2 de jun de 2013

Análise Crítica do filme "Entre os Muros da Escola"



     O presente artigo pretende analisar de forma crítica o filme “Entre os Muros da Escola”, que tem seu enredo ocorrendo em uma escola periférica com estudantes de baixa classe social, partindo dos pressupostos sociais sobre relações de poder, funções da escola, adaptação dos estudantes, convivência com a diversidade, singularidade de potenciais negligenciados. A partir disso, discorrer sobre a possível alternativa da escola que queremos em detrimento da que hoje temos.

     Tradicionalmente, vê-se as escolas como instituições de reprodução de uma ideologia dominante. A educação dá-se tendo o aluno como objeto em que o professor preenche de conhecimentos prontos e desconexos com a realidade do primeiro. No filme tais fatos ficam claros em diversos momentos. Por exemplo, uma estudante questiona os termos de norma culta da língua francesa que o professor está ensinando à turma. Esse questionamento ocorre porque a menina nunca utilizou desses termos ou ouviu em sua própria comunidade. Para exemplificar a passividade do aluno, há a cena em que o professor exige que um aluno copie a matéria do quadro – fazendo com que isso seja o principal sentido de se estar na sala de aula: copiar e ouvir o conteúdo que é dado pelo professor, visto como detentor único do conhecimento.

     Outro ponto importante é que o conhecimento se reflete como poder no ambiente escolar. O professor detém o conhecimento e também todo o poder na sala de aula. Em determinado momento, ele pede que uma estudante leia um parágrafo do livro “O Diário de Anne Frank”, ao vê-la recusar-se à leitura, recorre à imposição e a humilhação da mesma. Ele exige que a aluna se desculpe por ter sido insolente diante de suas amigas. A consequência dessa atitude é um afastamento ainda maior da classe estudantil. O professor transparece alguma angústia com a situação, porém não tenta agir de outra forma, estando limitado por sua formação de apenas ver os estudantes como ouvintes e objetos do conhecimento do professor.

     Um aspecto marcante da escola é que esta parece estar à parte da realidade dos alunos. Primeiramente, pelo conteúdo, como já foi exemplificado, desde a linguagem e em vários outros pontos, são discursos que não se refletem na vida diária dos estudantes. Pode-se notar, também, que a diversidade de etnias que é levada à sala de aula não é respeitada nem explorada de forma positiva. O professor não sabe manejar com a pluralidade e perde o controle na sala de aula. Vê-se, então, outra fraqueza na formação pedagógica.

     No entanto, pode-se afirmar que apesar de o professor não ter formação para lidar com as adversidades da escola e não saber lidar com os problemas do convívio direto com os estudantes, diferentemente de outros professores, ele apresentou fragilidade quanto às problemáticas que surgiram no decurso. O professor não levava apenas as situações difíceis para a direção, mas dialogava com os estudantes, e, mesmo sem preparação, ouvia-os de volta – participava do sofrimento deles. A impressão que o filme deixou foi que o professor não estava preparado para mudar seu modo de agir, mas nos detalhes apresentou vontade de tal atitude. Um exemplo ocorre com o estudante “problema” da turma, diante dos professores, em que o professor descobre o seu talento com fotos e, com isso, realiza uma exposição para a classe, desenvolvendo, dessa forma, um potencial singular e extracurricular. Em outro momento, ele defende o estudante no conselho de classe quando esse está para ser expulso devido a uma situação saiu do controle de toda turma, mas acabou tendo esse único aluno como agente da agressão. Nessa cena, o professor demonstra sofrimento e limitação diantes dos alunos e outros professores, estando, concomitantemente, nas posições de culpado, vítima e conselheiro (juiz).   

          O filme encerra-se com os relatos do que cada estudante aprendeu durante o ano. A última relata, a sós com o professor, que não aprendeu nada. Talvez seja a cena mais reflexiva do filme. Para que serviu todo o conhecimento que esses alunos absorveram? Completamente distantes de seus cotidianos, os alunos apenas decoraram conceitos que foram (ou serão) esquecidos. A escola foi quase inútil analisando por um viés de aprendizagem de fato. No entanto, ao reproduzir a ideologia dominante – para o que serve a maioria das instituições, realizou-se um bom trabalho. A escola e os professores, em nenhum momento, ousaram adaptar-se à realidade dos estudantes e sua diversidade, pelo contrário, aqueles que não se adaptavam a escola, por mais alheia a si que estivesse, teria de se retirar. Os professores alegavam não se importar com a vida dos alunos fora do colégio, não poderiam, segundo eles, interferir na vida pessoal de cada um. Apenas dentro dos muros da escola é que lhes interessavam os jovens.

     Todavia, sabe-se que a interferência é educação na vida do sujeito é enorme, e o professor tem papel principal nisso. O erro em não pensar para fora da instituição é uma das maiores fragilidades da educação que se tem hoje.

     O que se quer da escola, afinal? A emancipação do sujeito através do conhecimento crítico, supõe-se. Hoje o que vemos são as reproduções do sistema individualista, competitivo, superficial e hierárquico - em que, quando se é novo, se submete a um professor, e, em casos graves, ao diretor – e isso é uma preparação para a submissão da qual se enfrentará quando adulto. Alguém sempre se apresentará sobre nas relações de poder. A aprendizagem ocorre apenas sob a lente do professor, sem exploração do aluno em sua própria realidade. Mas qual o papel da escola para se chegar nessa emancipação do sujeito? Promover questionamentos sobre os preconceitos, reflexões sobre as diversidades, respeito mútuo, construção conjunta de conhecimento, interdisciplinaridade e exploração dos potenciais singulares.

     Faz-se necessário, para mudar a estrutura da sociedade, mudar a estrutura das instituições, principalmente a escolar. A escola deve ter sua função para formar sujeitos atuantes, com ideais próprios e críticos, que obtém seus conhecimentos em contato com a realidade e prontos a jamais submeter-se.

3 comentários:

  1. Ótimo ponto de vista!

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  2. Você soube analisar com perfeição o sentido do filme, e nos ajudou a entender melhor, obrigada!

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  3. Baixar o Filme - Entre os Muros da Escola - Mostra que a escola está isolada e incapaz de resolver os problemas criados pela sociedade - http://mcaf.ee/3me05

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