11 de mar de 2012

Concreto e Asfalto

  Will olhou por um longo tempo a aliança dourada que brilhava no anular esquerdo de Anna. Então, pegando a sua mão para demonstrar melhor seu pensamento, disse em tom irônico seguido de um olhar curioso - não sabia que era casada.
  - E muito bem, por sinal - respondeu Anna retirando a aliança de seu dedo e entregando a ele.
  Longos segundos passaram-se para que a expressão confusa desaparecesse da face de Will. Compreendendo, leu o que dizia no interior da aliança e sobressaltou-se ao ver que era o próprio nome dela. - Perdão, não entendo - disse Will sem tirar os olhos do delicado anel.
  Anna limitou-se a pegar a aliança de volta com um sorriso, para Will, indecifrável.
  - A sua solidão não é apenas uma máscara - decretou Will num ímpeto, mais para si mesmo.
  - Quem bom que chegou a essa conclusão, mesmo que tenha demorado a perceber. Mesmo por que nem imagino quem gostaria de vestir uma máscara desse tipo. A solidão nunca fez ninguém feliz, Will. Sóbrios, sim, mas não felizes - disse Anna muito séria, como andava sendo sempre nos últimos dias.

  Depois de um e outro copo de vinho, Will foi para sua casa, e Anna ficou novamente sendo a sua única companhia. Já se acostumara e convivia bem com tal situação, talvez a única situação aceitável a si mesma. A sós com seus pensamentos, deu-se conta do quanto a cidade em que residia fatigava-a, já não havia novidades, tampouco pessoas que tivessem o mágico poder de prendê-la ali. Ir embora, novamente, seria a melhor alternativa - seus pensamentos caminhavam por essa trilha. Convencida, arrumou sua mala, não demorou muito, pois adquirira a virtude de não juntar muitos pertences, pois só atrapalhavam suas idas e vindas estrada a fora.

  O próximo avião ao Brasil sairia em três horas, comprou as passagens por telefone. Lembrou-se do quanto ansiara fugir de seu país sem neve e sem futuro e, ironicamente, não aguentava mais o frio e a prepotência da Inglaterra. E isso a fazia pensar se haveria algum lugar, neste mundo, do qual ela pudesse sentir-se em casa, sim, pois cansara de sentir-se em uma aventura sem fim. Queria descansar, olhar ao seu redor e pensar que, finalmente, o seu lugar foi encontrado. Uma vida normal, alguém ao seu lado sempre, um jardim todo seu, uma aliança verdadeira, filhos, quem sabe? Acreditava sinceramente que não, pois converter-se à normalidade nunca fora um desejo seu. As pessoas, os lugares, os conhecimentos, tudo a cansava. Precisava sempre buscar coisas novas. Mas, até quando? Foi feliz assim por muito tempo, mas a velhice solitária a preocupava. Precisava parar e  permanecer. Será que algum dia conseguiria, enfim, permanecer?

Um comentário:

  1. Muito Bom!!! Gostei!!!
    Sucesso e Sucesso com o Blog!
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