29 de dez de 2013

13 de Julho de 2013.

Ao terminar o último capítulo do livro "Psicologia Social crítica: Como Prática de Libertação" do Pedrinho Guareschi, eu passei por uma reação de assombro enxergando o óbvio: "então é a felicidade que se busca?"

Sim, parece que estamos buscando o óbvio. O que há de mais humano. 

Então, todo o esforço da doação de si é pelo óbvio. O empenho em se enfiar pelas brechas, caminhar pelo caminho mais difícil - sem deixar de se demorar nas curvas e admirar a paisagem porque também vive-se de afeto - é apenas pelo óbvio.

16 de dez de 2013

Voz e Vez aos Estudantes!

Reunimo-nos nessa segunda, dia 16 de Dezembro de 2013, estudantes de diversos semestres do curso de psicologia da UFSM e também da Unifra para discutir o autoritarismo dentro do curso e da universidade.

A discussão iniciou em torno do evento ocorrido na última semana, em que uma estudante teve a sua nota prejudicada pela alegação da professora da disciplina de que a primeira não fez um trabalho acadêmico que, na verdade, fez. Apesar da estudante afirmar ter feito o trabalho e se dispor a trazê-lo para a professora reavaliar, esta não aceitou e argumentou que qualquer um poderia ter assinado pela mesma.

Tal fato pode ser conceituado como assédio moral, que pode ter recorrência em instâncias superiores e acabar com a discussão. No entanto, fomos além.

O autoritarismo está presente nas relações de poder que perpassam em todos os âmbitos da universidade. Essa cena que ocorreu dentro da sala de aula traz tais relações de forma clara. Porém, sabemos que essa apropriação do poder de modo autoritário e hierárquico ocorre, além de dentro da sala de aula, em outras instâncias: em reuniões de colegiado, departamento, conselhos superiores, etc., em que temos uma representação estudantil simbólica (se tratando de menos da metade do número da representação docente, normalmente 15%) e, ainda sendo ínfima, essa representação não tem o pouco de voz presente nos conselhos respeitada.

Nós, estudantes, entendemos que podemos e devemos participar de modo ativo da nossa formação profissional e queremos ter voz e vez dentro dos espaços de decisão e atuação acadêmica. Portanto, sentimos a necessidade de nos colocarmos e nos expormos mais nos espaços que também nos dizem respeito, como os próprios conselhos que já ocupamos cadeiras e as salas de aula; propormos discussões sobre o plano de ensino, direitos e deveres dos estudantes e a construção do método pedagógico.

O plano de ensino, o método pedagógico e as deliberações institucionais têm de partir apenas d@s professor@s? Nós compreendemos que não. Temos, enquanto estudantes, perspectivas vivas quanto ao modo de obter conhecimento e de funcionar uma instituição que é, além de nossa, de toda comunidade.

Não estamos contentes como o modo que está colocado o sistema, que é hierárquico, autoritário e tem todo o seu poder de decisão nas mãos de professores; com as relações que se naturalizaram, em que o estudante pode e deve prestar atenção, por, em média, quatro horas, apenas no professor e não ouve o colega do lado nem tem direito à fala; com a formação profissional que se baseia, semestre à semestre, à redução teórica de uma única perspectiva (a escolhida pel@ profess@r responsável pela disciplina), empobrecendo todo um conhecimento que poderia ser criativo, renovado e fazer sentido ao estudante, sendo construído por ele em conjunto com @ profess@r.

Enfim, não estamos contentes com a estrutura das relações institucionais, com o nosso lugar secundarizado, com a formação “pronta” e posta para nós e com a ausência da voz estudantil.

13 de dez de 2013

Feliz aniversário!



