6 de abr de 2012

Lembranças Inventadas

  - Eu tenho total controle agora! - dizia Roy divertido, enquanto Charlie e Luccas caçoavam dele.
  - Sabe Muito bem que a Paty do último ano jamais olharia pra você, não entendo como pode acreditar nesse absurdo... - Charlie falava incrédulo, sem conseguir parar, como sempre.
  - Vão ver que ela está caidinha pelo papai aq...
  Os garotos calaram-se com o barulho estridente das rodas do portão enferrujado da garagem que se abria. Era John entrando com seu ar solene, olhando as expressões de cada um de seus amigos, que esperavam ansiosos a desculpa para o atraso de quase uma hora ao encontro que o próprio havia marcado em sua própria casa. No entanto, John permaneceu em silêncio, caminhou pela garagem (um pequeno espaço em que eles se aproveitaram para guardar seus instrumentos e usar como um local de ensaio), por fim, sentou-se sob a bateria de Roy. Os três que aguardavam olhavam-no atônitos.
  - Bom, rapazes... enfim, é o fim de nossos problemas, encontrei o quinto elemento da banda - ao dizer isto, os rostos dos garotos iluminaram-se de uma só vez, como se um raio invadisse o apertado lugar escuro.
  - Mas que beleza, John, e quando vamos conhecer o cara? - perguntou Charlie como porta-voz.
  - Bom, Charlie, não é bem um cara - John apressou-se em corrigi-lo com um sorriso enigmático, e continuou sem nenhum sinal de constrangimento ao perceber a incredulidade que apontavam nas faces dos três patetas, assim ele pensava neles nesse momento. Por isso, disse - seus patetas, por que me olham dessa forma? parece até que não gostaram.
  - Uma garota... - refletia, então, Roy embasbacado, imaginando mil coisas que nada tinham a ver com o assunto ali tratado.
  - Pare de pensar bobagens, seu idiota - disse John, adivinhando os pensamentos do outro.
  - John, UMa garota? - Charlie perguntou com a voz esganiçada por controlar o grito. John concordou rapidamente num único movimento da cabeça. - Você está maluco?  Acha que tocamos ópera?
  Luccas, ao ver que Charlie perdia o controle de si, intrometeu-se para comunicar-se melhor com John - olha, o que o Charlie está querendo dizer - ao dizer isso lançou um olhar ao Charlie que dizia: cale-a-sua-boca-que-agora-eu-falo - é que a nossa banda é pesada, cara, é thrash, não estamos acostumados a ver facilmente guitarristas ou vocais femininas do gênero.
  - E vocês julgam sem conhecer a garota? - disse John em tom decepcionado. - Vou lhes dizer, não a ouvi cantar, mas posso garantir que não existe guitarrista melhor. E eu compus algumas letras com ela, nunca tive tamanha ligação com uma parceria... gostaria pelo menos que a conhecessem - e de ver vocês retirando tudo o que acabaram de dizer, acrescentou em pensamento. Nisso, Anna entrou pela fresta do portão que John deixara aberta, com seus cabelos longos, sua blusinha sem mangas preta, jeans e all star. Todos a olharam fascinados, não pela beleza feminina em si, mas por algo estranho que sentiram ao mesmo tempo: uma sensação de que era realmente o que faltava à banda e a eles.
  Ninguém disse mais nada, Anna pegou a guitarra que John acabara de arrumar no amplificador e tocou alguns acordes, nada muito exagerado, o suficiente para que os quatro caíssem em um salva de palmas desmedida, com assobios e tudo.
  - Obrigada - Anna limitou-se a agradecer, tirando pela primeira vez a seriedade de seu rosto e esboçando o melhor sorriso que tinha, agradando a todos.
  - E então, muito ruim? - perguntou John irônico.
  - Eu não sei, não, cara... - começou Charlie.
  - É realmente o que faltava ao grupo - proferiu Roy, interrompendo as possíveis reclamações de Charlie.
  Luccas, sem desviar-se de seu jeito introvertido, apenas assentiu com a cabeça, sorrindo e pensando que Roy estava certo, a feminilidade misturada ao estilo grunge da garota era encantadora e surpreendente. Charlie entrou em coesão com as outras opiniões ao ver que seus argumentos não tinham cabimento.

  Anna, vendo que todos concordaram com a sua inclusão no grupo, pensou rapidamente em algo para dizer evitando o silêncio constrangedor que seguiria - John prometeu que me ajudaria a tocar melhor com o tempo, me ensinaria algumas coisas e... - os garotos não se aguentaram e caíram na gargalhada ao ouvir isso. Anna olhava-os sem compreender.
  - Acho que terá de ser o contrário - disse Charlie lançando um olhar cômico ao John.
  John apenas concordou e sorriu, prevendo a perfeição que seguiria daí em diante.

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  Exatos 10 anos depois, aniversário da banda, John lembrava-se do início, das primeiras brigas, das investidas sem sucesso de Roy, de como quase tudo foi por água abaixo e, principalmente, de como ele e Anna seguraram firme por toda a banda.
  Anna foi a melhor companheira que ele teve na vida, as músicas de mais sucesso foram feitas pelos dois. Ele liderava o grupo através dos conselhos dela. Sem contar a amizade inimaginável que os dois construíram. Os outros da banda admiravam e invejavam a relação deles. Anna foi a melhor coisa que aconteceu na vida de John e vice-versa. E os dois foram a melhor coisa que aconteceu ao grupo, Charlie, Luccas e Roy assumiam isto.
  John e Anna dividiam os vocais principais e guitarras, um dueto invejável. Tudo que faziam juntos era invejável.

  John sorria quando despertou de seus devaneios com os gritos habituais de Roy, estavam todos ansiosos como sempre ficavam antes de um show, cada um a seu modo: Roy brincava com as baquetas falando besteiras com Charlie, que era tão animado quanto Roy, porém, um pouquinho mais discreto; Luccas lia um livro que AnnaAnna, por fim, estava sentada ao lado de John, fazendo o mesmo que ele, observando e refletindo, mas sem perceber a intensidade que movia a ambos por um mesmo caminho.

2 comentários:

  1. devia ser escritora e tentar escrever um livro, teus textos são grandes e bons

    http://rocknrollpost.blogspot.com.br/

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  2. Pois é, nunca tive uma experiência de me apaixonar por alguém com o tempo, construindo as bases disso, sempre me entreguei a tentação do começo... essa estória é de certo, invejável, sendo assim virei visitar teu blog mais vezes... um abraço, J.

    Ps: A vocalista do “Otep”, do “The distillers”, do “Nightwish (a antiga e a atual), do “Guano Apes” do “After Forever”, “Paramore” são grandes exemplos de mulheres de destaque no mundo do rock e metal, bem como, a Janis Joplin a Lana Del Rey e a Madonna, sou fã de todas elas, mais ainda de uma ex namorada que tive que toca guitarra e canta muito bem... rs. Curti de verdade o teu blog, são poucos os que eu mantenho minhas visitas, continue escrevendo... +).

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