27 de nov de 2013

20/05/2013

      O projeto do qual eu faço parte dentro do SMIC não é o “Olhares”, no entanto, “olhar” é um termo que se aplica perfeitamente. Ao final de cada encontro, posso dizer que meu olhar sobre o mundo é outro. Um exemplo claro disso foi o fia em que discutimos sobre “Cosmovisões”, assunto pelo qual meu conhecimento conceitual era bastante superficial. Depois de ler o texto e discutir de forma crítica o assunto, trazendo elementos de vários âmbitos cotidianos, com os outros integrantes do grupo, eu pude enriquecer meu ponto de vista.
     Encontros como esse, transformam o nosso modo de olhar e nos colocar nos ambientes, nas relações, nos grupos. Transformam o nosso modo de vivenciar e interagir. Essas discussões realmente me atingem e, de certa forma, se refletem em todas as minhas ações.

19 de nov de 2013

Só as mães são felizes


Foi estranho o modo como tudo aconteceu. 

Entrou no quarto já sentindo uma respiração ofegante, viu a sua mãe sentada na cama, com os cabelos cobrindo metade do rosto, com aparente sujeira; olhando para os próprios pés; as mãos segurando firme a borda da cama; as roupas velhas, sujas e arregaçadas.... Nada muito compreensível.

Mas bastante comum. Trazendo lembranças quase infantis: a época que a mãe saia de seu quarto, com os cabelos, da mesma forma, oleosos escondendo os olhos que, ainda assim, visíveis eram arregalados, gritando por reclamações de qualquer banalidade cotidiana, como um pouco de açúcar no chão ou o barulho da televisão, e enchendo a filha de tapas.

Um ódio até então não compreendido.
Mas era o barulho, o pouco de sujeira, o mínimo de desorganização, ou seja, tudo que existe em uma casa dividida com um filho pequeno.
Era a existência de outra vida naquele ambiente que atordoava.

Como psicanalisar as marcas que restaram na menina, hoje, jovem? A própria relação com a mãe...

Mas de novo, à cena atual. Atual, mas eternamente carregada de memórias do passado, como é o presente, que nunca é atual sem a presença constante do passado e do próprio porvir.

A mãe levantou a cabeça e pediu que a filha saísse do seu quarto. Enfatizando que era o seu lugar. Talvez onde encontrasse a sua singularidade, onde não havia outro, não havia divisão nem interferência no ser que era si mesma. Onde não havia uma filha, invadindo-a há quase 19 anos, desde os seus 17.

De repente, ela se levantou da cama, olhou com muita raiva, falou em um tom um pouco mais alto e convicto: saia do MEU quarto!

Talvez, se ela tivesse uma arma, atiraria - a filha pensou.
Sim, atiraria.
Desfazeria a existência de algo. Começaria de novo sem aquilo que o atormenta.
Mas, sabe-se, sabemos, não é bem assim. O passado está sempre presente, inclusive no futuro.
Não há borrachas de memórias, de marcas.
E ainda existem objetos concretos, no mundo real.
O mundo da cabeça e o mundo real estão repletos de passados, que são presente e futuro.
Infelizmente nem uma arma a livraria, as livraria.

Mas também havia o amor, a gente sabe, bem sabem.

Em algum lugar fora daquele quarto que era o profundo de si mesmo, daquela mãe, perdida de sua singularidade.

18 de nov de 2013

Requisição

     Sem a repressão, o homem mata o homem. Sem a gramática, o homem comunica-se para que ninguém compreenda.
     Absurdo é pensar na possibilidade de vida anárquica, em que se mete pra fora tudo que está dentro sem nenhuma filtragem tradutora.
      Impossível é ser gente sem ter tudo em ordem mentalmente, porque para a socialização ser organizado na cabeça e nas ações é requisito e obrigatório, e para ser o requisito é a socialização.

16 de nov de 2013

Substância



Por substância entende-se aquilo que existe em si mesmo. O seu modo constitui-se por suas afecções, e apenas existe em outra coisa, em que também é concebido. A essência da substância é constituída por atributos, percebidos pelo intelecto. São esses atributos que exprimem uma essência eterna e infinita. No entanto, apenas Deus, a entidade absoluta e infinita, possui todos os atributos. (Spinoza, 2007)

