12 de jul de 2012

Primavera

     A sua mão esquerda se ocupava com um cigarro, enquanto a direita servia como suporte para a pequena moça deitada em seu peito. A sua mente perdia-se em devaneios enquanto a observava dormir deliciosamente.
     O modo como a menina dos cabelos de caracóis batera em sua porta na tarde anterior: segurando um girassol colhido, dizendo que a flor lembrava o cabelo dele, que ela veio apenas para dizer isso, mas ficaria um pouco mais se ele pedisse. Disse tudo isso com seus olhos negros penetrando profundamente em seus olhos azuis. Essas atitudes tiravam qualquer possibilidade de ação que ele poderia ousar. Sem dizer nada, abriu o sorriso e a porta atrás de si. Queria aquela menina junto de si como queria a própria vida.
     Ela estava em um estado de espírito perfeitamente alegre e saudável - dormia e acordava nos horários certos; não fumava nem bebia café em excesso; estava vivendo mais do que lendo; sorrindo a todo instante; aproveitava cada respiração e celebrava a vida -  o avesso de pouco tempo atrás. Ele se assustava com isso. Acostumara-se com a menina taciturna, que ia à sua casa como quem vai à uma biblioteca - bebia café ou vinho, fumava, lia e ia embora - quase como se não desse pela sua presença. No dia anterior, em que batera na porta de sua casa, ela não o deixou concentrar-se em mais nada. O beijava a todo instante. Tomou uma banho que despertou um aroma agradável por todo quarto e pediu um camiseta emprestada para dormir. Resolvera passar a noite ali como se houvesse se decidido por algo trivial. Mas estava contente.
     A sua garota, que outrora vivia em um inverno interno, estava em plena primavera. Fases, essas, que ela vivia de forma tão intensa que outras pessoas achariam difícil de ceder e conviver. Todavia, ele se fascinava... ao mesmo tempo que temia.
     Ele analisava o seu semblante quase sorrindo em meio aos seus sonhos. E temia tanta alegria. Temia porque sabia que em estado total de felicidade - e longe de sua tristeza intensa e frieza da alma - ela já não precisava de um ponto de repouso; de segurança. Apesar de sentir-se extremamente feliz por significar um porto seguro a ela e saber que era o único a quem ela permitia dividir-se em sua solidão, ele sabia que ela já não precisaria de tal conforto. Ela estava em sua primavera. Estava livre e poderia seguir adiante. Desvendar o mundo. Ele sabia que a última coisa de que ela necessitava no momento era algo ou alguém para sentir-se presa...
     ...O que ele não sabia era que, além de um ponto de repouso e segurança, ele significava uma chance de felicidade pura para ela. Ele fora o escolhido, a exceção, por todas as estações.

Um comentário:

  1. Muito bacana, gostei e ainda deu pra imaginar a cena, sentir a alegria do personagem ao ver a garota... Sentir algo assim é muito bom, belo texto!!

    http://vivertrechosdavida.blogspot.com.br/

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