31 de out de 2011

Ela, sempre Ela

  A moça correu, correu, enquanto a chuva molhava todo o seu corpo. Ele observou, há uma distância exata e calculada. Longe o suficiente - sempre longe o suficiente. Ele percebeu o momento exato no qual a moça decidiu-se parar e o momento exato no qual parou. E a chuva caía, levando para longe toda a esperança, toda a ingenuidade. Maldosa e precisamente. Ele quis afastar-se, porém o querer é sempre em vão diante de uma vontade intrínseca corroendo cada célula sanguínea, esbravejando inconsequente, exigindo ser atendida, exigindo, exigindo e de tanto exigir, enlouquecendo-o. Ele quis afastar-se, no entanto, ela quis aproximar-se. Ela, que estando sempre lá, não o deixava pensar em outra coisa. Ela o acompanhava por longos meses. Ela tornara-se parte de sua vida. Ela, a vontade.
  Sem intenção, sem sinal de livre arbítrio, ele foi à moça. Esta se encontrava imóvel defronte a um apartamento no centro da cidade. Melancólica, escondia as lágrimas com a chuva, ela olhava para todos os andares. Qual seria? Sentia-se observada de volta. Sentia-se terrivelmente tola. Tola em frente àquele prédio.
  Uma mão tocou um ombro. A moça não precisou olhar para trás, ela, a vontade, estava lá, finalmente.
  Um corpo recostou-se no outro. E mais nenhum movimento. A moça não tinha medo, tampouco estava assustada. Não sabia, todavia, sentia - bastava.
  Um lábio sussurrou em um ouvido e então tudo ficou claro - eu não estou lá em cima.
  Ele ainda quis afastar-se, contudo a vontade ainda estava lá, mais forte e intensa.
  Por fim, venceu, ele foi embora, mais rápido do que chegou.
 
  Ela inspirou seus lábios. Ela suspirou seu nome.
  Ela, apenas ela, a vontade.

25 de out de 2011

La Neige Danse

(Talvez, com "Claude Debussy - The Snow is Dancing" tocando, faça algum sentido)
 

  - Clair... Clair... - Fréderic gritava enquanto corria atrás dela pelo campo de girassóis. - Clair - ele falava rindo, abraçou-a com amor e giraram e giraram até caírem tontos.
  - Não podes ficar agindo como um doido - ela o repreendia rindo mais do que ele - vê, amassaste todo o meu vestido.
  Então ele calou-a beijando-lhe os lábios. Então, deitaram-se um ao lado do outro, permanecendo com as mãos enlaçadas, observando o céu em meio aos girassóis. O vestido azul de Clair espalhava-se pelo intenso tom amarelado e o perfume de seu cabelo inundava os pensamentos de Fréderic
  - O que teu pai diria se nos visse? - Ele perguntou sem tirar os olhos do céu.
  - Nada agradável - ela respondeu apertando as mãos dele.
  - O que teu pai diria se eu pedisse a tua mão? - Fréderic levantou-se abruptamente, inclinando-se.
   Ela pasma não soube o que responder de imediato - abria e fechava a boca sem emitir som nenhum. Levantou-se e beijou-lhe a face, a fronte, os olhos e, por fim, os lábios.
  - Ei, acalme-se senhorita, este é o comportamento de uma dama? - Fréderic falou rindo, com uma expressão divertida e séria. - Foi apenas uma hipótese.
  Clair enrubesceu e lançou-lhe um olhar irritado que se desfez quando ele tirou um anel do bolso e pôs-se de joelhos.
  - Clair Fontaine, aceita te casar comigo?
  - Aceito, Fréderic Simon.
 
  Lágrimas escorreram pelos olhos de ambos. Eles não podiam conter-se, riam e choravam como crianças apaixonadas em um campo de girassóis.

21 de out de 2011

Underneath the stars

  O som do mar era o que de mais belo existia para seus ouvidos - mais do que a própria música, mais do que o próprio mar, mais do que tudo - os som do mar falava-lhe o que somente ela poderia compreender. O som do mar remetia-a ao próprio John, jamais esquecido.
  Anna, sentada na rocha mais alta, fechou os olhos, inspirou profundamente a brisa marítima e pensou intensamente em John, quando ouviu os sussurros do mar.

