28 de fev de 2012

Lunático

Ao Emerson Silva.

 - Me diz uma coisa, qual é o teu lado humano-social-hipócrita? Porque você tem um, não é? Eu quero dizer, não pode ser assim tão... tão diferente - dizia ela sem parar para pensar nas palavras, como costumava fazer. - Eu preciso encontrar o seu lado normal.
  - Mas eu sou normal - respondeu ele confuso, com seus olhos verdes, brilhantes e intensamente vivos arregalados.
  - Não é, não! - a voz dela saíra em um grito súbito, como se tivesse se assustado com o que ele dissera.
  Depois de um longo silêncio constrangedoramente inapropriado, eles começaram a rir.
  Não vejo nada de normal ou qualquer aspecto comum em você. É, talvez, a única pessoa que eu ainda consiga admirar - continuou ela, ficando séria de repente, enquanto ele brincava com um inseto no pequeno muro onde eles estavam escorados. - Eu sinto uma liberdade enorme quando falo contigo. Posso te dizer coisas que não conseguiria a outras pessoas. E você simplesmente entenderia.
  - De que coisas você está falando? - perguntou ele com sua dualidade própria em, ao mesmo tempo, demonstrar compreensão e confusão.
  - O mundo. A grama. Os insetos. As estações. Todas elas. As pessoas. Principalmente as pessoas - respondeu ela.
  - Pessoas normais não falam sobre isso? - perguntou ele.
  - Absolutamente não - respondeu ela pensativa.
  - É uma pena - disse ele.
  - É, sim! - concordou ela. - Me diz outra coisa? - começou ela novamente.
  - Mas eu não te disse nada ainda - interrompeu ele, e os dois riram.
  - Seu lunático, você nasceu desse jeito ou endoideceu com o tempo?
  - Eu não sei - respondeu ele com seu riso contido e seus olhos fixos e sempre brilhantes. - Você que está me chamando de doido...
  - Eu vou te estudar. Será minha tese. Eu te acho meio louco e genial. Eu te acho incrível. E não sei o porquê. Deve ser o seu jeito de contemplar o céu, de caminhar, de se vestir, de cortar o cabelo... E, deve ser o jeito que tu é - disse ela sorrindo e já se afastando, talvez ficando como ele, como ela desejou.

  Ele, de longe, abanou a ele em despedida, com o sorriso mais puro já visto. E continuou na sua valiosa investigação sobre a casca da cigarra que encontrara.

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