21 de jan de 2012

Tormenta Interna

 Harte, quando ia a encontros, acostumara-se a levar as mulheres em lugares bem diferentes daquela sorveteria onde se encontrava. Levava as mais extravagantes a restaurantes caríssimos; as mais frenéticas a festas de acesso apenas à alta sociedade; e as mais cultas a cafeterias do centro da cidade. De qualquer forma, essa mulheres também era bem diferente dessa da qual estava - elas sempre se arrumavam impecavelmente, com suas maquiagens minuciosas e seus sapatos de salto-alto - Sofia usava chinelos, bermuda e uma blusinha, ainda assim, nunca saíra com outra garota tão linda e agradável. A única coisa que o incomodava era a idade, ela tinha 17 anos apenas, ele estava nos seus 40. Conhecera-a em uma jantar de negócios que fizera com seu pai. Ela tinha um conhecimento muito amplo para a sua idade e um senso crítico enorme. Ele ficara fascinado ao descobrir que ela lera alguns de seus livros publicados. Apesar de muitos os terem lido, ela foi a única que fez uma interpretação própria e que realmente apreendera o que ele queria dizer no livro - ele já estava acreditando que ninguém compreenderia e contentava-se com: "parabéns, excelente obra."

 - Um livro de filosofia bastante nietzschiana e básica. Resume-se em narcisismo, auto-suficiência e buscar o Deus em si, como o super-homem. Eu acharia um bom livro se eu já não tivesse lido Nietzsche e Heidegger. Como os li, percebo que seu livro trata-se de uma alusão a eles e um livro assim eu poderia ter escrito. - Sofia disse na ocasião, o que o fez rir e concordar com ela. Ele escrevera seu livro baseado nesses filósofos, não que realmente pretendesse relacioná-lo a eles. Contudo, ela o pegara.
 O assunto estendeu-se e ele aceitou em lhe mostrar outros livros que não publicara nem o pretendia. Eram livros íntimos, como os chamava. E ela os adorou.
 - São tão profundos - dissera no dia seguinte, quando os entregou de volta ao dono. - Esses, sim, são únicos e mostram um lado seu. Temos de escrever livros assim, sabe, que mostrem nossas ideias ou nossos sentimentos. Se for para falar das ideias de outros, então temos de dar os créditos - ela falava referindo-se aos livros de filosofia que ele publicara. - Esses livros são incríveis, você deveria os publicar.
 - Eu já disse, menina, eles são íntimos, falam de sentimentos e sensações, não posso publicar. E, de qualquer forma, ninguém gostaria, são apenas bobagens e...
 - Eu gostei - ela o interrompeu. - Lembram-me os livros de meu escritor favorito, Fernando Pessoa, mais ainda, seu heterônimo, Álvaro de Campos. Um tom pessimista, depressivo e profundo. Publique-os.
 Ele disse que não havia feito alusão ao Álvaro de Campos dessa vez, ela riu e pediu novamente que os publicasse e ele negou.

 Agora ele se via na sorveteria conversando sobre coisas das quais ele não estava habituado - sobre a beleza do céu, a sensação de sentir o calor do sol no inverno, o som do mar... e ela desenhava no guardanapo e seu desenho era mal feito e infantil, porém, encantador.
 - Uma casa e um jardim, as únicas coisas que sei desenhar - ela disse sorrindo, e ele pensou que esse "saber desenhar" era relativo, no entanto não quis falar nada, ficou contemplando seu sorriso calado.
 De repente, Harte pensou que sua filha mais nova adoraria esse passeio - sorveteria e parque e assustou-se com o pensamento. Essa menina poderia ser sua filha, porém afastara da cabeça essa ideia... que ideia, ela não era sua filha e nem poderia. Além do mais, era muito madura para julgá-la criança, era uma mulher - uma mulher que desenhava em guardanapos e adorava sorvete de morango.

 Na saída da sorveteria perceberam que estava chovendo muito forte. Não poderiam atravessar a rua e sentar-se no banco da praça embaixo da árvore que ela adorava. "Como não vi antes?" Ele pensava irritado e olhou-a assustado ao perceber que ela ria.
 - Por que está rindo? - perguntou ele confuso.
 - Você não pode sair na chuva? - Sofia perguntou de volta.
 - Não é isso - ele respondeu incrédulo com a pergunta dela. - Você é que não pode.
 - Por que não? - agora ela que perguntava confusa.
 - Porque... vai molhar seu cabelo - disse ele, pois todas as mulheres com que saía odiavam molhar o cabelo.
 - Ah, é mesmo! - exclamou Sofia passando a mão nos cabelos e então olhou para ele com os olhos arregalados. - Então, que estamos esperando?
 Ele não acreditou no que ouvira e viu ela saindo na frente, parecia muito satisfeita com a chuva, sem se importar com sua roupa ou em borrar a maquiagem - ela não estava usando maquiagem, só agora percebera. "Garota peculiar"  pensou e foi atrás dela.

