28 de nov de 2011

Compra-se um Viver

  Semana passada, por volta das dez horas da manhã de uma primeira segunda-feira do mês, eu caminhava pela rua sentindo o calor do sol e a distância de todas as pessoas que cruzavam agitadas muito próximas de mim. Próximas o suficiente para que eu pudesse ler a aflição em seus rostos, todavia, tão distantes que havia uma barreira impedindo-nos de trocar algum sorriso ou um olhar mais profundo.
  Eu caminhei por mais alguns minutos, foi então que me deparei com uma aglomeração em volta de uma loja de eletrônicos. Parei para saber do que se tratava (como todo bom curioso); todos estavam pasmados, contemplando o novo produto que chegava, e pasmada fiquei eu ao descobrir qual era o motivo de tanto interesse, que tivera a capacidade de tirar as pessoas de sua pressa rotineira - o que vi foi uma espécie de "computador com vida própria" que respondia a todas as perguntas tolas que faziam. Nesse momento olhei melancolicamente para o céu e disse - veja o lado positivo, eles ainda não perderam o senso de admiração, mas eu ainda me admiro mais com o espetáculo de suas cores. - Foi quando ouvi alguém perguntar ao meu lado - o que será que falta ser inventado?
  - Algo que traga de volta o interesse das pessoas pela vida - eu respondi. - Eu queria ver mais parques, crianças deitadas na grama vendo desenhos em nuvens ou correndo com seus cães; pessoas valorizando o tempo para ler um livro (livro de verdade, com capa, papel e cheiro), sentir o bem que faz contemplar o céu num fim de tarde. Eu queria que inventassem algo que não deixasse ninguém esquecer, nem por um segundo, a importância da vida; a sua urgência em ser vida com fervor e paixão, mas sem pressa. O desejo de viver ardentemente cada estação, de se aproximar do outro; de conviver - com viver, com muito viver, quanto mais viver, melhor. É isso, falta inventar o viver.

  O homem que questionara olhava-me assustado e arrependido por ter falado qualquer coisa. Então, em minha última tentativa eu falei, mais alto dessa vez - segura a onda, humanidade, que essa gana de querer evoluir e lucrar constantemente ainda acabará por matá-la, estou avisando.
  - Ela está louca! Ela está louca! - apontavam para mim.

  Eu percebi que ninguém entendia nada, também já não sentiam, estavam mortos por dentro. Eles tampouco enxergavam o que era tão simples, tão belo, estavam todos cegos por causa de uma única coisa: aquilo que era para facilitar a vida e acabou dificultando.

26 de nov de 2011

Esquizofrenia Fantástica

  Anna riscou da lista: depressão, bipolaridade e esquizofrenia. Em que colocar a culpa? Frequentemente os próximos afastavam-se, e ela assistia a todos partindo, sem fazer qualquer esforço. Onde estaria a menina que outrora fora tão alegre? Ficara no universo imaginário, naquele seu mundo fantástico, no qual ela jamais poderia colocar os pés novamente. Tal fato aprisionava-a em sua constante infelicidade, pois era naquele lugar em que ela encontrava a sua chance de vida; seus gramados vivos e intensamente verdes, o cheiro suave da neve e o toque vivo de sol. Era apenas lá, no Universo Fantástico, que o John poderia existir. E ao pensar nele, Anna verdadeiramente acreditava que não podia ser real, que todas as coisas tão mágicas e belas que vivera não passavam de peças de sua imaginação. John com toda a sua perfeição, sua amabilidade e sensibilidade extrema, sua firmeza tão branda, sua inteligência incomum, seu humor sarcástico e revoltado, sua voz suave, toda a sua leveza no olhar perdido que fazia perder-se em tão belo tom de verde, contrastando com sua pele alva e cabelos negros, sim, ele só poderia ser inventado - sua melhor ideia de sonho.

