14 de set de 2011

Carta I - o adeus que faltou

  Eu realmente precisava saber que tipo de homem você é hoje. E mostrar-lhe a mulher que estou me tornando. Talvez você se orgulhasse ou, ao menos, compreendesse.
  Eu ainda me recordo perfeitamente, era 2002, tínhamos sete anos de idade quando você entrou naquela sala de 2ª série daquela pequena escola. Era incrível como éramos tão iguais e desiguais ao mesmo tempo. Compartilhávamos desde muito cedo a paixão feroz por livros, animes e novelas de vampiros. E lembro de momentos singelos, eu e você subindo árvores, cantando Faroeste caboclo, Era um garoto e Anna Julia, e pergunto-me se você ouve Legião, Engenheiros ou Los Hermanos. Pergunto-me o que você deve estar ouvindo agora, talvez ópera, parece estranho, mas nós gostávamos de ópera quando não havia nada passando na televisão nas tardes sem aula. Mais estranho ainda, era você cantando ópera e eu nunca consegui dizer que você cantava tão bem quanto uma mulherzinha, Júnior, eu achava engraçado, umas das poucas coisas com que você conseguia fazer-me rir - já que a piadista sempre fui eu. Nós éramos terríveis com os professores, a culpada sempre era eu, claro, porém era você que fazia tudo o que eu queria. Nós éramos realmente uns diabinhos, e, inacreditavelmente, sempre fomos os melhores alunos da classe, lembra? Você era o melhor em história e eu em matemática. Entretanto, as coisas sempre mudam, pois eu aprendi a gostar de história e hoje entendo que é muito fácil ser boa na matemática... do ensino fundamental - e gostaria de saber o quanto você mudou.
  Nós dois tínhamos gostos extremamente parecidos, lembra que reluzíamos em dias de ir à biblioteca? E depois sentávamos no banco sob as árvores e líamos juntos a mesma página. No entanto, sempre fomos opostos um ao outro. Eu era uma menina muito durona e você um garotinho muito sensível. Recordo-me, infelizmente muito bem, daquela vez em que eu lhe bati, e você saiu derramando lágrimas, não sabe, pois eu não lhe disse, o quanto eu me arrependi, você era tão frágil e possuía olhos gigantes e puros. Você era tão inocente, quando eu aparecia toda racional e lógica. Você diversas vezes me irritou por ser tão correto, bonzinho e educado, eu nunca gostei de pessoas certinhas, e posso até prever o que você diria se me visse hoje: "Você não pode beber tanto assim, olhe o que está fazendo contigo mesma, está estragando tudo. Não pode ficar torturando-se assim por uma vida inteira só pelo que aconteceu, as coisas passam, mudam e você tem de crescer e não se fechar dentro de si e ficar bêbada toda noite e se comportar como uma qualquer e não deveria falar assim com seus pais também..." mas a verdade é que você sempre foi muito mais inteligente do que eu, e muito melhor, em todos os sentidos, e eu sempre admirei demais tudo em você, o problema é que eu nunca lhe disse isso. Eu nunca lhe agradeci.
  Sabe, garoto, falta pouco tempo para os nossos 17 anos e eu estava lembrando-me de seis anos atrás, em uma de nossas conversas, na qual você disse que "quando fizermos nosso 17º aniversário, se tudo correr bem e não falharmos, estaremos entrando na universidade juntos." E, sabe, eu não sei se conseguirei entrar na universidade, por mais que eu esteja esforçando-me para isso, eu simplesmente não sei. De qualquer forma, por enquanto eu não falhei, evitei os vermelhos e passei longe de qualquer exame, como eu prometi, como nós prometemos, eu não saí do rumo e queria saber se as coisas estão dando certo para você. Queria saber qualquer coisa sobre você. Por isso comecei a escrever esta carta, com a certeza de nunca poder entregar-lhe.
  Eu queria saber o que você pensou quando eu fui embora, quando você percebeu que eu não voltaria, por quanto tempo você lamentou, pois eu sonhei com você por semanas e semanas infindáveis. Júnior, eu nunca tive culpa, eu simplesmente não sabia e me pergunto todos os dias o que você pensa disso tudo, hoje, se é que pensa. Eu pressenti naquele dia - quando eu pedi para você aceitar meu presente e ficar mais um pouco, você deveria ter aceitado e ficado, por uma briga boba entre duas crianças você foi embora mais cedo do que eu esperava, e eu simplesmente pressenti, você deveria ter pressentido também. Eu ressalto aqui: eu não tive culpa alguma. Foi algo muito cruel da parte de meu pai, veja bem, eu entrei no carro e ele disse: "Se despediu dos seus colegas?" "Não, por quê?" "Porque pra essa cidade, a partir de amanhã, você não volta mais." Júnior eu caí, foi um soco profundo, fundo, fundo. E foi isso, e eu queria explicar-lhe o que aconteceu, dizer-lhe adeus, ao menos - não tive chance. E desde esse dia nasceu uma imagem em minha mente, que aprecio muito, apesar de triste, que é de você ouvindo Yesterday dos Beatles e perguntando-se se um algum eu voltarei. E desde esse dia eu me pego ouvindo Patience da banda Guns N' Roses e prometendo que voltarei a essa cidade, baterei à porta da oficina de seus tios e perguntarei por você, para ao menos lhe dizer o adeus que faltou.
  Nós éramos apenas crianças, sim, eu sei, o drama é desnecessário, no entanto, o tempo fez de mim uma pessoa extremamente dramática e sentimental, inacreditável, não? Nós não passávamos de duas crianças e tudo o que eu dissesse na época seria apenas tolices infantis. Contudo, o tempo passou e hoje eu posso afirmar com convicção: o que eu senti era amor, simples, sincero e puro - o que só pode acontecer em corações ingênuos. Agora vejo o meu interior: nada ingênuo, nada puro. Talvez se eu lhe encontrasse novamente, então, eu pudesse ressuscitar o que há muito morreu em mim.
  Júnior, eu não falei pra mais ninguém sobre o John - até tentei, porém eles nunca demonstraram compreender verdadeiramente o que era o John. Só você.
  Só você. E eu sinto sua falta e das coisas estúpidas que fazíamos. E eu olho uma foto que eu tenho contigo, você fantasiado de príncipe e eu de bruxa - daquela peça da qual participamos - "A Bela Adormecida", se não me engano. E eu sorrio ao olhar esta foto. Eu sorrio ao lembrar de você. Éramos apenas crianças e isso não importa, pelo contrário, faz tudo ser ainda mais especial e mágico. Você sempre caía nas minhas "mágicas" falsas. Você sempre foi o ingênuo e eu sempre cruel. E eu sempre lhe amei, meu amigo.
  Eu prometo a mim mesma que um dia vou encontrá-lo por aí, em qualquer esquina e convidá-lo para tomar uma cerveja e ouvir Led Zeppelin, sem saber qual seria a sua resposta, sem saber se você bebe ou que estilo musical você gosta - sem saber que tipo de homem você se tornou. E quer saber? Não importa, eu sempre quis a sua companhia, independente de tudo. Eu sempre precisei de você para crescer e tornar-me uma pessoa melhor e agora... eu não cresço mais.

2 comentários:

  1. Seu texto está muito bom!
    Abraços
    http://uaimeu10.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  2. Muito bom mesmo. Muito bem escrito, fácil de ler. E lindo! Parabéns!
    http://lollyoliver.wordpress.com/

    ResponderExcluir