Na minha infância, eu costumava considerar o meu aniversário o melhor dia do mundo. Afinal, era o dia em que eu ganhava uma festa, recebia várias pessoas que estavam ali só pra me ver, via meus pais passando o dia inteiro em função de mim e ganhava vários presentes. Ah, eu gostava mesmo dos presentes. Sem contar que havia certa magia que permeava a situação de “ficar um ano mais velha”. Depois de assoprar a vela parecia que eu realmente crescia um pouco.
Agora, um pouco mais crescida, a maior parte disso perdeu o sentido ou mesma a existência. Essas coisas não acontecem mais, não tem mais festinha com chapeuzinho e balões nem a sensação de que algo mudou nesse dia. Mas então, o que é que mantém essa sensação de que o aniversário é uma data especial (porque, para mim, é uma data especial)?
Acho que o especial, o bonito, é que se espera algo desse dia – e se ganha. Não se trata de presentes. O fato é que no teu aniversário as pessoas significativas demonstram de uma significativa que te querem bem. Eu costumo dizer que é um dia que serve de desculpa para dizer e fazer coisas que demonstrem teus sentimentos pelas pessoas sem ficar chato ou parecer encheção/puxação de saco. E, bom, não é mais os presente, é ver meus pais se esforçando pra fazer meu dia legal, são as ligações dos amigos que não conseguiram te ver no dia, as palavras carinhosas, os abraços, os “parabéns” sussurrados no ouvido.
A sensação de ser querido por gente querida.

11 de dez de 2013

O exercício do autoritarismo em professores do curso de Psicologia da UFSM



Hoje, presenciei mais uma cena de mal estar provocado em uma estudante do 4º semestre de psicologia pelo autoritarismo de uma professora. A primeira, ao ser prejudicada por ter sua nota reduzida, se retirou, em péssimo estado psicológico, da sala de aula. A situação toda não ocorreu apenas pela nota em si, mas pela exercício do autoritarismo que ocorreu naquele momento, pois a estudante alegou ter ido na aula e feito o trabalho, que seria o motivo na nota reduzida), e a professora, contrapondo, colocou que qualquer um poderia ter assinado aquele trabalho. A professora teve a última palavra, claro.
    
Bom, vejamos que o trabalho em si não é o ponto crucial do ocorrido, e que esse tipo de situação acontece no nosso cotidiano. O ponto crucial é que reduzindo a nota de um estudante, este fica prejudicado diante de um sistema muito pr’além daquela aula, e que apesar de sabermos que esses critérios acadêmicos são muito pobres e injustos, somos obrigados a nos submeter a isso, e, indo além, ao mesmo tempo em que nos submetemos, os professores se apropriam de seu poder e – exercem o autoritarismo.

...exercem o autoritarismo realizando as suas metodologias ridículas, em que, de alguma forma, obrigam o estudante a ser frequente em uma aula cansativa, empobrecida, monóloga e que causa mal estar e sofrimento nos estudantes.

Metodologias autoritárias e incoerentes: professores reproduzindo conteúdos sobre atuação de psicólogos em escolas, em que se contextualiza as situações, redescreve-se e discute-se problemas, critérios de avaliação são revistos, assim como a metodologia e espaço de diálogo com os alunos. Mas eles próprios, professores, aplicam avaliações tradicionais e fazem da sua aula um monólogo exaustivo.

Fica, além de uma nota de repúdio, questionamentos sobre o tipo de formação em psicologia que estamos tendo; o que realmente aproveitamos nesse curso; qual o tipo de profissionais que temos, queremos e seremos; e por que o curso tão desejado acaba se tornando uma tortura.

8 de dez de 2013

10/07/2013

Estar atrasada tornou-se tão habitual que ao se ver em cima da hora, sente-se no desejo de demorar-se um pouco mais.
Sempre pensando se vale ou não a pena.
E coloca os pés na rua, e vale. E dentro do ônibus vale ainda mais. E sempre tem aqueles olhos e sorrisos que valem o mundo.
Ah, as despedidas também valem a vida. Mesmo quando o novo parece tão mais interessante e partir torna-se tão necessário – dói.
De qualquer forma, é sempre necessário partir. Olhar pela última vez os olhos ingênuos daquele senhor sempre pronto para e aprender e dar em troca algo de si; com aquela mulher firme e suave, contraditória e compreensiva. Olhar aquele ambiente que tanto incomodou e causou conforto, pela última vez na mesma posição. Mas o viajente de mim está de volta.
...Levando consigo todo o conhecimento, apenas pela espera de mais. Como Sidarta.

E a vida é desafiadora.
E o meu desejo é o acúmulo de memórias.

E como existe olhos bons nesse mundo a serem lembrados.

7 de dez de 2013

28/05/2013

No encontro do grande grupo de hoje, em que foi discutido o capítulo “O conceito de relação: misterioso e fecundo”, representamos uma situação relatada pela integrante Mirela. Nesta situação, um antigo usuário do CAPSi  pediu-lhe dinheiro na saída de um banco. O dinheiro foi dado, todavia, esse não foi o foco da reflexão, e, sim, a consciência que temos desse processo.

