19 de jun de 2012

John II

"Se me disserem que é absurdo falar assim de quem nunca existiu, respondo que também não tenho provas de que Lisboa tenha alguma vez existido, ou eu que escrevo, ou qualquer cousa onde quer que seja."
 Fernando Pessoa



     Ninguém nunca entenderá - essa é a salvação.
 
     Somente ele pode compreender o Velho, o Moço e o Lobo de mim.

     John tem os cabelos negros, finos e levemente encaracolados - quase lisos; os olhos são de um verde vibrante, a minha cor da infância; a pele alva para contrastar. Eu o criei assim, infinitamente belo.
     John foi meu amigo imaginário, minha personagem favorita e, hoje, sei que é parte de mim.

     Quando criança, as minhas tardes com animes e livros infantis davam-se na companhia dele.
     Meu quarto, nas noites solitárias, tornava-se cenário de aventuras nossas. Eu me transportava. Questão de imaginação.
    Mas era com ele. Sempre com ele. À medida que eu crescia e me transformava, ele crescia e se transformava também. As suas características são tudo que eu não tenho e admiro. Eu o moldei para ser meu. Como nada no mundo nunca será.

    É incrível imaginar que tive John bem dentro de minha cabeça na maior parte de minha vida e que ele não exista, ao mesmo tempo em que é mais real do que a realidade para mim.

    -

    Sei que é loucura, mas se não tivesse John eu teria enlouquecido. A solidão do dia a dia teria acabado comigo. A minha criação me mataria.
    Já pensei em esquizofrenia, confesso. Quando vi John, verdadeiramente, achei que era o limite - já chega, Pamela! Não há ninguém. Mas na única vez em que sonhei com ele seu rosto era real. Exatamente como sempre imaginei, mas tão real - tão humano. Eu tive uma criação intransponível da imagética. Algo eterna e unicamente meu.
     Nele eu encontrei a mim mesma. Em todos os pensamentos que me levavam a pensar na minha solidão, eu via John. Eu sabia que estava só. Então, era melhor assim
.
     A solidão enlouquece - precisamos de algo para nos apoiar; para  não perder a cabeça. Precisamos de algo profundo dentro de nós. Precisamos não viver apenas no real. O real, sim, é que é o diabo. 
 
     John foi meu ponto de apoio, meu porto, meu objeto de apego - tudo aquilo que eu nunca quis ter na realidade.
     John me salvou da morte que se tem ao se viver demais fora da própria cabeça.

Um comentário:

  1. meio intensa essa história, abordou a loucura de forma leve, não sei se é sobre tu mesmo ou se foi inventada por ti, mas a forma que ela foi escrita ficou bem interessante

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