sabemos que essa apropriação do poder de modo autoritário e hierárquico ocorre, além de dentro da sala de aula, em outras instâncias: em reuniões de colegiado, departamento, conselhos superiores, etc., em que temos uma representação estudantil simbólica (se tratando de menos da metade do número da representação docente, normalmente 15%) e, ainda sendo ínfima, essa representação não tem o pouco de voz presente nos conselhos respeitada.

Nós, estudantes, entendemos que podemos e devemos participar de modo ativo da nossa formação profissional e queremos ter voz e vez dentro dos espaços de decisão e atuação acadêmica. Portanto, sentimos a necessidade de nos colocarmos e nos expormos mais nos espaços que também nos dizem respeito, como os próprios conselhos que já ocupamos cadeiras e as salas de aula; propormos discussões sobre o plano de ensino, direitos e deveres dos estudantes e a construção do método pedagógico.

O plano de ensino, o método pedagógico e as deliberações institucionais têm de partir apenas d@s professor@s? Nós compreendemos que não. Temos, enquanto estudantes, perspectivas vivas quanto ao modo de obter conhecimento e de funcionar uma instituição que é, além de nossa, de toda comunidade.

Não estamos contentes como o modo que está colocado o sistema, que é hierárquico, autoritário e tem todo o seu poder de decisão nas mãos de professores; com as relações que se naturalizaram, em que o estudante pode e deve prestar atenção, por, em média, quatro horas, apenas no professor e não ouve o colega do lado nem tem direito à fala; com a formação profissional que se baseia, semestre à semestre, à redução teórica de uma única perspectiva (a escolhida pel@ profess@r responsável pela disciplina), empobrecendo todo um conhecimento que poderia ser criativo, renovado e fazer sentido ao estudante, sendo construído por ele em conjunto com @ profess@r.

Enfim, não estamos contentes com a estrutura das relações institucionais, com o nosso lugar secundarizado, com a formação “pronta” e posta para nós e com a ausência da voz estudantil.

13 de dez de 2013

Feliz aniversário!



Na minha infância, eu costumava considerar o meu aniversário o melhor dia do mundo. Afinal, era o dia em que eu ganhava uma festa, recebia várias pessoas que estavam ali só pra me ver, via meus pais passando o dia inteiro em função de mim e ganhava vários presentes. Ah, eu gostava mesmo dos presentes. Sem contar que havia certa magia que permeava a situação de “ficar um ano mais velha”. Depois de assoprar a vela parecia que eu realmente crescia um pouco.
Agora, um pouco mais crescida, a maior parte disso perdeu o sentido ou mesma a existência. Essas coisas não acontecem mais, não tem mais festinha com chapeuzinho e balões nem a sensação de que algo mudou nesse dia. Mas então, o que é que mantém essa sensação de que o aniversário é uma data especial (porque, para mim, é uma data especial)?
Acho que o especial, o bonito, é que se espera algo desse dia – e se ganha. Não se trata de presentes. O fato é que no teu aniversário as pessoas significativas demonstram de uma significativa que te querem bem. Eu costumo dizer que é um dia que serve de desculpa para dizer e fazer coisas que demonstrem teus sentimentos pelas pessoas sem ficar chato ou parecer encheção/puxação de saco. E, bom, não é mais os presente, é ver meus pais se esforçando pra fazer meu dia legal, são as ligações dos amigos que não conseguiram te ver no dia, as palavras carinhosas, os abraços, os “parabéns” sussurrados no ouvido.
A sensação de ser querido por gente querida.

11 de dez de 2013

O exercício do autoritarismo em professores do curso de Psicologia da UFSM



Hoje, presenciei mais uma cena de mal estar provocado em uma estudante do 4º semestre de psicologia pelo autoritarismo de uma professora. A primeira, ao ser prejudicada por ter sua nota reduzida, se retirou, em péssimo estado psicológico, da sala de aula. A situação toda não ocorreu apenas pela nota em si, mas pela exercício do autoritarismo que ocorreu naquele momento, pois a estudante alegou ter ido na aula e feito o trabalho, que seria o motivo na nota reduzida), e a professora, contrapondo, colocou que qualquer um poderia ter assinado aquele trabalho. A professora teve a última palavra, claro.
    