Portanto, alguns membros do grupo – eu estava inclusa – improvisaram duas cenas. A primeira foi similar à situação ocorrida: um menino pedindo dinheiro a pessoas que não sabiam qual seria o modo “certo” de reagir. A segunda foi sobre uma esposa querendo internar o seu marido usuário de crack.

Após essas representações, refletimos sobre essas ações. Afinal, as pessoas que são solicitadas à internação realmente se beneficiarão disso? A conclusão coletiva foi que as pessoas que precisam de ajuda podem dizer o que precisam. O psicólogo (ou médico, assistente, etc.) não, necessariamente, pode dizer o que é melhor para alguém que está na rua, por exemplo.

Outra reflexão bastante interessante da discussão do diz foi sobre a visão que se tem quanto ao usuário de droga – não se vê além da droga, parece que a vida daquela pessoa permeia apenas nesse aspecto. O todo se resume a uma parte, presumindo e reduzindo o sujeito a uma característica vista, além de tudo, como negativa. Assim se constrói monstros de rua.

O conceito de caridade também foi discutido. Veem-se pessoas caridosas como aquelas que tendo mais doam bens materiais aos mais necessitados. Porém, caridade é um doar-se reciprocamente; é promover a troca através de um diálogo real.


O pensamento que resiste sempre a cada fim de encontro é que há muitos detalhes que surgem no cotidiano prontos a serem revisto.

6 de dez de 2013

Cabeças

Uma mulher muito velha, em um hospital psiquiátrico- também conhecido como asilo de loucos; abandono de estranhos; depósito de alienados; esconderijo do diferente, etc. – possui uma fábrica de bonecas, a qual acredito ser a sua própria família. O seu quarto, bastante precário, é todo o seu mundo. Outra pessoa que se perde dentro da própria cabeça.

Essa mulher muito velha construiu o seu mundo imaginário – onde encontra abrigo e afeto. Portanto, merece um lugar alheio à sociedade. E nós, julgo normais, não precisamos ter contato com esse tipo de estrangeiro ao nosso mundo.

Nós, humanos corretos, morais, organizados, bem vestidos e possuidores do mais certo estado mental, não construímos esses mundos imaginários.
Será?
Não se vê na arte, na literatura, nos pensamentos mais pessoais, também, um mundo imaginário?

Drogados também são uma espécie humana a se pensar, pois encontraram uma passagem a esse mundo imaginário através da química. Não merecem conviver conosco, normais e respeitáveis. Mas e nós, também, não encontramos abrigo e uma fuga da pesada realidade em antidepressivos, prozacs e ritalinas? Vinhos e cigarros?

Os seres humanos, por si só, constroem pontes com a loucura. Para ir e vir. E vamos e voltamos, com frequência. Então, o que nos diferencia daqueles que vivem, e vivem toda a sua vida, como doentes em manicômios, os loucos com certificado? O quê, além do sofrimento?


O que nos separa é que a nossa realidade foi normalizada por alguém. E aceitamos isso como se não fosse, da mesma forma, imaginária. Como se não estivéssemos perdidos, igualmente, num mar de simbolismos. Como se não houvesse nada de perversidade em nossos atos. Nem quando matamos a chance de viver daquele que têm simplesmente um olhar diferente.

1 de dez de 2013

Vento Solar

É tão mais fácil deixar ir do que segurar pela mão.
Sentir o vento e sentir saudade. E não falar nada.
Ver se perder sem se perder.
Cuidar de si antes.
Acender um cigarro.
E ver partir.
Sem responsabilidade.
Os ganhos, as perdas, as memórias, a dor...
O cigarro
E o girassol
E a morte de novo logo ali
A cor da camisa
O cheiro da camisa
O calor por trás da camisa.
A crueza da carne
A crueldade da carne.

Poderia ter esperado mais um pouco
Repousado um pouco mais a sua cabeça no meu colo
O seus olhos na minha cabeça
As suas mãos nas minhas coxas.
Ofegado um pouco mais no meu pescoço.

Não precisava ter tanta pressa para o momento de partir
Deixar o cais
Trocar de porto

Outro porto.
Outra poesia.
Algo novo.
Eu também gosto.

Mas ainda mais de ter ver.

