29 de jul de 2013

O que se aprende quando se aprende uma palavra?


Não é possível dizer que uma criança, ao aprender um novo nome, está aprendendo, também, o que significa o objeto nomeado – no sentido de ter um mesmo significado do que seria para nós.
Para além da infância, até que ponto nos referimos, todos (mesmo falantes de uma única língua), sobre uma mesma coisa quando proferimos as mesmas palavras? O sentido das palavras que aprendemos está permeado por contextos, visões, outras influências (memória, emoção) que pode tornar o seu conceito um tanto singular dependendo do modo como for usado.
O trecho/texto Aprender uma palavra retrata o modo como as crianças andam por aí colocando rótulos nos objetos que veem, e como elas poderiam, na visão de muitos, não saber o que estão rotulando. Elas chamam por gatinho tudo o que se parece com um gatinho, e assim por diante. Mas nós, já crescidos, também rotulamos os objetos/fenômenos que vemos, a diferença é que esses estão carregados de sentidos que não existem para as crianças. No entanto, aquilo que foi classificado pelos mais novos também não está carregado de sentido?
E ao se tratar de outros adultos, como nós, que falam a mesma língua, e se referem aos mesmos objetos - será que podemos dizer que o outro fala também exatamente sobre uma mesma coisa, em todos os detalhes, tal e qual representamos em nosso pensamento?
Voltando às crianças, ao apreenderem uma palavra, compreendem um significado – que vai se expandindo com o tempo, quero dizer, a intensionalidade daquela palavra aumenta. Em um momento, gatinho não se trata mais daquilo tudo que é fofo; o tempo passa a existir ao compreender o significado de “amanhã” ou “daqui a pouco”. O universo amplia-se junto com a linguagem. Mas como ter a certeza de que essa ampliação ocorre de uma mesma forma a todas as pessoas?

O texto Homem e Linguagem inicia-se com o fato de Aristóteles ter definido o homem como sendo o ser vivo que possui lógos. E lógos, traduzido com o significado de razão, também significa linguagem.
A sociedade coletiva foi construída pelos homens e mulheres com a sua possibilidade de se comunicar. Apenas através da comunicação que os conceitos podem se tornar comuns a toda comunidade e propiciar uma convivência social. Ou seja, sem a linguagem a sociedade humana não teria se desenvolvido em tamanha complexidade política, cultural, etc.

Na mesma medida em que vamos crescendo, vamos nos integrando ao mundo. Isso ocorre com a conquista do conhecimento do próprio mundo que ocorre junto com a conquista da linguagem, e sua amplitude. Ao nos integrarmos com o mundo e crescermos, mergulhamos ainda mais fundo na linguagem. O mundo nos apresenta de acordo como vamos o controlando em nosso pensamento, através da ação de nomear ou indicar, que seja, dentro de uma linguagem. Veja bem, digo “dentro de” e não “com” a linguagem, com cuidado, pois o fato de adentrarmos nas palavras significa pensar o mundo por elas, e não com elas como sendo um instrumento. Não se trata de um instrumento, pois não há maneiras de deixar as palavras de fora quando achamos necessário para desbravar o mundo e seu entendimento por conta.
A linguagem apresenta-se como essencial para o desenvolvimento do indivíduo e social. Se o sujeito e seu crescimento ocorrem por uma construção social, levando em conta todas as suas relações e interpretações sobre elas (às vezes mais as interpretações do que as próprias relações) e essas relações e interpretações se dão por via da linguagem, então, realmente não se pode desvencilhar o crescimento em si da própria linguagem.
Acredito que compreender a linguagem, minimamente, é levar em conta contextos. Se a variação do conceito de uma mesma palavra ocorre incessantemente, sempre carregada de questões pessoais (singulares), e/ou se o conceito se repete em palavras diferentes – e a linguagem torna-se aqui um tanto apavorante e delicada – é realmente muito difícil saber se o que foi entendido é realmente o que foi dito (no desejo do sujeito que fala).

Entrar em uma língua é entrar em um mundo.
Para iniciar um novo parágrafo, acharia interessante reproduzir, em alguns termos, um pensamento que emergiu de uma reunião com o prof. Omar, do próprio: aprender a língua Guarani é aprender um novo universo. Teríamos que compreender toda uma cultura; um modo de se relacionar; de compreender a amizade, enfim, de ver o mundo – que é outro – através de uma linguagem diferente.
Se, em culturas semelhantes (hoje, não entrando em um contexto histórico, mas pelos resultados da globalização) como são as ocidentais, podemos compreender o inglês, por exemplo, apenas quando entramos dentro de tal língua, e passamos a “pensar como os falantes nativos pensam”, pois não basta traduzir as palavras no sentido literal para o português para entender o que foi dito, em culturas extremamente diferentes, como a indígena, torna-se ainda mais complicada a tradução. Pois a linguagem deles carrega consigo um mundo inteiro muito diferente do ocidental.  


Jorge Larrosa, em suas Notas sobre a Experiência e o Saber da Experiência, refere-se, no início, sobre a importância política do conhecimento reflexivo crítico, diferenciando do técnico; vendo a educação como uma práxis política em detrimento da visão de uma ciência aplicada. Esse pensamento crítico e científico está em torno das palavras. Por isso, fala-se de seu poder. Através das palavras criamos as significações para o que nos passa. No texto discorre-se sobre a necessidade de lutar por elas, por seu controle (via imposição, censura, etc.).  Entende-se que lutar pelas palavras é lutar pelo sentido de nossas vivências. Palavras são mais do que palavras. Elas fazem parte do jogo político em que se cria a realidade e apropria-se dela. O domínio do pensamento ocorre de acordo com a linguagem. Esse passa a ser significativo ao cruzar-se com ela. “O pensamento se reestrutura e se modifica ao transformar-se em linguagem. O pensamento não se expressa na palavra, mas se realiza nela” (Vygotski, 1993, p.298).

Enfim, a linguagem é um universo que nos possibilita o desenvolvimento. Esse é o nosso diferencial. Mas também há a problemática de que as palavras, sendo algo construído, também são disputadas, ou seja, também podem mudar (e mudam, já mudaram ao longo do tempo) o seu significado – e isso poderia nos excluir do mundo. Não podemos crescer e continuar chamando casacos fofos de gatinhos, nem perder a transformação dessas mesmas palavras que poderiam nos permitir, algum dia, chamar casacos fofos de gatinhos, caso assim quisessem.

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