17 de dez de 2012

A influência de falsas memórias no caso da Escola de Educação Infantil Base



      O caso da Escola de Educação Infantil Base, ocorrido no dia 28 de março de 1994, em São Paulo, inicia quando as mães de duas crianças, Fábio e Carla, ambos com quatro anos na época, fazem uma denúncia, alegando que os donos da escola - Icushiro e Aparecida Shimada, Maurício e Paula Alvarenga - eram pedófilos e organizavam orgias sexuais no mesmo local. Tal ideia ocorreu para Lúcia depois de ouvir seu filho dizer que via, com seus colegas, filmes com pessoas nuas, que “batiam fotos” e que havia camas redondas.
     Diante da insuficiência de provas e, mesmo, indícios, as mães não obtiveram o êxito desejado com a relatoria à polícia, então, repetiram o mesmo processo com a Rede Globo de televisão.  A partir disso, a propagação da polêmica foi inevitável. Noticiários não tiveram receio em divulgar as informações imprecisas. A população do país inteiro, em pouco tempo, revoltou-se com os donos da escola, destruindo toda a vida social dessas pessoas. 
     Depois de um certo tempo, a inocência dos donos da Escola Base foi provada. No entanto, as suas vidas nunca voltaram a ser as mesmas.  
     O falso caso, provocado por um desentendimento, levou um país inteiro a condenar uma família; a revoltar-se contra algo que não ocorreu. A partir disso, vê-se a influência extrema que a mídia possui sobre a população. O sensacionalismo, utilizando títulos e imagens que chamam a atenção e chocam, consegue induzir falsas memórias a diversas pessoas.
    A informação falsa, nesse caso relatado, foi implantada externamente. Portanto se trata de uma memória falsa sugerida. As pessoas que assistiam aos noticiários completamente envolvidas com o caso aceitavam todos os dados posteriores sobre o crime hediondo imaginário que lhes chegava pelos jornais e programas de televisão ou rádio sem relutância. Elas estavam totalmente inconscientes dos processos – tanto do ato em si, como da investigação do caso.
     No momento em que o caso foi desmascarado, e as acusações foram desfeitas, os noticiários cessaram essa pauta em sua programação. Alguns desmentiram as próprias palavras, outros ignoraram completamente. O fato é que já não havia importância, a atenção das pessoas teria que ser voltado a outro novo ato surpreendente – corrigir o erro não renderia muitos pontos no IBOPE.
   
     No entanto, mesmo que algum tempo tenha se passado, entrevistas mostraram que algumas pessoas relembravam do caso e acreditavam que os donos da escola eram culpados, apesar da verdade já ter sido revelada. A memória falsa sobreviveu com mais intensidade do que a verdadeira.

     A inconsciência do processo presente na população em geral e as táticas de manipulações da mídia são fatores inquestionáveis da introdução de uma falsa memória em uma nação quase inteira, provocando uma revolta inconcebível em um fato irreal. Os indivíduos tinham para si que os membros das famílias Shimada e Alvarenga eram criminosos imperdoáveis devido a uma informação de um fato que nunca existiu implantada em suas mentes através dos meios de comunicação.
     Estudos de falsas memórias mostram que as pessoas podem ser persuadidas a se “lembrar” de eventos completos que nunca aconteceram. A simples afirmação de um terceiro sobre um evento já induz a uma falsa memória. Os efeitos são catastróficos se o indutor da informação falsa usar táticas como a do sensacionalismo, tocando profundamente os sentimentos dos sujeitos envolvidos, como retrata o caso da Escola Base.

14 de nov de 2012

Seriedade

Só não vá me levar a sério
Nem se levar a sério
Ou levar qualquer coisa a sério

Deixando de viver.

10 de nov de 2012

Um breve tratado sobre Relações Sérias


Se cada pessoa nos desperta um tipo de sensação – há, a meu ver, certas coisas dentro de nós que só conseguimos expor com um sujeito específico, e cada sujeito desperta algo de diferente em nós – e, se somos feitos de diversos sentimentos, vivemos em constante transformação das sensações, e atraídos eternamente pelo novo, como eleger uma única pessoa para permanecer ao nosso lado? Como exigir a permanência de nós mesmos?

Fidelidade (no sentido da monogamia), termo conhecido e venerado hoje em dia, requer exclusão de outras possibilidades de relacionamentos românticos, logo, um grande empobrecimento de quem somos e nossas potencialidades, pois, permanecendo com a mesma pessoa por um longo tempo, e apenas com ela, deixamos de ver as sensações diferentes surgirem em nós através de outras relações. E a evolução se dá de um modo bem menor do que se daria caso os sujeitos que compõem o casal tivessem maior possibilidade de se desenvolver por outras relações, passando um para o outro um pouco desse crescimento.

