29 de dez de 2011

Integridade em pedaços

  É muito fácil viver atrás de máscaras; jogar toda a sujeira para baixo do tapete dos outros; posicionar-se dentro da moral e das estéticas, e esconder o que há de pior em si para conquistar as pessoas todos os dias sendo algo que você não é. É muito agradável negar todos os seus erros; mentir todo o seu passado, e tornar-se alguém completamente amável aos olhos dos outros. Não é uma má ideia deixar-se corromper; livrar toda a culpa de si mentindo para e sobre os outros. Ser sempre o homem de sorrisos incontidos, aparência impecável, melancolia inocente e a eterna vítima da história - o puro e bom samaritano. A sua única complicação é viver sem contradição em meio a tantas máscaras; é saber trocá-las de minuto em minuto, pois para cada pessoa aparece com uma face diferente, tentando agradar a todos, transformando-se, enganando, mentindo - ah! O velho e bom samaritano.
 
 No entanto, tudo isso é muito fácil, um modo de vida, eu diria, demasiado cômodo.

  O difícil é mostrar o que realmente é, assumir tudo o que fez, faz ou deseja fazer. É errar e aprender com o erro. É jogar fora tudo o que lhe cobre a pele. Ser o mesmo, o único e profundo "si-próprio" perante toda a gente. Vestir-se na própria sujeira. Por fim dizer: "este sou eu, e isto é o que fiz!".

 É um absurdo, é doloroso, é raro, é praticamente impossível ter unicidade; não se fazer em pedaços para agradar cada um; não ser um mero atrativo de simpatia; mostrar o lado mau, o lado feio e sujo; assumir-se em todas as circunstâncias; ser um para todos - ter integridade.

  Ah! Bom samaritano, cuidado, pois a hora de provar quem é quem sempre chega. As máscaras caem. Toda a sujeira é revelada. Seus  pedaços corrompidos serão para sempre perdidos - adeus, pseudo-integridade, ninguém lhe ama mais, pois ninguém jamais lhe amou pelo que realmente é.

27 de dez de 2011

Sufocando

Não me exija mais que uma análise
Não espere qualquer explicação
Apenas digo: ao que sinto não devo dar vazão
(ou razão)
É como em escuridão infinda
Você ainda se perder ao mar
Ao tentar fugir do fogo que é cuspido contra você
E o desespero de nada poder
E sofrer, descrer, morrer e salvar
Justo aquele que ao supor amar
Fechou o punho, os olhos, não ousou
E morrendo no abismo negro e congelante
Com a alma por ele a gritar
Vê muitos vindo de longe ajudar
Menos ele...
Menos ele...
Meu Deus, menos ele!

E na margem, encharcada e exausta, não pude levantar
E você, tal qual o grande rei,
Com tronco estendido estava o horizonte a fitar
Sem dar por mim, morta como um cão, virou-se e pôs-se a andar
E eu salgada ao pé do mar
Vi lentamente a escuridão me buscar
E me afogar

22 de dez de 2011

Look at the sky

Just look at the sky
What see you?
I see everything I need!

-

Eu preciso de um porto.
Deus, de um porto.
Céus, de um porto.
John, de um porto.
-

Eu preciso que pare de funcionar a minha cabeça.

19 de dez de 2011

Sujeira

  Um cidadão sem educação não é um bom cidadão. Uma sociedade sem bons cidadãos não é uma boa sociedade. Tampouco deveria chamar-se sociedade esta na qual vivemos hoje.
  As elites dominam a classe ignorante, que se trata da maioria, através de seu conhecimento nada inteligente e ao todo egoísta, ainda assim é conhecimento, e isto é para poucos porque é desse modo que eles o querem. Afinal, por que não iriam querer? O conhecimento, nesta terra, é o olho do rei na terra de cegos, mudar tal fato seria de um perigo extremo à hierarquia na qual vivemos, mais conhecida como desigualdade social.
  O descaso pela educação é absolutamente grave, pois impede a evolução de uma maioria, quem em sua ignorância é completamente inocente, deixando que evolua apenas os lucros elitistas.


  O descaso pela educação já se tornou algo comum em nosso dia-a-dia, os olhos fecharam-se para tal fato vergonhoso, pois hoje há sujeira maior: o abuso pela falta de educação.
  A cada esquina deparamo-nos com escancarado abuso e prepotência, deveras se tornou desnecessário sair de casa, basta que liguemos a televisão.
  Diariamente vemos os desastres que são feitos com a mente humana, o desespero das massas envoltas por sua carência e como os "sábios" poderosos lucram absurdamente com isso. É desonroso pensar que eles também são seres humanos.
  A população não tem para onde correr. Aqueles que poderiam oferecer ajuda fazem justamente o contrário: amedrontam ainda mais, com a sua vileza camuflada. E já não há fé nem esperança, apenas o conformismo de quem nasce na base da pirâmide: jamais subirá - "sirvam-se à vontade, vocês aí do topo."

