13 de jun de 2012

Biografando

     Pintava sempre as unhas com tinta preta e fascinava-se por horas admirando diminuir a não-delicadeza de suas mãos.
     Não se sabe o que ao certo, mas algo com extrema força do passado a afetava tão sobrenatural e obscuramente que tornava visível em seu mecanismo toda uma aflição impossível. Os olhos eram abalados.
     Caminhar no centro da cidade fazia com que a moça estranha compreendesse-se melhor na solidão que preenchia sempre, sempre, sempre o vazio murcho e abismal. E nunca se soube como, o diabo, ela conseguia ser tão triste, parecia esforçar-se a cada dia. Deixar a alegria voltar, como outrora, seria um pecado por demais inconsequente. E num olhar-se para dentro, escandalizava-se: via coisas que, ao mesmo tempo, traziam segurança e pena de que os outros não enxergassem também. E havia impunilidade no olhar de quem nunca julga para não se assustar, mas se analisava na outra face com crueldade e tristeza de si e da própria diferença.

Um comentário:

  1. É complicado mesmo, as vezes a solidão é o único refugio de muitas pessoas.
    Tem momentos na nossa vida, que não sabemos exatamente o que fazer dela.
    Batemos a cabeça uma, duas, dez vezes e nada.
    Até que a indiferença acaba nos pegando de surpresa, e esse é a pior parte.
    Não sei bem se entendi seu texto, por estar extremamente enigmático.
    Mas acho que no fim, a única pessoa que nos conhece de verdade, somos nós mesmos.
    Ótimo texto como sempre.

    ResponderExcluir