8 de fev de 2012

Gray London... Wonderful London...

  "Londres, 12 de junho de 2010

  Sofiazinha, minha querida, é exatamente como dizem as canções, como diz Clarice Lispector, como diz o Caio... London... London... without words! Acho que mesmo pelo tom com que escrevo esta carta, você pode notar a minha rara disposição dando às caras, estou muito feliz, você não imagina. Aqui é completamente diferente, eu posso ser o que eu quiser, quando eu quiser, no lugar em que eu quiser. As pessoas não se incomodam pelo seu estilo, sequer reparam em você. Vejo de tudo nas ruas. É ma-ra-vi-lho-so. Quem diria, que eu, Joana, um dia estaria usando a palavra "maravilhoso". 
  Sabe como são belos aqueles dias cinzentos, e os olhares cinzentos das pessoas idem. Cada um, cada qual. É uma paz, uma leveza, uma pureza. Um estar em casa finalmente sem tamanho. E o mais incrível é a profundidade das pessoas. Elas preservam o próprio espaço, e o do outro idem. Contudo, a sua imensa profundidade serve de ponte. São distantes fisicamente, mas me sinto tão ligada aos ingleses que chego a não entender por que diabos nasci no meio dos americanos. Sofia, acho que encontrei o meu lugar. Sinto-me tão viva, tão contente e bem-disposta que acho que já não sou mais eu. perdi-me (ou me encontrei) caminhando pelos parques mais lindos que já vi. Lembra-se de todas aquelas coisas que você me falava sobre aproveitar as coisas pequenas da vida? Como admirar uma flor que nasceu na rua, um zunzunzum de abelhas em fim de tarde, o mar, o sol, tudo - sensações, Joana, sensações - você falava, jeito Rimbaud de ser (seu poeta favorito, não esqueço nunca das vezes em passava a me atormentar com suas leituras nas altas horas da noite, isso foi o que iniciou meu chatíssimo problema de insônia que persegue como um cão), pois é, acredite, estou exatamente assim. Estou quase tão leve quanto você, pequena, quase não tenho olheiras. Os ares londrinos fazem muito bem. Estou sendo feliz, sendo muito feliz.
  Apesar de tudo, estou morrendo de saudades suas (não pretendo voltar, claro), venha para cá, por favor, a vista do Tâmisa deve fazer mais sentido quando eu tiver a sua companhia.

                         De sua iniciante na felicidade, Joana.

 p.s.: A comida de Londres é horrível, tenho de ser sincera, ao menos há diversos restaurantes estrangeiros por aqui. Em compensação, o café daqui é melhor que o de todo Texas."
                                                     


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  "Austin, 24 de novembro de 2010
  
  Joana, eu preciso deixar claro os motivos que fizeram eu ir embora de Londres depois de ter permanecido apenas algumas semanas em sua companhia. Antes de qualquer coisa, peço aflitamente que entenda, e que não pense que não me agradou estar contigo, pelo contrário. Os motivos foram outros. Quase perdi meu brilho. Quase não vivo mais. 
  Londres tem uma beleza inacreditável, e o seus habitantes possuem um respeito uns com os outros fora do comum - agora entendo por que se sente tão a vontade, esse lugar foi feito pra você. Nos dias de neve eu assistia com uma felicidade inacreditável ao seu sorriso abrindo-se da forma mais pura que já presenciei. Você fica realmente maravilhosa no inverno europeu. Entretanto, eu me sentia totalmente fora do meu lugar em Londres. As pessoas me pareceram distantes, e diferente do que você diz, distantes em todos os sentidos. A comida de Londres é horrível, isso eu concordo. Nos primeiros dias eu estava com você, e estava tudo bem assim, mas depois, minha vontade era voltar correndo para o Texas. Para o calor (humano). É uma cidade belíssima para se passar um tempo, mas não entendo como as pessoas aguentam isso por um longo período. A profundidade é gigantesca, junto com a solidão. A solidão é o que predomina. Londres é a cidade perfeita... para quem quer estar sozinho em conjunto. É o seu caso, Joana, não o meu. Por isso e por tudo, eu estou te desejando toda a felicidade da Europa. Eu continuo aqui, no meu Texas, com minhas montanhas, ouvindo meu country, muito próxima às pessoas.
  Eu fico feliz que tenha se achado, felicidade é questão de se achar, você sabe.
  Continue assim até que se perca de novo (sei exatamente como é seu ciclo).
  
      Com muito carinho, muito pesar, muita saudade, e, ao mesmo tempo, felicidade por estar de volta ao lar, Sofia.


p.s.: O café londrino é realmente o melhor que existe."

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