30 de jun de 2013

Pichação... Vandalismo?

Nem todo mundo tem acesso às organizações da Rede Globo pra divulgar amplamente as suas reflexões e ouvir reflexões críticas alheias. Nem todo mundo, acredite, tem acesso frequente a meios de comunicações mais democráticos, como o facebook, pra divulgar amplamente as suas reflexões e ver reflexões críticas alheias.

Não serão as paredes e os sprays uma alternativa a isso?
Não sei, não tenho opinião fechada sobre o assunto. Pichações podem parecer sem sentido pra muita gente, inclusive pra mim. Mas em pichações como a de ontem, na Câmara, aqui em Santa Maria, e depois de conversar com alguns companheiros, pensei que pichar em um espaço que representa "poder" frases de reivindicação - por mais que não tenha nenhuma beleza estética - podem ser uma forma de expressão muito importante pra tal comunidade, e talvez nós devêssemos olhar pra elas pr'além de "depredação do patrimônio público"...

Afinal, o que querem os pichadores nos dizer? E por que não o dizem de outra forma?

23 de jun de 2013

Ordem e Silêncio

- ordem e silêncio, dizia na bandeira.
- há algo de errado que precisava ser dito.
- mas a ordem é o silêncio.
- e o que precisa ser dito...
- terá de ser calado ou assustaremos os visitantes.
O Grande Olho está nos vigiando. Nenhum ai. Ah, um único ai e ele acordará. Nenhum gesto desorganizado. Não perca a hora. Não falte ao trabalho. Não tranque o trânsito, pelo amor de deus. Ai de nós se o trânsito for trancado. Imagina o prejuízo se a máquina for interrompida no meio do processo.
Não, eu disse nenhum gesto fora de ordem. Estão sempre prontos pra silenciar. E dizer que o silêncio é uma virtude e és livre para permanecer calado, para, em seguida, te tirarem a liberdade e mandar repetir, e se acusar, e depois silêncio, novamente.
Ah, o silêncio. Há que investir em educação e devolver a capacidade dessa gente de calar. Aposto que quando crianças os pais não ensinaram essas crianças a ficarem quietos diante dos mais velhos. Bando de sem-educação, vão para as ruas colocar as vísceras pra fora. Mandar a visita embora.

Onde foi parar o bom-senso dessa gente?

16 de jun de 2013

Sweet Smoke

Que  fossem todos me procurar pelas esquinas
E voltassem com notícias minhas
E com um maço de cigarros...






Que eu saí para comprar
e nunca mais voltei.

9 de jun de 2013

Ações Afirmativas - Luta pelos 50%


Não se pode ter medo de avançar, principalmente quando se fala em ações afirmativas. Nesses casos, os beneficiados não são apenas aqueles que foram prejudicados historicamente e sofrem, ainda hoje, as consequências sociais, mas toda a sociedade. Esta ganha, essencialmente, em democracia.

A lei 12711/2012, aprovada em agosto, garante que 50% das vagas de todas as universidades federais do país sejam destinadas a estudantes provenientes de ensino médio público, de forma integral. Dentro desses 50% de vagas reservadas para escolas públicas, há subdivisões: 25% das vagas será para os estudantes com renda familiar igual ou inferior a um salário mínimo e meio, levando em conta, em ambas as divisões, o percentual mínimo correspondente ao de sujeitos autodeclarados pretos ou pardos, de acordo com os últimos dados do IBGE. As universidades terão, desde a dada inicial da lei, quatro anos para se adaptar.

O Brasil ocupa, hoje, o lugar de 6ª economia mundial, porém tal dado parece não se refletir na sociedade como um todo, que é uma das mais desiguais do mundo. As universidades públicas seguem essa lógica desigual, pois concorrem a mesma vaga estudantes das mais diversas classes sociais, prevalecendo, então, a exclusão daqueles que tiveram menos condições financeiras.

No Rio Grande do Sul, hoje, 89% dos estudantes de ensino médio estão nas escolas públicas. No entanto, nas universidades públicas, esses estudantes não chegam a se aproximar dos 80%. Isso parece ilógico no momento em que se analisa a densidade de candidatos por vaga do último vestibular, que foi em todos os cursos, com exceção apenas de Engenharia Acústica e Ciências Sociais Bacharelado, superior na ação afirmativa C (escola pública).

Essa é a “farsa da igualdade”, pois ao tratar da mesma forma pessoas de realidades muito diferentes sempre irá prevalecer um dos lados. Ou seja, ao deixar que estudantes que tiveram acesso ao ensino privado, cursos de línguas, etc. concorram realizando uma prova, por uma mesma vaga, com aqueles que tiveram acesso apenas ao ensino público e com condições financeiras menores, sabe-se que os primeiros terão imensa vantagem – não por falta de capacidade dos segundos, e sim por desigualdade de condições reais entre as classes.

Além disso, pesquisas mostram que o desempenho acadêmico de estudantes cotistas não é inferior aos demais, pelo contrário, é igual ou se revela superior. Esses dados fortalecem o argumento de que não é a capacidade cognitiva que é testada ao se concorrer em um vestibular.

A igualdade só pode ser real quando segue o princípio de equidade. Este princípio diz que se deve tratar desigualmente os desiguais, priorizando onde há mais carência de oportunidade, dando a cada um o necessário de acordo com as suas condições – apenas desta forma pode-se chegar à igualdade de fato. Portanto, as ações afirmativas são o passo crucial para superar o contexto desigual em que vivemos.