Rima Rica, Frase Feita

Me encanta as vistas de cada janela, que nunca se repetem, em que sempre nos perdemos. E apavoram.

E o cigarro na janela antes da entrega... 

E o cigarro exausto na janela. 
A lembrança dos horrores, das marcas na pele, do gosto esquecido, do cheiro que nunca, nunca, nunca deixa de estar ali.

O cigarro amassado. O novo toque. Os novos olhares que invadem, invadem e intencionam e apavoram e salvam ao destruir. Os novos olhares...


mas sempre os olhos anteriores. Fixados. O toque. Nunca se repetiam, nem olhos, nem toques. Nem gemidos, nem suor. 
A morte nunca se repetia. A perdição. O escuro. A estupidez. 

E o cigarro era a cabeça naqueles olhos e sorrisos e aquela carne quente e escura anterior. 
Carne nua em outro. Carne nua de outro. Mas a cabeça se fixava na carne anterior. E nos olhos, sorrisos, palavras e gestos que nunca se repetiam. 

Era saudade. Mais pura falta. 


Mas o cigarro se apaga, outra vista de outra janela precisa ser descoberta. 
...outra carne há de ser tocada.

27 de nov de 2013

20/05/2013

      O projeto do qual eu faço parte dentro do SMIC não é o “Olhares”, no entanto, “olhar” é um termo que se aplica perfeitamente. Ao final de cada encontro, posso dizer que meu olhar sobre o mundo é outro. Um exemplo claro disso foi o fia em que discutimos sobre “Cosmovisões”, assunto pelo qual meu conhecimento conceitual era bastante superficial. Depois de ler o texto e discutir de forma crítica o assunto, trazendo elementos de vários âmbitos cotidianos, com os outros integrantes do grupo, eu pude enriquecer meu ponto de vista.
     Encontros como esse, transformam o nosso modo de olhar e nos colocar nos ambientes, nas relações, nos grupos. Transformam o nosso modo de vivenciar e interagir. Essas discussões realmente me atingem e, de certa forma, se refletem em todas as minhas ações.

19 de nov de 2013

Só as mães são felizes


Foi estranho o modo como tudo aconteceu. 

Entrou no quarto já sentindo uma respiração ofegante, viu a sua mãe sentada na cama, com os cabelos cobrindo metade do rosto, com aparente sujeira; olhando para os próprios pés; as mãos segurando firme a borda da cama; as roupas velhas, sujas e arregaçadas.... Nada muito compreensível.

Mas bastante comum. Trazendo lembranças quase infantis: a época que a mãe saia de seu quarto, com os cabelos, da mesma forma, oleosos escondendo os olhos que, ainda assim, visíveis eram arregalados, gritando por reclamações de qualquer banalidade cotidiana, como um pouco de açúcar no chão ou o barulho da televisão, e enchendo a filha de tapas.

Um ódio até então não compreendido.
Mas era o barulho, o pouco de sujeira, o mínimo de desorganização, ou seja, tudo que existe em uma casa dividida com um filho pequeno.
Era a existência de outra vida naquele ambiente que atordoava.

Como psicanalisar as marcas que restaram na menina, hoje, jovem? A própria relação com a mãe...

Mas de novo, à cena atual. Atual, mas eternamente carregada de memórias do passado, como é o presente, que nunca é atual sem a presença constante do passado e do próprio porvir.

A mãe levantou a cabeça e pediu que a filha saísse do seu quarto. Enfatizando que era o seu lugar. Talvez onde encontrasse a sua singularidade, onde não havia outro, não havia divisão nem interferência no ser que era si mesma. Onde não havia uma filha, invadindo-a há quase 19 anos, desde os seus 17.

De repente, ela se levantou da cama, olhou com muita raiva, falou em um tom um pouco mais alto e convicto: saia do MEU quarto!

Talvez, se ela tivesse uma arma, atiraria - a filha pensou.
Sim, atiraria.
Desfazeria a existência de algo. Começaria de novo sem aquilo que o atormenta.
Mas, sabe-se, sabemos, não é bem assim. O passado está sempre presente, inclusive no futuro.
Não há borrachas de memórias, de marcas.
E ainda existem objetos concretos, no mundo real.
O mundo da cabeça e o mundo real estão repletos de passados, que são presente e futuro.
Infelizmente nem uma arma a livraria, as livraria.

Mas também havia o amor, a gente sabe, bem sabem.

