28 de abr de 2013

Os 4 Eus

Há o selvagem que quer descobrir o mundo para desvendar a si mesmo.
Há o lobo que apenas se interessa por aquele mundo interno, que atormenta e nunca, nunca sai da própria cabeça.
Há o novo fascinado pela vida diante de si.
Há o velho, que tem a vida como aquilo que cansa, que dói, que perturba e já não pode, não quer e não aguenta.

Todos habitando uma mesma cabeça.

21 de abr de 2013

O Silêncio das Estrelas

É de se pensar: deus-me-livre ter que um dia pedir por isso.

Às vezes se quer aquela coisa que não se pede - vontade.

Se não existe, não tem o que fazer.

É de se olhar e pensar: é isso aí.
E deixar ir.

17 de abr de 2013

O Último Pôr-do-Sol

Minha vida é saudade da cada que passou e há de passar, é memória, é dor. Mas é dor que é vida.
É caetano, é Bahia. É gente preta, gente bonita.
É sorriso de gente feliz.
É solidão, é paciência.
É multidão, incontinência.
São olhos e universos e galáxias e corações.
São ventos e praias e montanhas e vulcões.
É partida. É chegada.
É barulho. É silêncio.

É urgência.

8 de abr de 2013

Sobre a Experiência



1.    Linguagem

           Jorge Larrosa, em suas Notas sobre a Experiência e o Saber da Experiência, refere-se, no início, sobre a importância política do conhecimento reflexivo crítico, diferenciando do técnico; vendo a educação como uma práxis política em detrimento da visão de uma ciência aplicada. Esse pensamento crítico e científico está em torno das palavras. Por isso, fala-se de seu poder. Através das palavras criamos as significações para o que nos passa. No texto discorre-se sobre a necessidade de lutar por elas, por seu controle (via imposição, censura, etc.).  Entende-se que lutar pelas palavras é lutar pelo sentido de nossas vivências. Palavras são mais do que palavras. Elas fazem parte do jogo político em que se cria a realidade e apropria-se dela. O domínio do pensamento ocorre de acordo com a linguagem. Esse passa a ser significativo ao cruzar-se com ela. “O pensamento se reestrutura e se modifica ao transformar-se em linguagem. O pensamento não se expressa na palavra, mas se realiza nela” (Vygotski, 1993, p.298).
    
2.    Identidade

            A construção de identidade do indivíduo ocorre essencialmente pela introjeção do externo e adaptação ao contexto sócio-histórico. O sujeito transforma a realidade à medida que é transformado por ela. O seu papel mostra-se ativo ao externalizar o que lhe é subjetivo. Essa troca entre sujeito-ambiente é constantemente realizada.
           As experiências adquiridas pelo sujeito participam, fundamentalmente, de seu processo de individuação. O que lhe toca, o que lhe acontece faz parte dessa transformação que se dá de forma constante. Isso é de importância extrema, que se formem caracteres vivenciados.  Porém, o que se vê na atualidade, são sujeitos informados e apenas. Pessoas experienciadas estão cada vez mais raras, enquanto a busca pela informação é maior a cada momento.
            A necessidade de se obter informações é concomitante com a vontade de opinar. Opina-se sobre tudo. A informação parece nunca ser o suficiente.
           
     .
2.1.        Mídia, excesso de informação e opinião – em confronto com a experiência.

Os sujeitos de hoje estão constantemente insatisfeitos com as novidades, e o próprio modo de vida tem contribuição direta com tal fato. A velocidade com que as informações atingem-nos, através dos atuais meios de comunicação, é inacreditável. Informações diversas e ao mesmo tempo. O conhecimento está apenas a dois cliques. Não há tempo para focar em uma única informação, com tantas a serem lidas. Há menos, ainda, tempo para refletir sobre o que acabou de ser lido, associar, pensar... A mente está em constante ação, e substituindo-se todo o tempo. Assim como as memórias vão sendo rapidamente substituídas.

O sujeito moderno não só está informado e opina, mas também é um consumidor voraz e insaciável de notícias, de novidades, um curioso impenitente, eternamente insatisfeito. Quer estar permanentemente excitado e já se tornou incapaz de silêncio. Ao sujeito do estímulo, da vivência pontual, tudo o atravessa, tudo o excita, tudo o agita, tudo o choca, mas nada lhe acontece. Por isso, a velocidade e o que ela provoca, a falta de silêncio e de memória, são também inimigas mortais da experiência.” (LARROSA, J., Sobre a Experiência e o Saber da Experiência)

2.2.        Experiência

Essa informação sem pudor e sem pausa está em conflito direto com a experiência. O sujeito superinformado não tem tempo para experienciar. Em sua busca feroz pelo conhecimento não consta a principal forma de se adquirir, de fato, experiência: silenciar.

         A identidade desse sujeito é autodeterminada, consistente com sua sabedoria. Ele é inatingível. O oposto de tudo isso é o sujeito da experiência.

3.    Sujeito da Experiência

          O ato de experienciar requer um tanto de doação de si próprio – abrir mão de certezas; abstrair-se do próprio conhecimento; ser receptivo sem nenhuma informação prévia. A experiência tem de entrar e tomar conta, perpassando por todo o sujeito. Este, absorve-a. Ele é passivo, no caso, deixa de ser atuante buscando a informação.
         O sujeito da experiência é sensível ao que lhe ocorre. Ele se demora em um acontecimento, deixa que este lhe percorra e lhe transforme. Se for necessário, a vivência pode vir seguida de uma pausa. O indivíduo sabe a importância de refletir e a necessidade de parar o seu tempo para isso. A ele, não existe “perda de tempo” quando não está em busca de informação. Ele se permite tempo e espaço para absorver a experiência.
         O sujeito da experiência é, essencialmente, submetido a ela. Deixa-se ser transformado, transpassado. Deixa-se vivenciar, transborda-se e se demora nos detalhes.
         A experiência não é como informação que dele se apodera, pelo contrário, a experiência toma-lhe por completo.

4.    Conhecimento e Experiência

         O conhecimento de um acontecimento pode ser compartilhado. O conhecimento através da experiência é singular. A experiência não pode ser vendida; não se pode dominar o outro pela sua experiência; não se constrói relações de poder pelo que foi experienciado. A experiência varia de acordo com indivíduo, é completamente pessoal. Dois sujeitos distintos jamais terão a mesma experiência, independente do fato de o ocorrido ser idêntico a ambos.  Experienciar liga-se diretamente a Existir.
        O conhecimento teórico é útil. Com ele, domina-se. O detentor do conhecimento é o detentor do poder. O conhecimento vende-se. Diferentemente da experiência, o conhecimento é externo e pode pertencer a qualquer um que lhe tome a si.
         A experiência nunca se repete, ela sempre se transforma. A experiência é intrínseca à personalidade do indivíduo. Jamais poderão expropria-lo do foi experienciado.