1.1.        Substância, seus atributos e afecções

Como já dito, a essência substância é constituída por atributos que exprimem uma essência eterna e infinita, e o seu modo se constitui por suas afecções. Portanto, as diferenças entre duas substâncias são, justamente, os seus atributos e afetos. Essa distinção justifica-se por cada atributo produzir os seus modos de forma independente, sem qualquer relação causal entre eles. Apesar dessa ausência de causalidade, os atributos agem por uma mesma ordem, isto é, as causas não são as mesmas, mas estão conectadas, seguindo-se, então, uma relação paralela entre as coisas. (GLEIZER, M. A, 2005)
Os modos, que existem em outro e são concebidos por outra coisa, caracteriza-se por ser finito, sem disposição de autossuficiência e por sua dependência na relação existencial, substancial e causal com a substância e outras causas finitas. A finitude da qual dispões os modos e caracteriza a substância perde o seu caráter fechado quanto passa a se tratar da abertura ao seu processo de constituição. Esse processo, que é a própria produção da existência, faz parte “de um nexo infinito de causas finitas”, segundo Spinoza, em Gleizer, e os modos existem de forma necessária no entrelaçamento entre os mesmos, tendo a sua potência de ação nos encontros desse entrelaçamento.
A essência da substância forma-se por essa relação de atributos e afetos. Relação, essa, sem causalidade, mas entre as causas, que acaba por trazer sempre o movimento e transformação à substância – transformando-se a cada afeto, e fortalecendo a característica da distinção entre as substâncias.

1.2.        Vontade necessária

Contrariando as argumentações a favor do livre-arbítrio, a vontade é unicamente necessária. Partindo do pressuposto que a sua existência é determinada por uma causa, que é determinada por outra causa, e esta por outra, seguindo dessa forma infinitamente. (SPINOZA, 2007)
A vontade não se trata de uma ideia infinita de substância, mas da expressão de uma essência infinita pelo atributo dessa substância. Portanto, nessa parcela de expressão da substância, a vontade existe e opera por Deus.
Spinoza argumenta que os homens acreditam estar conscientes de suas vontades, por isso se creem livres. Porém, ao mesmo tempo, eles ignoram as causas dessas vontades, com isso, a própria ausência de livre-arbítrio.
Esses homens, ignorando as causas de suas vontades, seguem realizando ações para chegar em um fim que lhes parece útil. Nessa busca, encontram diversos meios e instrumentos naturais que lhes parecem existir para a sua utilização, fazendo-os pensar que realmente foram “feitos” para sua utilização. Por não terem produzidos esses meios e instrumentos, mas os encontrado à disposição, acreditam, então, terem sido feitos e dispostos por outrem. O que não consideram, de forma nenhuma, é que essas coisas existam de forma necessária, ou seja, tenham sido feitas por seu próprio valor (SPINOZA, 2007).

1.3.        Afetividade

A imaginação também é constantemente afetada pelos atributos, gerando modos de pensar sobre as coisas. São os afetos que dão às pessoas a noção de que as coisas foram feitas para elas, por exemplo. O entrelaçamento dos modos, a relação a partir do encontro entre as causas e os atributos das coisas (e outras pessoas), afetam de forma singular cada um.
Dessa teoria sobre afetividade, de Spinoza, saem diversas especulações e teorias sobre Psicologia Social. Em que os indivíduos estão nesse processo de constituição a partir dos atributos, que expressam, cada um, sua essência e dos afetos que surtem nos modos, incluindo das noções, deles.

Considerações Finais

Substância trata-se daquilo que é concebido por si mesmo, mas a sua essência é constituída por atributos e formas de relações entre eles e causas, atributos e afetos que se encontram nas coisas do mundo. Esses atributos são necessários, ou seja, não foram escolhidos, na verdade, constam na substância por uma relação infinita de causas. Os afetos que determinam a noção das coisas em um indivíduo também existe por uma relação com causas necessárias, ou seja, demonstra-se a inexistência do livre-arbítrio.

15 de nov de 2013

Psicologia de Grupos



Intervenção Psicossociológica

A intervenção Psicossociológica está pr’além de ser apenas um método de pesquisa, caracteriza-se também por ser uma prática social transformadora.
Fala-se de transformação porque tal prática trabalha com ações que não condizem com as tradicionais: troca, intervenção, mudança, elucidação, espontaneidade, coletividade e afeto.

Na nossa disciplina, Psicologia de Grupos, pude sentir essa intervenção sendo trabalhada. Por vários momentos o grupo foi afetado com a troca; intervenções de estudantes, professor e monitor; elucidação de questões; espontaneidade para romper com defesas bastante desenvolvidas por grande parte dos alunos; a coletividade, junto a um sentimento de grupo, com dinâmicas e terapias de grupos.
Essa aula trazia consigo o dever da exposição. Sem esta, restava apenas o sentimento de fracasso, pois diferente das aulas comuns, essa cadeira exigia abertura de todos no grupo que se formava naquela sala de aula, para a construção de algo em comum sobre o assunto em pauta – essa construção era coletiva, todos participavam em um processo ativo. Do contrário, surgia uma barreira que impedia a existência de um verdadeiro grupo, com afetos e percepções que perpassavam por todos. Havendo uma barreira, a aula não podia ir adiante. O silêncio era, então, uma forma de expressão preocupante.