Se a vida urge dinâmica e contraditória. Se a nossa visão de mundo inverte-se constantemente. Se as nossas sensações permanecem em movimento.  Se a cada segundo que passa deixamos de ser quem éramos para nos tornarmos quem somos (como pede Fernando Pessoa) – e isso ocorre do mesmo modo com quem nos relacionamos. Como exigir de nós mesmos seriedade e permanência nas relações?

Pela manhã nos sentimos de uma forma, pela noite de outra quase oposta – ou não, e no outro dia nos tornamos irreconhecíveis. A verdade é que mudamos de sentimentos e pensamentos constantemente.

Eis a questão: somos uma terrível e maravilhosa variedade, regidos por um caos que surge de quando em quando para nos lembrar de que vivemos de fato na insegurança, e de que a segurança é uma ilusão que nos enfiaram na cabeça para buscarmos permanência ao invés de evoluir, fluir e urgir, simplesmente, como se vive, como se é.

Onde está o sentido, o fundamento, a base teórica dos tais relacionamentos sérios e contratuais? Em que momento deixaram a finitude perder-se junto com a leveza e beleza da vida. 
Afinal, por que o receio? Por que tanta necessidade em definir – quem somos, o que fazemos, quais as nossas relações? 

De onde vem essa necessidade de não mudar e não deixar que os outros se transformem e nos transformem?

5 de nov de 2012

O novo

Nota mental para a partir de já: viver urgentemente.

Um segundo após o outro, e assim sucessivamente.
A vida substitui-se o tempo todo

O que passou já era, a todo instante.

O necessário é desfazer-se e refazer-se,
Assistir ao ontem com uma saudade real do que não pode ser refeito
E voltar a cabeça, de novo, pra vida que urge sem pena.

24 de out de 2012

Solução

Ignorar a política, recusar panfletos, desejar o fim das eleições para não ter mais que aguentar as propostas dos candidatos pelo ar, enfim, fugir da informação não faz de você "diferente dos outros brasileiros". 
Votar nulo é um grande e triste desperdício de sua capacidade crítica, e não fará qualquer diferença, pois, diferente do que muitos dizem, não é a solução. 

Política não precisa ser a "pior a coisa do mundo", e assume significado bem mais tolerável quando se percebe a sua importância social - e, dentro disso, individual, o que seria assunto pra outro momento.

E a solução? Qual é a solução que o país tão encarecidamente precisa para transformar-se naquele que almejamos, progredindo igualitariamente? 
Envolver-se, eis a solução. Envolver-se ou, ao menos, informar-se. 

Ao perceber que o mundo político não é um universo alheio ao que lhe seria subjetivo e pessoal, e que sendo passivos, seremos igualmente ativos, porém, consolidando ideais opostos aos que julgamos corretos, teremos uma chance de transformar-nos, transformando a estrutura da sociedade.

18 de out de 2012

Stay

     Meia-noite. Todos brilhavam. Pura e essencialmente amor.
     Ela podia compreender a vida que havia dentro de cada um deles. Necessidades e dificuldades. Unicidade com algo em comum: olhos vivos.
    
    Amor deve ser isso, então - não saber do que se trata. Amar o outro como se ama a própria vida. Deixar queimar. Não definir. Não sentir medo. Não se limitar. Sentir a vida do outro dentro si próprio... e o milagre que há nisso.

    Ela agradecia, intensamente, por ter descoberto o caminho além da solidão. O caminho que se faz fazendo parte de um todo. Em que não sabe onde se termina o si próprio e onde começa o meio. O caminho em que se é o mundo inteiro. E era por causa deles... que estavam ali, ajudando-a a compreender e a terminar bem o dia.

     Aquelas pessoas lhe ensinaram sobre a vida, sobre o amor, sobre si mesma mais do que qualquer livro. Mais do que qualquer noite solitária. 

     Eram ouro e queimavam.