Bom, vejamos que o trabalho em si não é o ponto crucial do ocorrido, e que esse tipo de situação acontece no nosso cotidiano. O ponto crucial é que reduzindo a nota de um estudante, este fica prejudicado diante de um sistema muito pr’além daquela aula, e que apesar de sabermos que esses critérios acadêmicos são muito pobres e injustos, somos obrigados a nos submeter a isso, e, indo além, ao mesmo tempo em que nos submetemos, os professores se apropriam de seu poder e – exercem o autoritarismo.

...exercem o autoritarismo realizando as suas metodologias ridículas, em que, de alguma forma, obrigam o estudante a ser frequente em uma aula cansativa, empobrecida, monóloga e que causa mal estar e sofrimento nos estudantes.

Metodologias autoritárias e incoerentes: professores reproduzindo conteúdos sobre atuação de psicólogos em escolas, em que se contextualiza as situações, redescreve-se e discute-se problemas, critérios de avaliação são revistos, assim como a metodologia e espaço de diálogo com os alunos. Mas eles próprios, professores, aplicam avaliações tradicionais e fazem da sua aula um monólogo exaustivo.

Fica, além de uma nota de repúdio, questionamentos sobre o tipo de formação em psicologia que estamos tendo; o que realmente aproveitamos nesse curso; qual o tipo de profissionais que temos, queremos e seremos; e por que o curso tão desejado acaba se tornando uma tortura.

8 de dez de 2013

10/07/2013

Estar atrasada tornou-se tão habitual que ao se ver em cima da hora, sente-se no desejo de demorar-se um pouco mais.
Sempre pensando se vale ou não a pena.
E coloca os pés na rua, e vale. E dentro do ônibus vale ainda mais. E sempre tem aqueles olhos e sorrisos que valem o mundo.
Ah, as despedidas também valem a vida. Mesmo quando o novo parece tão mais interessante e partir torna-se tão necessário – dói.
De qualquer forma, é sempre necessário partir. Olhar pela última vez os olhos ingênuos daquele senhor sempre pronto para e aprender e dar em troca algo de si; com aquela mulher firme e suave, contraditória e compreensiva. Olhar aquele ambiente que tanto incomodou e causou conforto, pela última vez na mesma posição. Mas o viajente de mim está de volta.
...Levando consigo todo o conhecimento, apenas pela espera de mais. Como Sidarta.

E a vida é desafiadora.
E o meu desejo é o acúmulo de memórias.

E como existe olhos bons nesse mundo a serem lembrados.

7 de dez de 2013

28/05/2013

No encontro do grande grupo de hoje, em que foi discutido o capítulo “O conceito de relação: misterioso e fecundo”, representamos uma situação relatada pela integrante Mirela. Nesta situação, um antigo usuário do CAPSi  pediu-lhe dinheiro na saída de um banco. O dinheiro foi dado, todavia, esse não foi o foco da reflexão, e, sim, a consciência que temos desse processo.

Portanto, alguns membros do grupo – eu estava inclusa – improvisaram duas cenas. A primeira foi similar à situação ocorrida: um menino pedindo dinheiro a pessoas que não sabiam qual seria o modo “certo” de reagir. A segunda foi sobre uma esposa querendo internar o seu marido usuário de crack.

Após essas representações, refletimos sobre essas ações. Afinal, as pessoas que são solicitadas à internação realmente se beneficiarão disso? A conclusão coletiva foi que as pessoas que precisam de ajuda podem dizer o que precisam. O psicólogo (ou médico, assistente, etc.) não, necessariamente, pode dizer o que é melhor para alguém que está na rua, por exemplo.

Outra reflexão bastante interessante da discussão do diz foi sobre a visão que se tem quanto ao usuário de droga – não se vê além da droga, parece que a vida daquela pessoa permeia apenas nesse aspecto. O todo se resume a uma parte, presumindo e reduzindo o sujeito a uma característica vista, além de tudo, como negativa. Assim se constrói monstros de rua.

O conceito de caridade também foi discutido. Veem-se pessoas caridosas como aquelas que tendo mais doam bens materiais aos mais necessitados. Porém, caridade é um doar-se reciprocamente; é promover a troca através de um diálogo real.