Em algum lugar fora daquele quarto que era o profundo de si mesmo, daquela mãe, perdida de sua singularidade.

18 de nov de 2013

Requisição

     Sem a repressão, o homem mata o homem. Sem a gramática, o homem comunica-se para que ninguém compreenda.
     Absurdo é pensar na possibilidade de vida anárquica, em que se mete pra fora tudo que está dentro sem nenhuma filtragem tradutora.
      Impossível é ser gente sem ter tudo em ordem mentalmente, porque para a socialização ser organizado na cabeça e nas ações é requisito e obrigatório, e para ser o requisito é a socialização.

16 de nov de 2013

Substância



Por substância entende-se aquilo que existe em si mesmo. O seu modo constitui-se por suas afecções, e apenas existe em outra coisa, em que também é concebido. A essência da substância é constituída por atributos, percebidos pelo intelecto. São esses atributos que exprimem uma essência eterna e infinita. No entanto, apenas Deus, a entidade absoluta e infinita, possui todos os atributos. (Spinoza, 2007)

1.1.        Substância, seus atributos e afecções

Como já dito, a essência substância é constituída por atributos que exprimem uma essência eterna e infinita, e o seu modo se constitui por suas afecções. Portanto, as diferenças entre duas substâncias são, justamente, os seus atributos e afetos. Essa distinção justifica-se por cada atributo produzir os seus modos de forma independente, sem qualquer relação causal entre eles. Apesar dessa ausência de causalidade, os atributos agem por uma mesma ordem, isto é, as causas não são as mesmas, mas estão conectadas, seguindo-se, então, uma relação paralela entre as coisas. (GLEIZER, M. A, 2005)
Os modos, que existem em outro e são concebidos por outra coisa, caracteriza-se por ser finito, sem disposição de autossuficiência e por sua dependência na relação existencial, substancial e causal com a substância e outras causas finitas. A finitude da qual dispões os modos e caracteriza a substância perde o seu caráter fechado quanto passa a se tratar da abertura ao seu processo de constituição. Esse processo, que é a própria produção da existência, faz parte “de um nexo infinito de causas finitas”, segundo Spinoza, em Gleizer, e os modos existem de forma necessária no entrelaçamento entre os mesmos, tendo a sua potência de ação nos encontros desse entrelaçamento.
A essência da substância forma-se por essa relação de atributos e afetos. Relação, essa, sem causalidade, mas entre as causas, que acaba por trazer sempre o movimento e transformação à substância – transformando-se a cada afeto, e fortalecendo a característica da distinção entre as substâncias.

1.2.        Vontade necessária

Contrariando as argumentações a favor do livre-arbítrio, a vontade é unicamente necessária. Partindo do pressuposto que a sua existência é determinada por uma causa, que é determinada por outra causa, e esta por outra, seguindo dessa forma infinitamente. (SPINOZA, 2007)
A vontade não se trata de uma ideia infinita de substância, mas da expressão de uma essência infinita pelo atributo dessa substância. Portanto, nessa parcela de expressão da substância, a vontade existe e opera por Deus.
Spinoza argumenta que os homens acreditam estar conscientes de suas vontades, por isso se creem livres. Porém, ao mesmo tempo, eles ignoram as causas dessas vontades, com isso, a própria ausência de livre-arbítrio.
Esses homens, ignorando as causas de suas vontades, seguem realizando ações para chegar em um fim que lhes parece útil. Nessa busca, encontram diversos meios e instrumentos naturais que lhes parecem existir para a sua utilização, fazendo-os pensar que realmente foram “feitos” para sua utilização. Por não terem produzidos esses meios e instrumentos, mas os encontrado à disposição, acreditam, então, terem sido feitos e dispostos por outrem. O que não consideram, de forma nenhuma, é que essas coisas existam de forma necessária, ou seja, tenham sido feitas por seu próprio valor (SPINOZA, 2007).

1.3.        Afetividade

A imaginação também é constantemente afetada pelos atributos, gerando modos de pensar sobre as coisas. São os afetos que dão às pessoas a noção de que as coisas foram feitas para elas, por exemplo. O entrelaçamento dos modos, a relação a partir do encontro entre as causas e os atributos das coisas (e outras pessoas), afetam de forma singular cada um.
Dessa teoria sobre afetividade, de Spinoza, saem diversas especulações e teorias sobre Psicologia Social. Em que os indivíduos estão nesse processo de constituição a partir dos atributos, que expressam, cada um, sua essência e dos afetos que surtem nos modos, incluindo das noções, deles.