9 de out de 2012

O que há de mais secreto

Vou te contar um segredo, o Brasil não é um país laico; racismo, machismo e homofobia existem e são fortes; o vestibular não serve para selecionar o mais capaz porque não existe o mais capaz; o argumento de que as ações afirmativas (cotas) apenas servem para aumentar o preconceito e a segregação da sociedade é a coisa mais ingênua que já ouvi; melhorar o educação pública básica não tem nada a ver com preparação para o vestibular; essa igualdade "ferida pelas cotas" da qual tanto falam é uma grande farsa; dizer que todos têm condições iguais para competir em uma seleção elitizada é uma ilusão imbecil...
...e, o que há de mais secreto: o diferente existe. Outras cores, credos, tamanhos, posturas, opiniões, olhares e sonhos vão invadir a universidade e transformar a sociedade.

26 de set de 2012

Segundos

     E com a vontade de seduzir a ninguém, seduzia a todos com que cruzava.
     Não havia motivos para pausas. Estava apaixonada pelo movimento.

     Mas havia um sorriso que a paralisava e enchia seus pensamentos. Talvez a mais bonita coisa já vista.
    Palavras que, ficcionalmente, compreendiam-na. Pele que atiçava desejos desconhecidos. Vontade de adiar a partida. Sem dizer nada, permanecia por mais um minuto e assim sucessivamente.
    Era belo olhar um rosto tão pasmo ao admirar o dela própria.

    Um moço, simpático, de cabelos negros e olhos claros, que enxergou nela algo que a lisonjeava. Um moço sensível o suficiente para despertar a vontade de repouso vivo naquela moça tão comprometida com a ida e lamentações de um passado sempre presente. Esse moço, disposto a devolver um vida vivível plena e realmente, balançou aquela cabeça desordenada e perdida.

    Um rapaz comum, aparentemente. Como tantos outros. O ponto, o quê de diabólico, estava nela. No fim, soube, incontestavelmente, não era o rapaz, naturalmente, mas sim o momento que era certo. E permaneceu por um segundo.

     Por um único segundo.

19 de set de 2012

Desencontros

     Olho-no-olho. Um passo e meio para trás. Já era. E não era pra ter sido.

      No dia seguinte, a presa errada chega, dela arranca a blusa e sente a cintura mais próxima, com força, com fervor, ardor e um pouco de rancor. E num átimo o que está fazendo se torna um absurdo. Há tempo de dar um passo para trás. Não era pra ter sido.
     - Eu não consigo mais... desejar você.
    
     A humilhação da presa, com a vida preservada, em detrimento da outra mais fresca e livre. A humilhação de uma presa cuja carne esfria com o tempo. A vida que podia ter tido. E não era pra ter sido.
   
     - Eu gostaria de explicar.
     - Eu gostaria de entender.
 
     Mas não há palavras. Só há a repulsa, a dor, a infidelidade, o veneno. Há o que ela não quer. Há o que ele não tem. Há o que não era para ter sido e foi.

     Do outro lado do centro da cidade, dois olhos negros brilham na escuridão pensando no que era para ter sido. E podia ser. Mas jamais. Não há explicação. Não há entendimento. Apenas a continuação.

12 de set de 2012

No queremos sobrevivir, queremos vivir!

     São coisas que vemos nas ruas. São mulheres extremamente magras, apesar de grávidas, oferecendo "Programa" para poder se alimentar. São as crianças, filhos dessas mulheres um pouco crescidos, que dormem em um banco qualquer, com apenas um cobertor, nas noites frias, sem conhecer outra realidade para chamar de vida. Crianças essas que se tornam aqueles homens que ficam encolhidos nos cantos, sem profissão nem orgulho, pedindo um trocado porque chegaram no extremo da última opção, e ainda tem de ouvir a frase: não dou esmola pra bêbado-vagabundo - dita por alguém que nunca precisou apelar para a cachaça para esquecer o frio e o filho com fome e com frio dormindo em um banco qualquer, com apenas um cobertor. São coisas que vemos nas ruas sem ver de fato. Cotidianos que nos fazem esquecer que isso não é normal. Cotidianos de pessoas que vivem para sobreviver e só para sobreviver continuam vivendo.

E no fim, realidades não se invertem.

