15 de nov de 2011

Sound of the Sea

  Sentou-se na rocha mais alta, mais fria e solitária da praia. As ondas batiam impetuosas nas pedras menores, a escuridão da noite sem lua quase a cegava e Anna sentiu-se infinitamente superior ao mar. Contemplar aquela imensidão tornava igualmente imenso o seu vazio e talvez por isso ela sorria para si mesma - habituara-se muito bem ao vazio e já se sentia muito próxima do mar, única e inteira quando perto. Lembrava-se do sorriso dele e do som que fazia, não queria, todavia, lembrava. Os olhos dele a fitando tão demoradamente, com um interesse a mais, ela sentia e precisava urgentemente fugir disso. E fugia, como sempre, contudo o mar já não era o suficiente - deixava vazio o que era vazio, e o sentimento continuava em seu lugar. Anna precisava de todas as maneiras evitar, apagar, desaparecer com qualquer sentimento, pois já caíra em cortes profundos, dolorosos, feios e sujos demais, contudo o mar já não poderia ajudar. Ele, o dono dos brilhantes olhos castanhos claros, também sabia os truques da areia e das águas salgadas; conhecia a mágica de tudo que a rodeava, das flores no amanhecer, do gosto forte e amargo de café. Ela encontrava nele e com ele todas as cores do céu, principalmente nos fins de tarde -  azul, verde e laranja. Ele encontrou nela o que ela havia perdido para sempre, ele a encontrou no fundo do abismo, ele era perigoso. E agora, olhando a linha que separava o céu do mar, ela fazia uma prece - que o som das ondas levassem embora o som daquele riso que tanto amara, desde a primeira vez em que o ouvira.

Um comentário:

  1. Encantada com seu texto, Kenne!
    Parabéns! Amei o blog!
    Já estou seguindo :)

    Dá uma passadinha aqui, se gostar, segue tbm:
    O Puro Cheiro da Morena Flor

    Beijo e bom feriado pra você!

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