2 de jun de 2013

Análise Crítica do filme "Entre os Muros da Escola"



     O presente artigo pretende analisar de forma crítica o filme “Entre os Muros da Escola”, que tem seu enredo ocorrendo em uma escola periférica com estudantes de baixa classe social, partindo dos pressupostos sociais sobre relações de poder, funções da escola, adaptação dos estudantes, convivência com a diversidade, singularidade de potenciais negligenciados. A partir disso, discorrer sobre a possível alternativa da escola que queremos em detrimento da que hoje temos.

     Tradicionalmente, vê-se as escolas como instituições de reprodução de uma ideologia dominante. A educação dá-se tendo o aluno como objeto em que o professor preenche de conhecimentos prontos e desconexos com a realidade do primeiro. No filme tais fatos ficam claros em diversos momentos. Por exemplo, uma estudante questiona os termos de norma culta da língua francesa que o professor está ensinando à turma. Esse questionamento ocorre porque a menina nunca utilizou desses termos ou ouviu em sua própria comunidade. Para exemplificar a passividade do aluno, há a cena em que o professor exige que um aluno copie a matéria do quadro – fazendo com que isso seja o principal sentido de se estar na sala de aula: copiar e ouvir o conteúdo que é dado pelo professor, visto como detentor único do conhecimento.

     Outro ponto importante é que o conhecimento se reflete como poder no ambiente escolar. O professor detém o conhecimento e também todo o poder na sala de aula. Em determinado momento, ele pede que uma estudante leia um parágrafo do livro “O Diário de Anne Frank”, ao vê-la recusar-se à leitura, recorre à imposição e a humilhação da mesma. Ele exige que a aluna se desculpe por ter sido insolente diante de suas amigas. A consequência dessa atitude é um afastamento ainda maior da classe estudantil. O professor transparece alguma angústia com a situação, porém não tenta agir de outra forma, estando limitado por sua formação de apenas ver os estudantes como ouvintes e objetos do conhecimento do professor.

     Um aspecto marcante da escola é que esta parece estar à parte da realidade dos alunos. Primeiramente, pelo conteúdo, como já foi exemplificado, desde a linguagem e em vários outros pontos, são discursos que não se refletem na vida diária dos estudantes. Pode-se notar, também, que a diversidade de etnias que é levada à sala de aula não é respeitada nem explorada de forma positiva. O professor não sabe manejar com a pluralidade e perde o controle na sala de aula. Vê-se, então, outra fraqueza na formação pedagógica.

     No entanto, pode-se afirmar que apesar de o professor não ter formação para lidar com as adversidades da escola e não saber lidar com os problemas do convívio direto com os estudantes, diferentemente de outros professores, ele apresentou fragilidade quanto às problemáticas que surgiram no decurso. O professor não levava apenas as situações difíceis para a direção, mas dialogava com os estudantes, e, mesmo sem preparação, ouvia-os de volta – participava do sofrimento deles. A impressão que o filme deixou foi que o professor não estava preparado para mudar seu modo de agir, mas nos detalhes apresentou vontade de tal atitude. Um exemplo ocorre com o estudante “problema” da turma, diante dos professores, em que o professor descobre o seu talento com fotos e, com isso, realiza uma exposição para a classe, desenvolvendo, dessa forma, um potencial singular e extracurricular. Em outro momento, ele defende o estudante no conselho de classe quando esse está para ser expulso devido a uma situação saiu do controle de toda turma, mas acabou tendo esse único aluno como agente da agressão. Nessa cena, o professor demonstra sofrimento e limitação diantes dos alunos e outros professores, estando, concomitantemente, nas posições de culpado, vítima e conselheiro (juiz).   

          O filme encerra-se com os relatos do que cada estudante aprendeu durante o ano. A última relata, a sós com o professor, que não aprendeu nada. Talvez seja a cena mais reflexiva do filme. Para que serviu todo o conhecimento que esses alunos absorveram? Completamente distantes de seus cotidianos, os alunos apenas decoraram conceitos que foram (ou serão) esquecidos. A escola foi quase inútil analisando por um viés de aprendizagem de fato. No entanto, ao reproduzir a ideologia dominante – para o que serve a maioria das instituições, realizou-se um bom trabalho. A escola e os professores, em nenhum momento, ousaram adaptar-se à realidade dos estudantes e sua diversidade, pelo contrário, aqueles que não se adaptavam a escola, por mais alheia a si que estivesse, teria de se retirar. Os professores alegavam não se importar com a vida dos alunos fora do colégio, não poderiam, segundo eles, interferir na vida pessoal de cada um. Apenas dentro dos muros da escola é que lhes interessavam os jovens.

     Todavia, sabe-se que a interferência é educação na vida do sujeito é enorme, e o professor tem papel principal nisso. O erro em não pensar para fora da instituição é uma das maiores fragilidades da educação que se tem hoje.

     O que se quer da escola, afinal? A emancipação do sujeito através do conhecimento crítico, supõe-se. Hoje o que vemos são as reproduções do sistema individualista, competitivo, superficial e hierárquico - em que, quando se é novo, se submete a um professor, e, em casos graves, ao diretor – e isso é uma preparação para a submissão da qual se enfrentará quando adulto. Alguém sempre se apresentará sobre nas relações de poder. A aprendizagem ocorre apenas sob a lente do professor, sem exploração do aluno em sua própria realidade. Mas qual o papel da escola para se chegar nessa emancipação do sujeito? Promover questionamentos sobre os preconceitos, reflexões sobre as diversidades, respeito mútuo, construção conjunta de conhecimento, interdisciplinaridade e exploração dos potenciais singulares.

     Faz-se necessário, para mudar a estrutura da sociedade, mudar a estrutura das instituições, principalmente a escolar. A escola deve ter sua função para formar sujeitos atuantes, com ideais próprios e críticos, que obtém seus conhecimentos em contato com a realidade e prontos a jamais submeter-se.