4 de abr de 2012

Inverno

  O caso é que, bem, ela não gosta de dormir acompanhada. Queria envolvê-la em sua tristeza, mas não há alternativas. Dorme sozinha todas as noites, mesmo estando comigo. As pessoas perguntam-se como eu aguento tanta distância. É que acredito amar a sua solidão. O fato de vê-la tão distante em seus devaneios, em sua eterna viagem dentro de si, assisti-la, assim, faz com que todo o meu corpo tenha espasmos de felicidade.
  Eu insisto, claro, e ela vem. Ela sempre vem sem nunca vir de fato. Mas vem. Depois de eu lhe dar inumeráveis motivos, dizer que passarei a noite toda sem sair de frente ao computador, envolvido em trabalhos atrasados, e que eu só preciso de sua presença para inspiração e me manter de pé, e que não perturbarei a sua preciosa paz. E que eu preciso tanto... Depois de dizer tantas coisas ela aparece silenciosa em meu quarto, caminha diretamente à minha estante, escolhe 5 ou 6 livros, pega meus óculos de aro redondo (ela não precisa, mas se sente bem) e joga-se em minha cama, sem lançar sequer um olhar a mim, como se eu não estivesse presente ou mesmo não existisse. Passa horas assim. Você pode não acreditar, achará incabível, todavia, meu peito infla-se de alegria nesses instantes, mesmo com sua indiferença, sei que ela está sentindo-se em casa, feliz, como dificilmente consegue sentir-se. É em minha casa que ela se sente à vontade. E eu penso: é a minha menina.
  Dói contar os enésimos "eu te amo" que eu disse obtendo como resposta apenas um olhar terno que muito custosamente ela consegue dar; os abraços desvencilhados; os convites recusados; os presentes que ela jamais usaria. E de pensar nisso, num dia feio que chovia bastante, eu quis terminar. Eu não precisei dizer nada, pegou em minha mão e fitou meus olhos tão profundamente que, também, ela não precisou dizer nada. Simplesmente compreendeu e penetrou ainda mais em sua tristeza. E eu senti o seu amor incalculável, o qual ela jamais manifestaria de modo prático e habitual. E a prova disso surge inesperadamente a mim: durante todos os dias que seguem em sua vida ela está aqui, sem cogitar partir, e não precisa - ela percorre ao acaso deitada em minha cama, eu não a interrompo, deixo-a di-vagar sozinha. Ela se sente em casa, por isso permanece. Vejo nas entrelinhas a sorte que tenho.

2 comentários:

  1. Liindo! *o*
    To seguindo seu blog..
    se puder segue o meu tb! (:
    http://amorechocolatequente.blogspot.com.br/

    beeijoo

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  2. Eis um caso singular, conheço alguém parecido, é de certo, muito bom conhecer alguém assim, mesmo sendo estranho. Essas figuras raras que a gente encontra por aí, são as provas vivas de que existem pessoas diferentes que vivem em um mundo construído por elas mesmas, segundo o seu próprio pensamento e não meras copias...entendo o motivo pelo qual ela é objeto do teu amor...

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