31 de jul de 2012

Ponte

     - Apenas a mandíbula inferior dele se abre em um ângulo de 45º; a sua pele contém espécies de "dentes", as escamas placoides, e essas Ampolas de Lorenzini... o tubarão é realmente uma máquina mortífera...
     - Filho, você não gostaria sair um pouco com seus amigos hoje? - interrompeu a mãe abrindo as cortinas do quarto de Humberto e trocando os seus lençóis. Ela estava aflita com os novos hábitos de seu filho. - Está estudando tanto. Não sai da frente desse computador, apenas para ir à biblioteca. - Ao ver o rosto de espanto que ele fez com seu comentário, complementou - isso é bom, querido, mas as suas férias já estão no fim e você não aproveitou nenhum dia de sol.
     O filho, Humberto, jamais entenderia a falta de compreensão da mãe quanto às suas prioridades. Era tão certo para ele o gosto pelo estudo quanto o gosto por futebol presente nos seus amigos. A mãe olhava carinhosamente a feição de seu menino; os óculos, outrora ausentes, deixaram marcas em seu rosto delicado, marcas pesadas demais para tenra idade do garoto. A mãe se preocupava, é claro, em que lugar fora parar aquele rapazinho que passava o dia a brincar com os outros de sua idade? Mas a mãe se orgulhava também. Longe dele, ela se orgulhava. Perto, era preocupante. Mas longe... longe podia se dar ao luxo de te um orgulho quase doentio. O seu filho, com 11 anos, discutia com o seu tio, professor de física da Universidade de Yale, sobre a descoberta da velocidade que os neutrinos ultrapassaram... seria a da luz? Nem ela sabia ao certo. Mas seu filho sabia. Ele acompanhara o processo antes da notícia ser divulgada pela mídia.
     No entanto, ali, olhando para as profundas olheiras de sua criança, ela queria chorar - sentia o orgulho só de longe, perto era preocupante. - Eu fiz bolo de banana com cauda de caramelo. Aquele que você me ensinou. Quer que eu lhe traga um pedaço?- ela perguntou acariciando os seus cabelos finos e loiros.
     - Obrigado, mãe, mas eu mesmo desço e pego. Vou sair respirar um pouco hoje. Vou ligar para o Duca, pedir pra que traga o violão.
     Ela sorriu para si mesma. Ele traria um amigo para casa, coisa que não fazia há tempos. Ela faria chocolate quente para os meninos. E fingiria ter uma criança normal em casa. Fingiria ser uma mãe normal. Por um dia. Como todo mundo. Mandaria ele tomar banho no entardecer e deitaria com a sensação de dever cumprido. Ao menos por um dia.

28 de jul de 2012

Câncer no Intestino espalha-se e atinge o Pulmão

     Sequer digerimos direito a notícia e choramos. Já sabemos.

     Perder alguém devido a um câncer é a pior forma de perder alguém. Ver o corpo de uma pessoa que você ama desfalecer aos poucos e não poder fazer nada. E ter de ser forte.
     O sofrimento explícito na face da pessoa que sabe que morre dia após dias. Ter de segurar a sua mão, não chorar e demonstrar força.
     Força. Força. Acorda. Levanta. Vive. Reage. Não chore.

     Caroline afundou-se no travesseiro depois de duas noites desperta, completamente exausta, mas, ainda, sem conseguir dormir. A sua mãe acabara de tomar morfina, novamente, para conseguir suportar a dor. A dor constante.
     Ela jamais compreenderia por que tal fatalidade acontecera justamente com ela. Sabia que ninguém decidira por isso; que o acaso pode ser cruel quando menos esperamos. Mas quando se vive o inferno sempre queremos um porquê que, no fundo, sabemos ser inexistente. Não há motivos, simplesmente aconteceu. Não é que tivesse de acontecer, mas aconteceu. Aconteceu. Aconteceu. Aconteceu.............
      Não havia causa. Não havia conforto. Não havia nada além da falta de motivos para a morte e o sofrimento de sua mãe. E isso a atormentava mais do que qualquer outra coisa. Mais do que a dor. Mais do que o fim. A falta de motivos é que era o diabo.

     Caroline lavou o rosto. Tentou esconder o máximo que pôde o rosto inchado de tanto chorar. Trocou a expressão preocupada e sofrida por algo esperançoso e espirituoso - ou o mais próximo disso. E entrou no quarto de sua mãe com uma sopa absurdamente leve e outra dose de morfina. Afagou com tamanha delicadeza os raros fios loiros de cabelo que restaram na cabeça de sua mãe depois das diversas quimioterapias, que essa não chegou a sentir o toque. Disse que tudo passaria, que o tempo daria um jeito, as coisas ficariam bem de novo. A face tão cansada da senhora que há muito não sentia o próprio corpo esboçou o que pareceu muito com o sorriso, que foi reforçado pelo brilho nos olhos. Sim, ela pensou, tudo vai ficar bem. O tempo sempre age da melhor forma. Morreremos, enfim, todos.