Considerações Finais

Substância trata-se daquilo que é concebido por si mesmo, mas a sua essência é constituída por atributos e formas de relações entre eles e causas, atributos e afetos que se encontram nas coisas do mundo. Esses atributos são necessários, ou seja, não foram escolhidos, na verdade, constam na substância por uma relação infinita de causas. Os afetos que determinam a noção das coisas em um indivíduo também existe por uma relação com causas necessárias, ou seja, demonstra-se a inexistência do livre-arbítrio.

15 de nov de 2013

Psicologia de Grupos



Intervenção Psicossociológica

A intervenção Psicossociológica está pr’além de ser apenas um método de pesquisa, caracteriza-se também por ser uma prática social transformadora.
Fala-se de transformação porque tal prática trabalha com ações que não condizem com as tradicionais: troca, intervenção, mudança, elucidação, espontaneidade, coletividade e afeto.

Na nossa disciplina, Psicologia de Grupos, pude sentir essa intervenção sendo trabalhada. Por vários momentos o grupo foi afetado com a troca; intervenções de estudantes, professor e monitor; elucidação de questões; espontaneidade para romper com defesas bastante desenvolvidas por grande parte dos alunos; a coletividade, junto a um sentimento de grupo, com dinâmicas e terapias de grupos.
Essa aula trazia consigo o dever da exposição. Sem esta, restava apenas o sentimento de fracasso, pois diferente das aulas comuns, essa cadeira exigia abertura de todos no grupo que se formava naquela sala de aula, para a construção de algo em comum sobre o assunto em pauta – essa construção era coletiva, todos participavam em um processo ativo. Do contrário, surgia uma barreira que impedia a existência de um verdadeiro grupo, com afetos e percepções que perpassavam por todos. Havendo uma barreira, a aula não podia ir adiante. O silêncio era, então, uma forma de expressão preocupante.

Transformação e explicitação


 Como foi dito, a exposição, nas aulas, era fundamental para a construção do conhecimento e do próprio grupo. Essa exposição se dava através da linguagem e do diálogo. Um diálogo exposto que explicitasse, de forma espontânea, o que cada sujeito trazia consigo, em sua singularidade.
O professor (mediador) esforçava-se para que houvesse boas condições a esse diálogo. Esforçava-se, bastante, nem sempre obtendo os resultados que queria, pois a barreira já estava formada e fortalecida por outras experiências que afetaram esses alunos.
Essa barreira é responsável pelo sistema de defesas que existia, com intensidades diferentes, em cada um dos estudantes. Ela impedia a explicitação, a exposição, a espontaneidade, a troca e a experiência do afeto.
O silêncio era gritante. E gritava a necessidade de transformar esse sistema de defesas, para que os estudantes sentissem a intensidade da experiência que a palavração trazia, quando explicitada.

Por essas questões, que defendo que esse modo de pesquisa, que nessa cadeira se revelou como uma prática, é transformadora. À medida que as aulas passavam, sentíamos o sistema de defesas, de cada um de nós, alunos, enfranquecer. Estávamos cada vez mais abertos, expostos, explicitando de forma espontânea o modo como aquela experiência nos afetava.

Coletividade e Espontaneidade

O professor cumpriu o papel de mediador. A pesquisa, o diálogo e a transformação não eram provocados por ele, nem controladas. Ele se colocava como facilitador do diálogo entre o próprio grupo. Este é quem dava os rumos da conversa – ou a inexistência dela. O processo era completamente coletivo.
Um ponto incomum e essencial nesse trabalho, sobre o professor-facilitador, é que durante todo o tempo ele trabalhou em si mesmo a espontaneidade, deixando que os afetos do grupo o perpassassem e o transformassem, como os outros participantes.
A linguagem utilizada por ele era a mais espontânea possível - racional, sentimental, organizativa, dependia apenas do instante. Isso o aproximava bastante do grupo e desenvolvia a sensibilidade de todos.