O pensamento que resiste sempre a cada fim de encontro é que há muitos detalhes que surgem no cotidiano prontos a serem revisto.

6 de dez de 2013

Cabeças

Uma mulher muito velha, em um hospital psiquiátrico- também conhecido como asilo de loucos; abandono de estranhos; depósito de alienados; esconderijo do diferente, etc. – possui uma fábrica de bonecas, a qual acredito ser a sua própria família. O seu quarto, bastante precário, é todo o seu mundo. Outra pessoa que se perde dentro da própria cabeça.

Essa mulher muito velha construiu o seu mundo imaginário – onde encontra abrigo e afeto. Portanto, merece um lugar alheio à sociedade. E nós, julgo normais, não precisamos ter contato com esse tipo de estrangeiro ao nosso mundo.

Nós, humanos corretos, morais, organizados, bem vestidos e possuidores do mais certo estado mental, não construímos esses mundos imaginários.
Será?
Não se vê na arte, na literatura, nos pensamentos mais pessoais, também, um mundo imaginário?

Drogados também são uma espécie humana a se pensar, pois encontraram uma passagem a esse mundo imaginário através da química. Não merecem conviver conosco, normais e respeitáveis. Mas e nós, também, não encontramos abrigo e uma fuga da pesada realidade em antidepressivos, prozacs e ritalinas? Vinhos e cigarros?

Os seres humanos, por si só, constroem pontes com a loucura. Para ir e vir. E vamos e voltamos, com frequência. Então, o que nos diferencia daqueles que vivem, e vivem toda a sua vida, como doentes em manicômios, os loucos com certificado? O quê, além do sofrimento?


O que nos separa é que a nossa realidade foi normalizada por alguém. E aceitamos isso como se não fosse, da mesma forma, imaginária. Como se não estivéssemos perdidos, igualmente, num mar de simbolismos. Como se não houvesse nada de perversidade em nossos atos. Nem quando matamos a chance de viver daquele que têm simplesmente um olhar diferente.

1 de dez de 2013

Vento Solar

É tão mais fácil deixar ir do que segurar pela mão.
Sentir o vento e sentir saudade. E não falar nada.
Ver se perder sem se perder.
Cuidar de si antes.
Acender um cigarro.
E ver partir.
Sem responsabilidade.
Os ganhos, as perdas, as memórias, a dor...
O cigarro
E o girassol
E a morte de novo logo ali
A cor da camisa
O cheiro da camisa
O calor por trás da camisa.
A crueza da carne
A crueldade da carne.

Poderia ter esperado mais um pouco
Repousado um pouco mais a sua cabeça no meu colo
O seus olhos na minha cabeça
As suas mãos nas minhas coxas.
Ofegado um pouco mais no meu pescoço.

Não precisava ter tanta pressa para o momento de partir
Deixar o cais
Trocar de porto

Outro porto.
Outra poesia.
Algo novo.
Eu também gosto.

Mas ainda mais de ter ver.

Rima Rica, Frase Feita

Me encanta as vistas de cada janela, que nunca se repetem, em que sempre nos perdemos. E apavoram.

E o cigarro na janela antes da entrega... 

E o cigarro exausto na janela. 
A lembrança dos horrores, das marcas na pele, do gosto esquecido, do cheiro que nunca, nunca, nunca deixa de estar ali.

O cigarro amassado. O novo toque. Os novos olhares que invadem, invadem e intencionam e apavoram e salvam ao destruir. Os novos olhares...


mas sempre os olhos anteriores. Fixados. O toque. Nunca se repetiam, nem olhos, nem toques. Nem gemidos, nem suor. 
A morte nunca se repetia. A perdição. O escuro. A estupidez. 

E o cigarro era a cabeça naqueles olhos e sorrisos e aquela carne quente e escura anterior. 
Carne nua em outro. Carne nua de outro. Mas a cabeça se fixava na carne anterior. E nos olhos, sorrisos, palavras e gestos que nunca se repetiam. 

Era saudade. Mais pura falta. 


Mas o cigarro se apaga, outra vista de outra janela precisa ser descoberta. 
...outra carne há de ser tocada.