     Morremos, enfim.
     E apenas sofre quem continua vivo.
     Aquele que morre não sofrerá nunca mais.
     A quietude foi encontrada, finalmente. E tudo é apenas paz.
     Mas quem ainda vive, não, quem ainda vive nunca saberá disso.

26 de jul de 2012

Os Seres Humanos que (quase) viraram Máquinas



     Não há quem nasça com a sorte de escolher a sociedade na qual crescerá e construirá seus princípios e modo de vida. Todo o âmbito em que vivemos desde o início da nossa existência exerce influências em nossa aquisição de conhecimento.  Na verdade, impõe sobre nós o que devemos saber; como agir e pensar. Pode-se dizer que o ambiente em que o indivíduo vive molda-o completamente.
     Os ambientes sociais que imperam no ocidente e no oriente da Terra são, em sua quase totalidade, repletos de disputas ideológicas por poder. Essas disputas criam populações aceleradas e superinformadas com as mesmas ideias. O tempo de vida é voltado a um consumo infindável, a uma evolução científica e mental sem pausa para questionamentos e reflexões, o que poderia retardar o processo evolutivo.

     Não se entende poder apenas como aquele que se dá em grandes instituições, em cada classe há poderes específicos. Uma família produz e consume o máximo que consegue, e seu crescimento significa ultrapassar o seu limite de consumo, e para isso é necessário, do mesmo modo, que se produza mais.  O mesmo serve para um indivíduo e uma empresa. Dessa forma, todos juntos movem a máquina que é um país.
     Esse sistema de produção e consumo exacerbados é o principal gerador da angústia que envolve a maioria dos homens, atualmente.

     Assim como a angústia, o
conformismo está presente na vida humana. Não podendo parar o ritmo de produção para que se acompanhe as novidades sobrepondo-se umas às outras, o indivíduo vive conformado em sua cegueira. Ele vive por que os outros também vivem e como os outros vivem. Mas em si mesmo não vive de fato.
     Chama-se, também, comodismo, pois viver segundo as normas impostas por outros é muito mais fácil do que impor-se e assumir o próprio modo de vida. Além do mais, depois de tanto tempo passado, mudar leva em conta abrir mão de diversos ideais prontos e carregados consigo por anos. Ir contra a maioria pode dar errado, além de todas as complicações que podem surgir ao enfrentar o desconhecido. Então, é muito cômodo seguir a marcha da massa e aceitar as grandes verdades sem contestar.

     Contudo, há fatores externos que podem ocasionar o rompimento com a rotina e certa interiorização que nos permite ver além do superficial diário. Esses fatores podem ser uma pessoa, uma situação de escolha importante, uma perda, uma mudança drástica, etc., ou seja, qualquer fato que nos exija maior concentração introspectiva.

     Em momentos de catástrofes pessoais passamos a mudar o modo como enxergamos a nossa vida. Então, o que foi, por tanto tempo, tão importante para nós pode perder completamente o sentido. Como descobrir a banalidade de um cotidiano capitalista e constantemente atualizado, no qual vivemos toda nossa vida de uma forma automática, e no fim percebermos que algo está errado conosco. Algo intrínseco, profundo e inexplicável foi-nos roubado.
     Todas as reflexões que sucedem tal fato causam sofrimento e incompreensão.  Porém, verdades podem ser reveladas a nós em instantes de crise. Nessas situações pode ser que você desperte, e entenda que há algo muito maior dentro de si; pode ser que compreenda a amplitude de sua vida... Ou pode ser que você caia em seu abismo interior e, sem ajuda, não consiga sair.  
 
     A águia, do texto “A Águia que (quase) virou Galinha” de Rubem Alves, passou muito tempo acreditando ser uma galinha, e, talvez, jamais descobrisse o que realmente era sem a determinação e falta de compaixão do homem ao jogá-la no abismo. Talvez, jamais recordasse dos tempos em que a sua vida era realmente sua, em toda a sua totalidade; que o mundo era muito mais vasto do que o simples galinheiro em que vivera toda a sua vida até então, e que podia voar para onde quisesse.

20 de jul de 2012

Social Intrínseco

"I am he
As you are he
As you are me
And we are all together!"

(The Beatles - I am the Walrus)



Considero meus amigos todos aqueles que me roubam de meu individualismo; que me fazem perceber que pertenço a um grupo - dos humanos, que seja; que me lembram que ser só é diferente de estar só, ser só talvez seja uma ilusão... Já que estamos todos juntos nessa - sem saber e sem querer, influeciando uns aos outros, o tempo todo, sem perceber... É a velha polêmica do 'Individual x Social'.

