19 de nov de 2013

Só as mães são felizes


Foi estranho o modo como tudo aconteceu. 

Entrou no quarto já sentindo uma respiração ofegante, viu a sua mãe sentada na cama, com os cabelos cobrindo metade do rosto, com aparente sujeira; olhando para os próprios pés; as mãos segurando firme a borda da cama; as roupas velhas, sujas e arregaçadas.... Nada muito compreensível.

Mas bastante comum. Trazendo lembranças quase infantis: a época que a mãe saia de seu quarto, com os cabelos, da mesma forma, oleosos escondendo os olhos que, ainda assim, visíveis eram arregalados, gritando por reclamações de qualquer banalidade cotidiana, como um pouco de açúcar no chão ou o barulho da televisão, e enchendo a filha de tapas.

Um ódio até então não compreendido.
Mas era o barulho, o pouco de sujeira, o mínimo de desorganização, ou seja, tudo que existe em uma casa dividida com um filho pequeno.
Era a existência de outra vida naquele ambiente que atordoava.

Como psicanalisar as marcas que restaram na menina, hoje, jovem? A própria relação com a mãe...

Mas de novo, à cena atual. Atual, mas eternamente carregada de memórias do passado, como é o presente, que nunca é atual sem a presença constante do passado e do próprio porvir.

A mãe levantou a cabeça e pediu que a filha saísse do seu quarto. Enfatizando que era o seu lugar. Talvez onde encontrasse a sua singularidade, onde não havia outro, não havia divisão nem interferência no ser que era si mesma. Onde não havia uma filha, invadindo-a há quase 19 anos, desde os seus 17.

De repente, ela se levantou da cama, olhou com muita raiva, falou em um tom um pouco mais alto e convicto: saia do MEU quarto!

Talvez, se ela tivesse uma arma, atiraria - a filha pensou.
Sim, atiraria.
Desfazeria a existência de algo. Começaria de novo sem aquilo que o atormenta.
Mas, sabe-se, sabemos, não é bem assim. O passado está sempre presente, inclusive no futuro.
Não há borrachas de memórias, de marcas.
E ainda existem objetos concretos, no mundo real.
O mundo da cabeça e o mundo real estão repletos de passados, que são presente e futuro.
Infelizmente nem uma arma a livraria, as livraria.

Mas também havia o amor, a gente sabe, bem sabem.

Em algum lugar fora daquele quarto que era o profundo de si mesmo, daquela mãe, perdida de sua singularidade.

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