  - Abra a sua janela, exponha toda a sua alma, estou aqui, não pode ver?
  - Abra a sua porta, levante os seus braços, estou aqui, não pode sentir?
  - Você já não entende o que eu digo, você já não me sente tão intensamente quanto antes.
  - Você precisa de mim o tempo todo e eu estou sempre com você... acontece que agora EU preciso de você.
  - Ouça os sussurros quando abrir a janela de sua alma. Ouça o que lhe digo. Não se perca de mim.
  - Veja o mundo girar através de sua janela aberta. Veja o quanto eu preciso de você agora. Por favor, não se perca de mim. Eu sinto você se afastando. Não me deixe agora.
  - Por favor, volte para mim.
  - Nossas almas sempre foram uma só, não pode ver?
  - Não me deixe aqui sozinho, desolado, abatido. 
  - Apenas me observe no mais fundo dos oceanos... Eu simplesmente preciso de você agora aqui, não pode entender?
  - Observe as ondas, elas nos levarão para um lugar melhor. Um lugar claro e só nosso. Todo nosso.
  - E a distância nunca teve importância. E o destino nunca existiu, no entanto é para acabarmos juntos no fim, está escrito. 
  - Eu assisti você ontem, o dia todo. Meu coração está quebrado, porém está aberto para você... por você.
  - Eu sofro com imensa mágoa ao ver que você chora. Não chore! Oh, eu preciso que se abra, abra sua mente e alma. 
  - Você nunca estará sozinha, eu não deixarei, eu não deixarei. As coisas acabam, mudam, morrem. Contudo o que sentimos jamais morrerá, será sempre eu e você, exatamente como somos. 
  - Observe o céu, observe as estrelas. Estamos em universos diferentes sob as mesmas estrelas.
  Então Anna ouviu seus amigos gritando seu nome. A conexão foi perdida. Pôde sentir sua face inchada e sussurrou ao mar, antes de partir: Eu jamais lhe deixarei.

15 de out de 2011

Segura a onda, HG

  O cara mais poderoso do país andou querendo despertar o meu desejo por "ser alguém na vida", e eu jamais contestaria isto - pronto, tornou-se minha verdade absoluta: serei alguém na vida. Contudo a imagem que passaram prematuramente de uma pessoa considerada "alguém na vida" era tal: um homem muito rico, usando terno e gel no cabelo, ponto. Tornou-se para mim o símbolo de todo sentido de existir, ser alguém. Mas sempre ficava um borrão. Todas as grandes verdades devem ser retratadas como obras de arte de Da Vinci, Soar como Chopin ao piano. Essa soava com ruídos. Um dia eu tive um sobressalto: ela não quer dizer nada!
  Eu conheci muitos "alguéns na vida" que adoravam mostrar que eram "alguéns na vida" - no entanto, eles não eram nada. Nada. Nada. Nada. Besouros na parede eram mais do que eles.
  
   Eu encontrei um hippie que conhecia muito bem a si próprio, não tinha muito e tinha tudo, era plenamente feliz. Ele era o maior "alguém na vida" que existia.

   Ser alguém não tem nada a ver com dinheiro ou poder, tampouco com status. Ser alguém é ter uma alma e saber do real valor de sua existência. Ser alguém é conhecer a própria mente. E dentro de si encontrar a liberdade. "Conhece-te a ti mesmo" - já dizia Sócrates.

10 de out de 2011

A boy I never knew

  Ela abriu os olhos e se deparou com a parede rubra de seu quarto e a janela com a veneziana inteiramente aberta, o modo como ela costumava dormir - com débil claridade, observando o céu negro sem estrelas, imaginando o infinito. Anna lembrou-se de tudo, do Universo Fantástico e de John, todavia, como se tivesse sonhado, como se fosse um absurdo irreal. Como se não passasse de sua imaginação. A carta que John escrevera-lhe estava aberta na mesinha ao lado da cama, todavia, no Universo Real a carta estava em branco. Ainda assim, ela lembrava-se de cada palavra que estava escrita na carta e perguntava-se. "Isso é real? Não pode ser." Não era normal, ela deveria estar ficando doente, no entanto ela sentia John. Ela sentia-o mais do que qualquer outra coisa. Ela sentia aquele outro mundo imaginário. Não sabia o que pensar, não sabia o que era certo e errado. Contudo ela sentia como nunca aquele garoto que jamais conheceu.

  Eu sinto você em minha volta. Sinto a sua perfeição. Eu daria qualquer coisa para ter você aqui verdadeiramente ao meu lado - qualquer coisa. Eu adoraria ver seu sorriso, se é como eu realmente imagino. Se o seu olhar é tão verde e brilhante como em meus sonhos. A sua imagem e perfeição movem-me por turbulências e obstáculos da vida. Tempestades incessantes me encaminham para o mar, onde eu poderia encontrar-lhe. Assistir as ondas, perder-me em ti. Meu desejo e sonho. Parece que sucedeu há anos passados, mas o sinto forte e intensamente, como a mim mesma.
  Você, garoto que eu jamais conheci, é minha alma e minha mente. É todas as minhas sensações. E o ar passando sobre mim, é o seu abraço. E o som do mar é a sua voz, falando-me para esperar. É minha esperança e todos os meus desejos. É tudo o que eu queria. Minha alegria, meu lar. Talvez eu esteja enlouquecendo e nada disso seja realmente real. Não é real. É a minha alma e meu coração. Meu corpo e meu sangue. Minha vontade e minha fé. E eu passarei a minha vida a esperar o homem que eu nunca conheci - nunca conhecerei.

