31 de out de 2011

Ela, sempre Ela

  A moça correu, correu, enquanto a chuva molhava todo o seu corpo. Ele observou, há uma distância exata e calculada. Longe o suficiente - sempre longe o suficiente. Ele percebeu o momento exato no qual a moça decidiu-se parar e o momento exato no qual parou. E a chuva caía, levando para longe toda a esperança, toda a ingenuidade. Maldosa e precisamente. Ele quis afastar-se, porém o querer é sempre em vão diante de uma vontade intrínseca corroendo cada célula sanguínea, esbravejando inconsequente, exigindo ser atendida, exigindo, exigindo e de tanto exigir, enlouquecendo-o. Ele quis afastar-se, no entanto, ela quis aproximar-se. Ela, que estando sempre lá, não o deixava pensar em outra coisa. Ela o acompanhava por longos meses. Ela tornara-se parte de sua vida. Ela, a vontade.
  Sem intenção, sem sinal de livre arbítrio, ele foi à moça. Esta se encontrava imóvel defronte a um apartamento no centro da cidade. Melancólica, escondia as lágrimas com a chuva, ela olhava para todos os andares. Qual seria? Sentia-se observada de volta. Sentia-se terrivelmente tola. Tola em frente àquele prédio.
  Uma mão tocou um ombro. A moça não precisou olhar para trás, ela, a vontade, estava lá, finalmente.
  Um corpo recostou-se no outro. E mais nenhum movimento. A moça não tinha medo, tampouco estava assustada. Não sabia, todavia, sentia - bastava.
  Um lábio sussurrou em um ouvido e então tudo ficou claro - eu não estou lá em cima.
  Ele ainda quis afastar-se, contudo a vontade ainda estava lá, mais forte e intensa.
  Por fim, venceu, ele foi embora, mais rápido do que chegou.
 
  Ela inspirou seus lábios. Ela suspirou seu nome.
  Ela, apenas ela, a vontade.

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