8 de nov de 2013

Roda de Conversa sobre Políticas de Cultura para Juventude

     Na roda de conversa sobre políticas de cultura para juventude, em que o Nei D'ogum, grande referência na luta negra, periférica, homo/bi/transexual, abriu o debate com a importância do rompimento da hegemonia que rege a nossa cultura de hoje, possibilitando a inserção dessas referentes classes (negra, periférica, homo/bi/transexual) no âmbito de cultura de acesso amplo na cidade. 
    A conversa iniciou e perdurou por essa linha: a nossa necessidade de uma cultura mais viva, com ausência de preconceitos, em que podemos nos mexer, ver o outro se mexendo e aceitar as diferentes cores; os diferentes modos de criar, e toda a diversidade da qual dispomos - e como as políticas públicas são importantes para isso, para o direito ao acesso de tod@s a essa produção e demonstração, pois, hoje, o acesso à cultura de Santa Maria depende de grande quantidade de recursos financeiros, e, ainda assim, não vemos de toda diversidade que poderíamos. 

   A cidade de Santa Maria é conhecida como cidade cultura - com mérito, pois muita cultura é produzida nessa cidade. No entanto, há um verdadeiro vazio no que se trata de meios e instrumentos para a produção e demonstração dessa cultura - o que nos garante o estatuto da juventude de 2013.

    Mais do que apenas reivindicar o direito a cultura, é necessário ter espaços públicos como meios para a produção da mesma.  Reivindicamos, portanto, outra coisa que é óbvia: espaço, para lazer, para esporte, para cultura - espaço para simplesmente ser de forma social e criativa.
     Vemos uma leva desses espaços públicos e  nossos sendo fechados na cidade, por motivos ditos estruturais (mas que são também políticos), e uma preocupação mínima, pra não dizer nula, do poder público quanto a abertura de outros, principalmente para os jovens.  Estes ficam sem os meios que, como foi dito, são garantidos por lei, para a sua produção artística e integração.

     Voltando à roda de conversa, os presentes foram bastante amplos em suas contribuições. Falou-se do picho, sua representação social e o que realmente significa sob o olhar e realidade de quem o faz. O picho é mais do que uma forma de transgressão entre os jovens, é uma forma de manifestação; de arte; do sujeito se fazer ver e "ouvir", e, principalmente, de ocupar um lugar que era para ser dele - mas que, de alguma forma injusta, não é. 
     Outro assunto bastante tratado nesse dia, foi o da desmilitarização. Tivemos na conversa um ex-militar que colocou a importância de termos, por exemplo, transexuais dentre esses tipos de agentes públicos para modificar o olhar sobre os mesmos. 

     Pode-se ver, diante de tantos temas debatidos em uma conversa sobre políticas de cultura para juventude e espaços públicos, que o problema social, como todos, não existe apenas em si mesmo. Mas existe em uma rede de problemas provocados por um sistema falho quanto às demandas reais da população.

28 de out de 2013

Método analisado de Pesquisa




Trabalho: A Aplicação do Método Pedagógico do Instituto Josué de Castro no X Estágio Interdisciplinar de Vivência de Santa Maria
 



Para realização desse trabalho, analisou-se os materiais audiovisuais produzidos durante os estágio e também os relatos das avaliações coletivas diárias realizadas no final de cada dia do estágio. Assim, foi possível analisar as percepções dos estagiários, da Comissão Político-Pedagógica e a aplicação do método do Instituto Educação Josué de Castro da rotina do EIV e na utilização dos Grupos de Discussão (GDs).

Os próprios autores do trabalho foram estagiários do projeto usado na pesquisa. A metodologia usada para a análise qualitativa pós-vivência foi a videográfica, com os vídeos produzidos no estágio; bibliográfica, com livros e artigos utilizados sobre o tema do Método Pedagógico do Instituto Josué de Castro; relatos de experiência, a partir de entrevistas e análises de diários de campos dos viventes.
Esse trabalho também pode ser caracterizado como resultado de uma pesquisa-ação, pois, produzido pelas experiências dos próprios estagiários, que trabalharam no método pedagógico apresentado, visando participação, colaboração à transformação social e impulso democrático.


 
Pesquisa-ação é uma forma de investigação baseada em uma autorreflexão coletiva empreendida pelos participantes de um grupo social de maneira a melhorar a racionalidade e a justiça de suas próprias práticas sociais e educacionais, como também o seu entendimento dessas práticas e de situações onde essas práticas acontecem. A abordagem é de uma pesquisa-ação apenas quando ela é colaborativa... (KEMMIS e MC TAGGART,1988, apud Elia e Sampaio, 2001, p.248)