22 de jun de 2012

O Ano da Morte do Desassossego

     A cama parecia mover-se no quarto. O teto pendia em um ângulo absurdo. Dr. Reis deveria estar enlouquecendo de vez. Pensava nisso quando se deu por conta de que eram apenas os efeitos do remédio. Infelizmente estava em perfeita ordem mental. A aposentadoria chegou mais rápido do que previra. Os anos como professor foram, sem evidência de dúvidas, a realização de sua vida. A vida que escolhera não fazia com que ele ousasse arrepender-se de absolutamente nada. No entanto, no vazio da solidão do quarto de hotel que fizera como lar nos últimos quatro anos em que permanecera na vigésima oitava cidade de sua vida, pensava no tão amedrontador devir de sua fatal velhice. Adiara o máximo que pôde o fim de sua carreira, mas o fato de não conseguir falar em bom tom por mais de dez minutos em frente a uma turma de vinte alunos devido a sua doença cardíaca excluiu qualquer alternativa que não o levasse a uma vida sem a agitação do mundo acadêmico, o único mundo no qual se permitira viver em seus 74 anos de idade.
    O homem que fora era perfeitamente habituado à solidão. Os romances foram sempre fugazes e deixados em segundo plano. Sua vida era a sua sala de estudos com suas pinturas, seu piano e seus alunos. Formara-se doutor mais cedo que a maioria dos professores de filosofia. Sem jamais se demonstrar superior perante aos outros. Agora, sem lamentar-se de seu passado, temia o futuro. Não ficara doido como a maioria dos pensadores solitários que admirava. Tinha a cabeça lúcida como quando completara trinta anos. Não havia nada no mundo por qual lamentasse tanto. As memórias jamais o deixariam, junto com a inquietude que quase não cabia dentro de si. A sua eterna fatalidade. O seu transtorno constante. Nem na calma da velhice teria paz. O sossego temido na juventude, era desejado neste momento de falência do corpo. Porém, não o haveria nunca. Se, ao menos, tivesse um ou dois netos a levar ao teatro, um filho para deixar algum bem de importância e ouvir, em retorno, votos de saúde ou uma mulher, que seja, para afagar-lhe a cabeça dizendo que não tivesse medo do que há de vir. O medo do que há de vir, pela primeira vez, era mais forte do que a excitação do novo, tão habitual e desejado em sua juventude. Talvez por que já não houvesse algo novo, bem o sabia. O novo ficara eternamente para trás. A sua vida teria de ter valido a pena, pois agora não existia o recomeço. Nunca mais renasceria a cada instante. Talvez pudesse ter sido diferente, mais criativa, mais bonita... todavia, não havia tempo de mudanças.
     Dr. Reis tentou fugir de seus pensamentos por um segundo. O pessimismo é o diabo, sabe-o muito bem. Lembrou-se dos eternos agradecimentos de seus alunos; da admiração de outros professores; dos livros publicados; dos quadros expostos em vários países; de seu nome aclamado por tantos estudiosos, e das homenagens que tão logo receberia... não, homenagens são coisas que precedem a morte, sabia disso também.
     Não conseguia dormir e não reclamava. Um dia seria inevitável que dormisse e não acordasse, tinha medo. Medo, palavra insana. Se, por um minuto, enlouquecesse-se todo... Jogaria a sanidade pela janela se pudesse. Seria feliz e sossegado por uma única vez. Mas não, a lucidez constante estava ali. As cortinas, olhava, estava ali. A porta, ali. A própria imagem no espelho, mais do que nunca, ali estava a lucidez.
     Levantou-se, aproximou-se do espelho, olhou na profundidade de sua face como se fosse de outra pessoa. Nunca vira imagem tão lúcida. Mas algo calara a tristeza de sua alma: os olhos. Os olhos eram tão jovens quanto os de uma criança. Neles não havia rugas ou sinais de cansaço. As duas esferas úmidas eram apenas vida. Havia esperança de loucura naquele ponto brilhante. Então, voltou a deitar-se com alguma paz. Em algum momento o sono ou a morte o buscariam. Seria, enfim, o sossego.

Um comentário:

  1. A tão temida velhice. Retrato de uma pessoa lúcida, com limitações físicas ocasionadas pela velhice, o medo, o olhar para o passado...

    Conto muito bem escrito. Você tem talento.

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