Transformação e explicitação


 Como foi dito, a exposição, nas aulas, era fundamental para a construção do conhecimento e do próprio grupo. Essa exposição se dava através da linguagem e do diálogo. Um diálogo exposto que explicitasse, de forma espontânea, o que cada sujeito trazia consigo, em sua singularidade.
O professor (mediador) esforçava-se para que houvesse boas condições a esse diálogo. Esforçava-se, bastante, nem sempre obtendo os resultados que queria, pois a barreira já estava formada e fortalecida por outras experiências que afetaram esses alunos.
Essa barreira é responsável pelo sistema de defesas que existia, com intensidades diferentes, em cada um dos estudantes. Ela impedia a explicitação, a exposição, a espontaneidade, a troca e a experiência do afeto.
O silêncio era gritante. E gritava a necessidade de transformar esse sistema de defesas, para que os estudantes sentissem a intensidade da experiência que a palavração trazia, quando explicitada.

Por essas questões, que defendo que esse modo de pesquisa, que nessa cadeira se revelou como uma prática, é transformadora. À medida que as aulas passavam, sentíamos o sistema de defesas, de cada um de nós, alunos, enfranquecer. Estávamos cada vez mais abertos, expostos, explicitando de forma espontânea o modo como aquela experiência nos afetava.

Coletividade e Espontaneidade

O professor cumpriu o papel de mediador. A pesquisa, o diálogo e a transformação não eram provocados por ele, nem controladas. Ele se colocava como facilitador do diálogo entre o próprio grupo. Este é quem dava os rumos da conversa – ou a inexistência dela. O processo era completamente coletivo.
Um ponto incomum e essencial nesse trabalho, sobre o professor-facilitador, é que durante todo o tempo ele trabalhou em si mesmo a espontaneidade, deixando que os afetos do grupo o perpassassem e o transformassem, como os outros participantes.
A linguagem utilizada por ele era a mais espontânea possível - racional, sentimental, organizativa, dependia apenas do instante. Isso o aproximava bastante do grupo e desenvolvia a sensibilidade de todos.

8 de nov de 2013

Roda de Conversa sobre Políticas de Cultura para Juventude

     Na roda de conversa sobre políticas de cultura para juventude, em que o Nei D'ogum, grande referência na luta negra, periférica, homo/bi/transexual, abriu o debate com a importância do rompimento da hegemonia que rege a nossa cultura de hoje, possibilitando a inserção dessas referentes classes (negra, periférica, homo/bi/transexual) no âmbito de cultura de acesso amplo na cidade. 
    A conversa iniciou e perdurou por essa linha: a nossa necessidade de uma cultura mais viva, com ausência de preconceitos, em que podemos nos mexer, ver o outro se mexendo e aceitar as diferentes cores; os diferentes modos de criar, e toda a diversidade da qual dispomos - e como as políticas públicas são importantes para isso, para o direito ao acesso de tod@s a essa produção e demonstração, pois, hoje, o acesso à cultura de Santa Maria depende de grande quantidade de recursos financeiros, e, ainda assim, não vemos de toda diversidade que poderíamos. 

   A cidade de Santa Maria é conhecida como cidade cultura - com mérito, pois muita cultura é produzida nessa cidade. No entanto, há um verdadeiro vazio no que se trata de meios e instrumentos para a produção e demonstração dessa cultura - o que nos garante o estatuto da juventude de 2013.

    Mais do que apenas reivindicar o direito a cultura, é necessário ter espaços públicos como meios para a produção da mesma.  Reivindicamos, portanto, outra coisa que é óbvia: espaço, para lazer, para esporte, para cultura - espaço para simplesmente ser de forma social e criativa.
     Vemos uma leva desses espaços públicos e  nossos sendo fechados na cidade, por motivos ditos estruturais (mas que são também políticos), e uma preocupação mínima, pra não dizer nula, do poder público quanto a abertura de outros, principalmente para os jovens.  Estes ficam sem os meios que, como foi dito, são garantidos por lei, para a sua produção artística e integração.

     Voltando à roda de conversa, os presentes foram bastante amplos em suas contribuições. Falou-se do picho, sua representação social e o que realmente significa sob o olhar e realidade de quem o faz. O picho é mais do que uma forma de transgressão entre os jovens, é uma forma de manifestação; de arte; do sujeito se fazer ver e "ouvir", e, principalmente, de ocupar um lugar que era para ser dele - mas que, de alguma forma injusta, não é. 
     Outro assunto bastante tratado nesse dia, foi o da desmilitarização. Tivemos na conversa um ex-militar que colocou a importância de termos, por exemplo, transexuais dentre esses tipos de agentes públicos para modificar o olhar sobre os mesmos. 

     Pode-se ver, diante de tantos temas debatidos em uma conversa sobre políticas de cultura para juventude e espaços públicos, que o problema social, como todos, não existe apenas em si mesmo. Mas existe em uma rede de problemas provocados por um sistema falho quanto às demandas reais da população.