8 de out de 2011

Eu quis você

  Meus olhos fixaram-se em você, como quando cansados fixam-se em um ponto qualquer da parede e assim ficam por horas, meus olhos fixaram-se cansados em você. Os minutos passaram-se e eles continuaram imóveis em você. Por quê? Porque eu quis você. Por quê? Eu não sei. Eu quis você! Não demorou tanto quanto eu gostaria, você olhou, você viu meu olhar no seu, você viu e não quis ver e eu não consegui parar de olhar e você desviou, fugiu e do mesmo modo eu continuei, sem querer continuar. Você desviou e olhou e viu de novo e provavelmente se assustou e do mesmo modo eu continuei e continuei e continuei e tive medo que levasse uma vida para parar e não parei e pensei: eu quis você. E pensei no quanto eu o quis e que eu tinha de parar, todavia, não conseguia. Era um absurdo incontrolável lastimável lamentável um erro terrível - e eu quis você, eu quis você, eu quis você, antes de dormir, o mundo caiu, o céu ficou roxo, eu gritei, estava cega, surda, e com um gosto ruim de cigarro na boca, eu não fumo, e fumei e fumei e fumei e no final era a mesma coisa: eu queria você eu queria você eu queria você, com álcool, com gosto, eu queria queria queria queria. Então uma lágrima caiu, o som dela tocando o solo foi ensurdecedor, eu acordei e pude então desviar o olhar. Não, eu não quero - eu quis você.

2 de out de 2011

Scharlach

  Anna sentou-se no banco favorito dela e de John, no Jardim das Neves Brancas. Abriu a carta, como esperava não viu nada escrito, teria de dizer a palavra-chave para revelar as letras. Não poderia ser muito difícil para ela.
  - Memento Mori - não deu certo, seguiu tentando - Carpe Diem - filosófico demais, pensou, qualquer um do Universo Fantástico poderia adivinhar se fosse isso... já sei - vida - se não é vida, o que pode ser? John caprichou dessa vez.
  Alguma hora a resposta chegaria, ela sabia. Enquanto isso Anna observava a neve caindo incessante no jardim e sentia o aroma - sim, o aroma - esse era o mais incrível daquele lugar que infelizmente ela teria de deixar para sempre, como o próprio nome dizia, o Universo Fantástico era mesmo Fantástico, e o poder da mente era a lei principal dele, por isso era tão perigoso e fascinante ao mesmo tempo, todo desejo mais profundo do fundo do pensamento era realizado, como por exemplo, neves caindo em pleno verão em um jardim de uma instituição mágica - neves que tinham aromas. Anna estava lembrando-se da primeira vez que foram ali, não tinham nem dez anos de idade e descobriram tal fato, assustaram-se: "esta neve tem cheiro!" Eles exclamavam sem parar muito assustados e riam mais ainda, então o diretor Tarsch apareceu e explicou-lhes que "a neve exala o aroma daquilo que mais se gosta nos mundos." John disse que sentia o cheiro de flores silvestres e Anna disse que sentia o cheiro de grama molhada, com vergonha de assumir a verdade: sentia o aroma dos cabelos dele.
  Os anos passaram-se e o amor deles por aquele jardim aumentava cada vez mais, passavam horas sentados ali, observando a neve - nas quatro estações - e falando sobre qualquer coisa. Gostavam dos sons das palavras, Anna recordava-se do dia em que passaram horas pronunciando a palavra e cor preferida deles - escarlate, em várias línguas: "escarlata (espanhol), écarlate (francês), scarlatto (italiano), tulipunainen (finlandês), scarlet (inglês)" e o quanto era engraçado quando falavam em alemão: Scharlach. 
  - Scharlach - Anna pronunciou sem pensar em voz alta e percebeu que letras começaram a se revelar no papel em sua mão - A carta estava pronta para ser lida!
  