  Anna esqueceu-se da vida em seus devaneios e perdeu-se do lugar em que se encontrava, apenas com os olhos absorvidos pela água da piscina que enxergava logo abaixo da sacada na qual se encontrava. Forçou um sorriso para alguém lá embaixo e ouviu vozes próximas - anda, converse com ela, quem sabe assim ela saia de sua bolha - e sorriu para si, pensando que nunca mais se obrigaria a ir a uma festa para fugir de sua solidão, pois naquele momento, envolvida por gente e música, não se sentia menos solitária e pensava se algum dia conseguiria sentir-se melhor, alegre como fora antes; se voltaria ao Universo Fantástico ou reveria John. Lembrou-se de seu último contato com o mar, do qual, ao ouvir o som das ondas e os sussurros do vento, pensara escutar a voz de John. Não poderia ser... Então, deixou que escapasse um longo suspiro que foi, no mesmo instante, acompanhado por outro ao seu lado, num sobressalto olhou para o lado e viu dois olhos verdes e brilhantes contemplando-a, soltou uma exclamação inaudível - John! - e ele apenas sorriu antes de desaparecer novamente. E em completo estado de choque, sem saber o que fazer ou pensar, Anna acrescentou novamente em sua lista - esquizofrenia.

19 de nov de 2011

Ser culto não é ser sábio

  Adquirir conhecimento, colecionar informações é algo irresistível e inevitável, contudo são raros aqueles que se dão por conta do mais importante, que é: o que você pode fazer com tais informações. Veja bem, inteligentes são todos, já os sábios são poucos.
  O crucial é compreender que ser intelectual não é ser sábio; que o conhecimento vem de fora, e a sabedoria vem de dentro, ou seja, o bom pensador não é aquele que possui a informação, e sim aquele que sabe agir corretamente quanto a ela.
  Os inconformados questionadores, repletos de dúvidas e perguntas sem respostas, são os mais sábios dos sábios, pois refletem sobre tudo, todo o tempo.
  Ser sábio é ser dócil, tratável e simples. É buscar em seu intrínseco o melhor de si para si e para os outros. É conviver e aceitar as pessoas como elas são; compreender sempre - e ser prepotente nunca. É ver a diversidade; analisar; admirar para ser admirado. Contemplar o novo; contemplar sempre. Perguntar-se, refletir, saber apaixonar-se pela vida e saber apaixonar-se pelo próximo. É saber exigir - e nunca o que o outro não poderá oferecer. Enfim, ser sábio vai muito além de ser culto, é ter o conhecimento na bagagem e saber exatamente em que lugar descarregá-lo.

15 de nov de 2011

Sound of the Sea

  Sentou-se na rocha mais alta, mais fria e solitária da praia. As ondas batiam impetuosas nas pedras menores, a escuridão da noite sem lua quase a cegava e Anna sentiu-se infinitamente superior ao mar. Contemplar aquela imensidão tornava igualmente imenso o seu vazio e talvez por isso ela sorria para si mesma - habituara-se muito bem ao vazio e já se sentia muito próxima do mar, única e inteira quando perto. Lembrava-se do sorriso dele e do som que fazia, não queria, todavia, lembrava. Os olhos dele a fitando tão demoradamente, com um interesse a mais, ela sentia e precisava urgentemente fugir disso. E fugia, como sempre, contudo o mar já não era o suficiente - deixava vazio o que era vazio, e o sentimento continuava em seu lugar. Anna precisava de todas as maneiras evitar, apagar, desaparecer com qualquer sentimento, pois já caíra em cortes profundos, dolorosos, feios e sujos demais, contudo o mar já não poderia ajudar. Ele, o dono dos brilhantes olhos castanhos claros, também sabia os truques da areia e das águas salgadas; conhecia a mágica de tudo que a rodeava, das flores no amanhecer, do gosto forte e amargo de café. Ela encontrava nele e com ele todas as cores do céu, principalmente nos fins de tarde -  azul, verde e laranja. Ele encontrou nela o que ela havia perdido para sempre, ele a encontrou no fundo do abismo, ele era perigoso. E agora, olhando a linha que separava o céu do mar, ela fazia uma prece - que o som das ondas levassem embora o som daquele riso que tanto amara, desde a primeira vez em que o ouvira.