10 de set de 2012

Intervalo entre o Mundo Externo e a Razão

     O Mito da Caverna, de Platão, representa, hoje, para cada um de nós, a ignorância  quanto a realidade. Diversas pessoas simplesmente fogem à verdade por medo de enxergar o conhecimento irrefutável, mesmo por suas crenças. Ver o inegável e obter o conhecimento gera sofrimento, angústia e inquietude, portanto viver sem a verdade pode ser, aos olhos de alguns, mais agradável e simples.
     De qualquer modo, mantendo-nos na sombra da ignorância não alcançaremos a evolução humana através da sabedoria, que é a nossa segunda principal busca - a primeira, de fato, é a felicidade. Para sairmos da "Caverna" precisamos nos desfazer de nossas opiniões criadas pelo mundo das aparências e tentar olhar ao nosso redor com outra visão.
     Segundo Platão, a realidade está apenas no Mundo das Ideias, o qual podemos alcançar através da razão. Apesar de concordar que nossa mente tem o poder de modificar profundamente a vida que levamos e com o fato de que a perfeição, muitas vezes, não se encontra em nada material, ou seja, que o nosso intelecto influencia em nossas percepções empíricas. Eu não acredito que chegaríamos a qualquer conclusão sem o mundo sensível, pois o meio determina, inclusive, o nosso próprio autoconhecimento. Com isso, pode-se dizer que uma pessoa de nosso convívio, um lugar, uma canção ou um livro (fatores do mundo sensível) modificam algo em nós que, quase sempre, nem percebemos. Isso acontece devido ao fato de nossas ideias de "Forma Perfeita" não serem inatas, eternas e imutáveis. Entretanto toda mudança causada por fatores externos (sensíveis) apenas é boa quando associadas ao exercício da razão porque os sentidos podem enganar-nos, mesmo quando tudo nos parece evidente.

4 de set de 2012

Experimentos sobre a Mente Humana e a Ética


     As análises fisiológicas e ambientais sobre os mecanismos mentais são possíveis, invalidando qualquer coisa que não seja corpórea (visão comportamental).
     No entanto a aplicação de pesquisas práticas em humanos para compreender melhor o seu comportamento exigiria de um uso incabível do objeto de estudo da psicologia: o homem. Essa talvez seja a maior dificuldade da psicologia, aplicar os experimentos sobre o seu objeto de estudo, pois diferente de outras ciências, ele não é algo palpável e manipulável. O ser humano não pode, simplesmente, ceder o seu comportamento e suas experiências por um momento sem ser profundamente afetado, correndo o risco de ser prejudicado em sua relação com a vida.
      Por esses pontos negativos em relação à pesquisa científica na ciência cognitiva, a psicologia, os experimentos aplicados são limitados.

26 de ago de 2012

A Dor como um Experimento


    Há experimentos sobre o funcionamento da mente baseado nos comportamentos sujeitos a condicionamentos operantes e respondentes e/ou outras relações de estímulo-resposta.
     A dor, característica intrínseca dos seres possuidores de sistema nervoso, causada por questões fisiológicas, biológicas e ambientais, funciona como um condicionamento.

"De uma maneira geral, o estudo da dor está inserido no estudo do controle aversivo do comportamento: são analisadas as relações onde a ação do indivíduo produz a inserção de estímulos geradores de desconforto/sofrimento (punição positiva), outras onde sua ação pode evitar ou eliminar algo desagradável (esquiva e fuga, respectivamente) ou, ao contrário, gerar a perda de algo desejável (punição negativa). São também condições geradoras de sofrimento aquelas nas quais o indivíduo não atinge os critérios para reforçamento, outras onde ocorre a interrupção de ganhos ou de situações prazerosas que vinham sendo usufruídas (extinção), e aquelas onde o estímulo aversivo independe de qualquer ação do indivíduo (incontrolabilidade). Por fim, é crítico que aspectos do ambiente pareados a essas condições podem se tornar igualmente desagradáveis ou fontes de sofrimento, ou seja, podem se tornar novos aversivos para o indivíduo. Se todas essas condições podem ser fontes potenciais de dor, e se não há contingência que não envolva ao menos algum desses componentes aversivos (Perone, 2003), isso equivale a dizer que dor, nas suas diferentes nuances, é um sentimento inerente à vida: pode ser minimizada, mas não excluída; pode ser benéfica, necessária à sobrevivência, mas pode também se tornar um problema. O enfrentamento dessas contingências, que pode depender de haver ou não outras alternativas vigentes, vai determinar a qualidade de vida dos indivíduos a elas submetidos."
(Hunziker,2010)

22 de ago de 2012

Conexionismo


     O sistema neural forma uma rede com todos os sistemas dos corpos vivos. Desse modo, as atividades que entram no organismo passam por diversas situações de percepção, formando os modos como conhecemos as sensações e o pensamento. Há uma ligação dos neurônios com as funções de alto nível, assim as informações são repassadas por nosso corpo. Como a esquematização de um relógio, todas as partes dependem uma das outras para funcionar corretamente. Essa associação, conhecida como conexionismo, é o que dá vida a todos os nosso movimentos e forma o que chamamos de mente, que não está fixa em um lugar isoladamente.