17 de dez de 2011

Cinzas

  O coração dói de vez em quando, quebra, morre, renasce e continua vivendo por aí. Vivendo sempre, intensamente em sua dor. E vive pelo motivo de algo sem sentido. E vive, vive, vive e quanto mais vive, mais dói a vida. O coração faz morrer, viver, doer e tudo ao mesmo tempo. Sem pausa, pena ou redenção. E é quando dói que vivemos, e quando perecemos é que vivemos ainda mais. Sentir dor é estar vivo. Tão vivo. Tão vivo. Tão vivo. Tão vivo. Tão vivo... A minha vida me dói tanto, mas tanto, que vivendo quero morrer.
A minha vida te dói tanto que, de tanto eu viver, você quer morrer.

15 de dez de 2011

Hoje chove

A dor lateja, importuna
A dor tortura, a dor dói
E a chuva escorre em seu negro céu,
Chorando com a minha alma.
E a sede me traz uma taça de vinho,
E eu bebo como quem pede perdão
E agradece enquanto a dor é amenizada.
A chuva chove agora com pressa,
E a dor é negra de céu,
E os olhos são chuvosos de lágrimas,
E a fé que um dia em mim existiu
Eu sei que morreu
E chover é algo que me dói,
E a dor sempre vem com a chuva.
E que passe uma. E que passe outra.

12 de dez de 2011

Sempre ao seu lado

  Um tom raro de laranja invadia pouco a pouco o céu a oeste. E John, com lágrimas e cansaços nos olhos, não enxergava mais nada além das sombras de vastas árvores sobre o lago escarlate da Ilha de Mares Vermelhos. E o olhar grave e preocupado do qual tanto adorava não saía de sua mente.

  - Seu maluco, veste já esse casaco - bradava Anna desesperada, com os cabelos cheios cobertos de flocos de neve. Eles, vasculhando partes desertas da Ilha de Neves Brancas, haviam encontrado um lago muito belo e, até então, desconhecido por eles. - Sabe que se você se atirar nesta água morrerá congelado.
  - E o que você vai fazer? - ele perguntou desafiando-a, sem deixar de rir.
  Anna, tirando o casaco, respondeu ainda mais desafiadora, porém sem conseguir esconder completamente o pavor - eu vou me atirar também.
  - Você não ousaria... Por que faria isso? - perguntou John sem acreditar,
  - Se atira que eu me atiro! - respondeu Anna irritada o suficiente para cumprir tal promessa.
  Anna tinha a expressão muito séria, que se transformou totalmente em incredulidade e horror ao ver John pulando no lago quase congelado. Sem pensar, ela se jogou em seguida.
  A fúria tomou conta de cada célula de seu corpo ao perceber que John ria como um tolo, pois a água estava inacreditavelmente morna.
  - Eu não acredito - gritou Anna furiosa. - É um idiota!
  - Quem não acredita sou eu - disse John controlando-se para não rir tanto, saindo da água e vestindo seu casaco para não congelar verdadeiramente no frio seco de pleno inverno. - Você realmente pulou!
  - Como você sabia que o lago era quente... Ah, não importa - disse Anna fazendo o mesmo que ele.
  - Anna, sobre o lago, é um truque que aprendi a fazer, mas isso não faz diferença diante do que acabou de acontecer - disse John. - Você pulou atrás de mim, pulou acreditando que era um lago semi-congelado. E por quê?
  - Você faria o mesmo por mim - respondeu Anna sem hesitar.
  - Como pode ter tanta certeza? - perguntou John confuso e emocionado.
  - Não sei, apenas sinto -  respondeu Anna penetrando nos olhos verdes e vivos dele.

  E agora, beirando um outro lago, a universos de distância de Anna, literalmente, ele sentia-se falecendo aos poucos e muito dolorosamente. De quando em quando, podia sentir a presença dela. Sabia que ela igualmente o sentia. Porém, já não era o suficiente. Então, passara os seus intermináveis dias a pensar: como restaurar a conexão?

7 de dez de 2011

Intervalos

  Pra ser sincera eu não me limito a 8 ou 80. Na verdade, em todo o meu ser, eu sou um imenso meio termo.
  Não se trata somente de amor ou ódio, agora ou nunca, vermelho ou verde. É um pouco sim, um pouco não; meio mal, meio bem; aquela alegria melancólica naquele sorriso meio chorado
  Não, eu não tenho extremos. As certezas são raríssimas, e as dúvidas são constantes. Posso até ir ao limite por algo que eu queira, todavia, o que é que quero exatamente? "A dúvida é o preço da pueza" - já dizia Sartre. - "E é inútil ter certeza" - completou Humberto Gessinger.
  Eu não sei qual é o caminho, mas sigo. Eu não sei o que é certo, de qualquer forma eu faço. Eu não sei o que eu quero. Apenas sei que, nem sempre feliz, eu busco a felicidade - daquele meu jeito: entre amor e ódio há indiferença e simpatia; entre agora e nunca há o amanhã; entre o bom e o mau há o que me faz bem. Ou seja, nem sempre no limite, nem sempre nos extremos - entre 8 e 80 há 72 possibilidades.