 Depois de correrem como loucos na chuva, sentaram-se no banco e ficaram rindo feito bobos. A sensação era ótima, ele não lembrava da última vez que se sentira assim.
 - Olha pra mim, sentando em um banco de um parque, em meio a uma tempestade com uma menini... - e então se deteve e os dois riram mais ainda.
 - Decidimos que iríamos fazer isso hoje, não é uma tormentazinha que vai atrapalhar.
 - Você é uma garota especial - Harte gritou para ela poder ouvir, as palavras misturavam-se com a tempestade cada vez mais forte.
 - Todos nós somos especiais - respondeu ela gritando de volta em seu ouvido.
 - Uns são mais especiais que os outros - disse ele, e a tempestade ia acalmando-se e eles não precisavam mais gritar.
 - Não, é que uns deixam o que existe de especial neles bem à mostra, enquanto em outros, você tem de procurar bem no fundo para achar o que eles escondem de bom. E todos escondem algo de bom em si - Sofia olhou profundamente para ele. - Vou citar um homem que conheci uma vez como exemplo, Bill era o nome dele. Bill era um operário comum, como qualquer outro, ele trabalhava mais do que deveria e ganhava muito pouco. Ele vivia bêbado e fumava muito. Tinha uma mulher que não recordo o nome e ele quase não falava nela, como se não a amasse, referia-se apenas como alguém que cuidava de sua casa. Seu filho mais velho estava casado havia dois anos e nunca mais o procurara, sua filha caçula tinha apenas três anos e morava com a avó; tudo indicava que ele não era um bom pai. Ele gastava a maior parte de seu dinheiro com prostituas e chegava bêbado em casa. Meu pai conhecia-o e avisou-me que ele não era uma boa pessoa. E pensávamos assim, até o dia em fomos a um bar e encontramos Bill lá e conversamos com ele. Nesse dia, Bill um pouco bêbado e tomado pela melancolia contara-nos que não aguentava mais ser abusado no emprego, que não tinha tempo para viver, não tinha folga nem horário de almoço; o dinheiro às vezes vinha, às vezes não, tinha sempre de pedir a sua sogra, que já cuidava de sua filha, o que era uma grande humilhação. Odiava chegar sóbrio em casa e ter de olhar para a sua mulher e perceber que não lhe dera a vida que prometera, por isso bebia. Aliviava sua tensão com outras mulheres. Mulheres, bebidas e cigarros eram o que lhe restava e ele não tinha esperanças que algo melhorasse. Então, compadecemo-nos dele e no outros dia fizemos uma visita em sua casa à noite e vimos o que não enxergávamos antes: havia retratos de seus filhos por toda a casa, sempre que olhava para sua mulher ou dirigia-lhe a palavra era de forma doce e cheia de amor. A casa era humilde, mas era muito bem cuidada e ele parecia dar muito valor a tudo que tinha, como poucos e estava realmente contente em nos receber. Esse homem possuía uma sensibilidade incomum, que é raramente encontrada em vidas tão sofridas como a dele. Nesse dia eu descobri o que esse homem tinha de especial. E não só ele, que todos deveriam ter algo especial, basta conhecermos e compreendermos as pessoas.
 Harte estava entorpecido, ela era fascinante.
 - Eu tenho um bom exemplo também. - Olhou-a hesitante e continuou - havia um homem que desde pequeno fora acostumado ao luxo e ensinado que o dinheiro vinha sempre em primeiro lugar. Ele não tinha amigos, pois seus pais não queriam que ninguém o corrompesse e nem atrapalhasse seus estudos. Quando ele tinha uns seis anos, fugiu para tomar um banho de chuva e nunca recebera pior castigo, depois disso nunca mais sentia a maravilhosa sensação da chuva fria tocando seu pele numa tarde extremamente quente como esta. Cresceu amargurado, seco e solitário, casou-se uma vez, teve duas lindas filhas que nunca o tiveram presente por causa de seu trabalho que lhe ocupava todo o tempo, inclusive quando estava em casa. Sua mulher quase nunca o via e quando o fazia, sentia-o sempre distante, ela não aguentou por muito tempo e foi embora levando as meninas. Ele perdera a primeira chance de felicidade sem sequer ousar fazer algo para impedir isso, tampouco achava importante impedir isso. E continuou em seu mundo árido, rodeado apenas trabalho e funcionários, sem nunca sorrir. Até que um dia ele conheceu uma jovem muito atraente e inteligente. Essa jovem tinha o sorriso mais lindo que ele já vira e despertava nele todos os sentimentos que ele tinha trancado dentro de si por anos. Ela desenhava muito mal em guardanapos e adorava seus desenhos, mesmo assim; criticava seus livros que vendiam impressionantemente bem; e fora a única que ganhara a confiança de ler seus escritos íntimos, seus segredos sentimentais. Seus olhos brilhavam e ele sentia a vida dentro dela. Essa jovem fascinante levou-o para viver um pouco, o que ele não sabia fazer direito e deu-lhe um banho de chuva. Ela assassinou o robô apático e acordou o ser humano que existia dentro dele. Ela o fez descobrir o que ele tinha de melhor em si.
 Sofia sorria e ficava ainda mais linda, encantada com o que ele dissera. Então ela o beijou e ele assustado correspondeu sem pensar ou questionar mais nada que pudesse parecer-lhe estranho. Apenas aproveitou as maravilhosas sensações que evitara durante toda a sua vida. Ele estava vivo, finalmente.

 Alguns anos depois, esse novo homem, publicou seu primeiro livro "Tormenta interna", com seus textos mais profundos e de modo supreendente esse fora um sucesso, vendera e conquistara muito mais leitores do que os outros livros que publicara antes. E como os outros livros que publicou a seguir, ele fez a dedicação agradecendo a garota que salvara a sua vida em uma belíssima tarde de chuva.

Um comentário:

  1. li algumas coisas, o texto é muito grande, mas é bom

    http://rocknrollpost.blogspot.com/

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