Eu não sei muito bem o que eu sou, mas hoje acredito que vocês, meu amigos, fazem parte disso - seja lá o que isso for!

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E com tudo isso, eu só queria dizer que valorizo cada pessoa que conheci até hoje. E que compartilhar com vocês um pedaço de tempo e espaço nesse universo foi a melhor coisa que me aconteceu.

(Ah, eu deveria ter resumido em um simples: Feliz dia do Amigo)

12 de jul de 2012

Primavera

     A sua mão esquerda se ocupava com um cigarro, enquanto a direita servia como suporte para a pequena moça deitada em seu peito. A sua mente perdia-se em devaneios enquanto a observava dormir deliciosamente.
     O modo como a menina dos cabelos de caracóis batera em sua porta na tarde anterior: segurando um girassol colhido, dizendo que a flor lembrava o cabelo dele, que ela veio apenas para dizer isso, mas ficaria um pouco mais se ele pedisse. Disse tudo isso com seus olhos negros penetrando profundamente em seus olhos azuis. Essas atitudes tiravam qualquer possibilidade de ação que ele poderia ousar. Sem dizer nada, abriu o sorriso e a porta atrás de si. Queria aquela menina junto de si como queria a própria vida.
     Ela estava em um estado de espírito perfeitamente alegre e saudável - dormia e acordava nos horários certos; não fumava nem bebia café em excesso; estava vivendo mais do que lendo; sorrindo a todo instante; aproveitava cada respiração e celebrava a vida -  o avesso de pouco tempo atrás. Ele se assustava com isso. Acostumara-se com a menina taciturna, que ia à sua casa como quem vai à uma biblioteca - bebia café ou vinho, fumava, lia e ia embora - quase como se não desse pela sua presença. No dia anterior, em que batera na porta de sua casa, ela não o deixou concentrar-se em mais nada. O beijava a todo instante. Tomou uma banho que despertou um aroma agradável por todo quarto e pediu um camiseta emprestada para dormir. Resolvera passar a noite ali como se houvesse se decidido por algo trivial. Mas estava contente.
     A sua garota, que outrora vivia em um inverno interno, estava em plena primavera. Fases, essas, que ela vivia de forma tão intensa que outras pessoas achariam difícil de ceder e conviver. Todavia, ele se fascinava... ao mesmo tempo que temia.
     Ele analisava o seu semblante quase sorrindo em meio aos seus sonhos. E temia tanta alegria. Temia porque sabia que em estado total de felicidade - e longe de sua tristeza intensa e frieza da alma - ela já não precisava de um ponto de repouso; de segurança. Apesar de sentir-se extremamente feliz por significar um porto seguro a ela e saber que era o único a quem ela permitia dividir-se em sua solidão, ele sabia que ela já não precisaria de tal conforto. Ela estava em sua primavera. Estava livre e poderia seguir adiante. Desvendar o mundo. Ele sabia que a última coisa de que ela necessitava no momento era algo ou alguém para sentir-se presa...
     ...O que ele não sabia era que, além de um ponto de repouso e segurança, ele significava uma chance de felicidade pura para ela. Ele fora o escolhido, a exceção, por todas as estações.

8 de jul de 2012

O Desequilíbrio da Imprensa

     A imprensa desenvolve um papel crucial na sociedade, pois é o meio que interliga os representantes aos representados. Por isso, é extremamente importante que haja equilíbrio e veracidade nos fatos apresentados, todavia, não ocorre desse modo.
    Os representantes políticos têm uma forte aliança com a mídia, que se dá por uma espécie de monetarismo. Portanto, o controle mental da sociedade pertence a eles. Aquilo que é propagado, através da televisão, torna-se  lei aqui no Brasil. Por esse fato, os políticos são sempre eleitos pela maior e melhor propaganda.
     Onde fica o equilíbrio nesse jogo? Certamente, não há. É um jogo de tendências: eles tendem a eleger aquele, rechaçar o outro e sedar a população com futilidades e sensacionalismos; mostrar as esmolas oferecidas pelos políticos como presentes; a alegria carnavalesca; fazer da ignorância motivo de felicidade. Os jornalistas, que deveriam fazer a ligação direta do povo ao governo, corrompem-se. É o grande jogo do poder, em que os vencedores são a elite aliada à mídia.
     A ordem trabalhadora, apesar de ser a maioria, é fraca para combater a elite dominadora, pois não possui a mais poderosa das armas: o conhecimento. Este é o principal fator para adquirir um bom senso crítico e livrar-se de imposições midiáticas.