3 de fev de 2012

O Corvo

  De sua cama, Sarah podia contemplar todo o lugar sombrio onde morava: a escuridão, a água viscosa escorrendo pelas paredes, uma visão nua do céu. E do lado de fora a obscuridade não era diferente, na Cidade dos Anjos nunca era dia.

  Na janela circular principal, de onde tinha a vista para a constante lua cheia, ele estava sobre os calcanhares, como uma ave, como um corvo. Com um casaco negro de couro que cobria os pés, os cabelos caiam pela face - era apenas uma sombra, triste e assustadora, e nada poderia ser tão belo.

  Sarah levantou-se assustada, o homem pulara ao chão, e ela pôde finalmente ver seu rosto: alvo como nada naquele lugar, olhos feitos a tinta negra, e lábios escarlates de sangue do qual ela própria maquiara. Corvos entraram pela mesma janela, e um posou nas costas dele.

  - Não olhe! Não olhe! - sussurrou ele baixando a cabeça, com lágrimas nos olhos. - Eu preciso me afastar de você.
  - Há quanto tempo esteve aí? - perguntou Sarah.
  - Eu estive a noite toda observando você tentando dormir - disse ele aproximando-se, queimando, olhando-a com um amor perverso nos olhos. - Você gritou meu nome durante o único sono que teve.
  - Toda noite eu grito seu nome - ela respondeu.

  Não podiam se olhar, eles queimavam. Ela com o corpo quase nu, coberta apenas por um pouco de couro, via nele a criança abusada e morta, a vingança, os olhos derramando sangue, e via corvos, corvos por todos os lados.

  - Ele não tinha culpa, era apenas uma criança, era a minha criança... - dizia ele, com os olhos brilhando de raiva.
  - Você também não... nunca teve culpa - disse Sarah, colocando suas mãos sobre o rosto dele.
  - Há pessoas que carregam a culpa por ter nascido - disse ele se desvencilhando dela. - Pinte um sorriso em meu rosto.
                                                                           -
  Ele virou as costas e rapidamente foi embora, fazendo voar o seu casaco e seus cabelos com o vento, ela ficou a comtemplá-lo, e o rosto novo que dera a ele. Ele estava indo em busca da vingança ou de um fim a ele mesmo, e Sarah não poderia impedir, a escolha estava feita.

  A rua era deserta, negra, fria, na esquina havia fumaças, e velhas vendendo "flores para los muertos". As árvores sussurravam sobre morte ao homem que já perdera a vida. E o corvo voava gritando ao seu lado. Ele jogaria o corpo do homem que assassinara seu filho no mesmo rio onde um dia esteve o dele próprio, e depois daria um jeito de acabar com a própria alma, já morta.

Um comentário:

  1. olá! QUE TEXTO INCRÍVEL. Gostei da forma como vc conduziu a história. Ficou misterioso e ao mesmo tempo envolvente. Só encontrei um problema: Da vontade de continuar a história. ficou bom de verdade, se tiver uma continuação eu quero ler.; BJOS E BOA SORTE NO BLOG! Sonhe sempre com os anjos... e com um corvo também (rsrs)
    abraços! te espero no meu infinito particular!

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