12 de nov de 2011

Please tell me this is not for real...

  Karen observava seus pais atônita, eles a fitavam com lágrimas repletas de dor e angústia. Ela buscava em sua mente algo do qual ela tenha feito que carregasse tamanha gravidade, no entanto nada correspondia.
  Em meio à imensa confusão mental na qual se encontrava, ela foi surpreendida por um abraço pesado de sua mãe. - Minha filha... - dizia chorando sem disfarçar ou se controlar.
  - O que houve? - perguntava a menina impaciente. - Alguém poderia me dizer?
  - Karen - agora quem falava era seu pai, de modo mais contido do que a mãe. - Aconteceu algo terrível... - sem conseguir mais se controlar, deixou escapar um soluço, seguido de outro e mais outro e assim sucessivamente. E tentando achar um ponto de equilíbrio em meio ao pranto tempestuoso, ele prosseguiu - a sua irmã faleceu pela manhã.
  Nesse instante Karen teve a sensação de se transformar em fumaça. Ela esperou que eles consertassem o que acabara de ouvir, que desfizessem o engano, todavia, não o fizeram.
  Os pais piscaram e a menina já não estava mais lá. Ela correra para o quarto, em seguida se trancara em seu banheiro e ali permanecera, no canto, com a porta trancada, box fechado... e ela encolhida o máximo que seu corpo magro podia vergar-se. Não acreditava, tampouco se perguntava, pois realmente não acreditava. Não chorava ou respirava, não tinha força alguma. Apenas sentia, a pior coisa que já sentira na vida, chamar de dor não era o suficiente.Não queria recordar-se dos momentos vividos com a sua irmã mais velha, de todas as coisas fúteis que ela lhe ensinara, de todas as brigas tolas, de todas as críticas que faziam uma a outra por ciúme, por admiração oculta. Eram completamente iguais, contudo se obrigavam a ser totalmente diferentes. E tudo era sempre por amor.
  Karen não poderia controlar-se por muito mais tempo, exausta, deixou as lágrimas vencerem e os pensamentos tomaram-lhe conta. "Minha irmãzinha... não pode ser, por favor, não pode ser real" - ela sequer sabia a quem implorava, no entanto, implorava: que não fosse real - que a vida, naquele instante, não fosse real.

5 de nov de 2011

Paralelos

Olhos
Seus olhos
Meus olhos
Seus e meus olhos
Nossos olhos cruzaram-se
E no mundo nada mais existiu
Apenas nossos olhos cruzando-se
Minha poesia finalmente sumiu
Nossos olhos afastaram-se
Seus e meus olhos
Meus olhos
Seus olhos
Olhos

2 de nov de 2011

Sangrou, sangrou, sangrou e sorria como louca

  Perder-se de tudo e que esse tudo se afaste - o vácuo fica tão próximo que assusta. Aceitamos conformados o vazio intrínseco... ou não, ou nos rebelamos e buscamos de volta a ponta do cordão que quase escapou de nossos dedos porque na outra ponta há certa poesia que fugiu. Ver o pássaro tão de perto me fez bem por um momento, todavia, o momento acabou assim que ele se deu conta de meus olhos ávidos. E ele se foi, com o cordão no bico e a poesia nas penas verdes.
  É hora de se perder por aí, pé na estrada e fugir. Eu disse que o faria algum dia, sem ou com você, faz diferença e não importa. E agora eu vou, de peito aberto e coração protegido, pois se sangrei, já não sangro mais. E se chorei, se senti, se a saudade invadiu-me sorrateira e traiçoeira, não foi por querer, não foi por querer. Foi justamente por isso: por não querer. Não querendo, se tem o que não quer.
  Eventualmente eu vejo aquele pássaro, e quando acontece... é inevitável perder o cordão. É incontrolável, é um absurdo o modo com que eu perco o controle e perco a poesia. Eu perco a poesia o tempo todo. O tempo todo. E eu nunca quis perder, porém, sempre se tem o que não quer. Eu nunca quis sangrar, mas, sangrando eu consigo sorrir.