  "Anna, não imagina a falta que está fazendo. Não pensei que fosse tão terrível deixar uma parte minha para trás, quanta inocência carregamos em nossas mentes. Tarsch deve ter-lhe dito o quanto nossas mentes são especiais, tão especiais que não podem ficar próximas - ironia estúpida do acaso. Eu estou, como você já deve saber, na Ilha de Mares Vermelhos, você iria adorar este lugar, ele é bem mais quente que a Ilha de Neves Brancas, é claro, enquanto aí neva, aqui queima, você amaria isso aqui. Imagine admirar uma imensidão no fim da tarde, com o céu e solo vermelho, aqui é assim. Nas proximidades do colégio preparador de mentes daqui, existe um lago enorme de águas densas e escarlates, seus olhos encheriam-se com esta beleza, uns dizem que ele não tem fundo, outros me contaram que quando mergulhamos, se tivermos bons olhos e conseguirmos enxergar alguma coisa, vemos aquilo que desejamos, como vultos vermelhos - eu veria você ao meu lado. Isso me faz lembrar o jardim de Neves Brancas e o aroma da neve. Eu nunca lhe contei, entretanto, a neve tinha o cheiro de seu cabelo, para mim. 
  Minha garota, acredito que quando estiver lendo esta carta, Tarsch já terá dito-lhe que não podemos permanecer no mesmo universo. Isto é um absurdo, eu sei, mas não tive outra escolha, não depois de descobrir o que eu descobri. Nós somos especiais, sabia? Especial no pior sentido, pois se permanecermos fisicamente juntos, coisas terríveis aconterão. Eu não posso contar-lhe absolutamente tudo, pois apenas um de nós pode saber do segredo, o outro deve fazer a sua parte e tomar seu lugar no Universo Real - é a sua parte, e se você voltasse sabendo do segredo, enlouqueceria. Infelizmente para você, mais infelizmente para mim que fico, carregando esse peso sozinho, o peso de saber de tudo e não poder fazer nada. A verdade é que quem pode fazer alguma coisa é você que não sabe de nada, pois o real controla o imaginário/fantástico, apesar da verdade pertencer ao imaginário. É essa a questão, eu sei do segredo, mas a peça chave está em sua mãos, mesmo sem ter ideia do que seja. Quando Tarsch escolheu-me para ficar aqui, ele sabia que você era mais ligada à realidade do que eu, então seria mais fácil para você voltar à vida real. Olha, as Ilhas Negras e seu povo estão crescendo e ficando cada vez mais poderosos, você sabe o quanto eles são maus e usam o poder fantástico de suas mentes para fazer coisas terríveis nos dois universos, eles querem espalhar a treva, eu vou lutar aqui no Universo Fantástico contra eles, entretanto, a escuridão também já chegou no Universo Real, na Terra, em nosso país, em nossas casas. Todos eles estão tomados pela ignorância e pela vileza. Anna, é por isso que você tem de ir, você tem de combater isso, levando um pouco de nossa fantasia consigo, levando nossa clareza mental e boa filosofia. Nós somos os escolhidos, essa era profecia. Nós somos os escolhidos, nós temos a mesma alma, literalmente a mesma alma, por isso sempre nos assombramos com o fato de sabermos exatamente o que o outro sentia, e não acreditávamos quando penetrávamos um no intrínseco do outro (algo impossível para dois seres humanos), porém foi um erro termos nascido na mesma época, agora cada um tem de estar em seu lugar, em universos separados. Eu aqui no imaginário e você precisa voltar ao real, o quanto antes. 
  É inacreditável, não é? Há poucos anos atrás, conversávamos no mundo real, no quintal de sua casa, sob um pé de laranja, planejávamos montar uma banda em um futuro remoto, quando descobrimos o Universo Fantástico e começamos a passar mais tempo aqui do que na Terra, chegamos a pensar que poderíamos viver aqui para sempre - bom, eu vou, contudo o seu lugar não é aqui. Entretanto, você precisa saber que essa nossa separação é apenas física, afinal temos almas absurdamente interligadas e manteremos o contato sempre que você desejar isso profundamente, pois lembre que você controla a sua mente, logo... todo o imaginário e eu passarei a fazer parte desse. Você precisa manter o contato comigo e com o Universo Fantástico, para não ficar como as outras pessoas "reais". Não se perca de mim, por favor, é o que peço. Sabe o poder das estrelas... onde você olhará e me verá observando os principais momentos de sua vida. Sabe o poder do oceano... onde estarei, onde poderá encontrar-me quando desejar. Sabe o poder dos céus... é o nosso poder. Estarei com o corpo distante, e a mente logo ao seu lado - a distância não separa, as antenas parabólicas são a prova. Não fique paranoica... e pense sempre em mim que estarei com a alma sempre em você. Em breve, quando menos esperarmos, encontraremo-nos. E enquanto isso não acontecer, lembre: olhe-se no espelhos, seus olhos são meus olhos." 

  Anna secou as lágrimas, deixando a manga de sua blusa vermelha encharcada, quando sentiu uma mão em seu ombro - era Tarsch, ele também tinha os olhos molhados.  
  - Hora de ir para casa.