27 de set de 2011

Neves Brancas

  Anna observava a chuva forte através da janela, sentada em uma das poltronas do salão principal da Instituição da Ilha de Neves Brancas. Ela refletia sobre o Universo Fantástico, esse poderia ser o último ano em que ela permaneceria nele, pois ela teria de se decidir se voltaria ou não para o Universo Real (mais especificamente: para a Terra) definitivamente porque, segundo as tradições, quando alguém se forma na escola real e na escola fantástica, muda de fase em sua vida (transmuta da inocência infantil para uma vida adulta e séria e com menos inteligência) e não pode permanecer nos dois universos, então fica a grande questão: vida real ou vida fantástica? - Alguns trocam o termo "fantástico" por "imaginário". A maioria sempre escolhia a vida real, pouquíssimos conseguiam permanecer no Universo Fantástico, não se pode dizer que seja uma escolha própria, e sim questão de vocação: ter uma boa mente ou não - não foi definido de qual se trata a boa mente ainda, se a que escolhe ficar ou a que escolhe ir. Anna pensava nisso, todavia, não precisava - ela sabia muito bem o que queria e era continuar no mundo fantástico com... John!? Era exatamente esse o problema, ela não queria pensar nele, queria evitar lembrar o que ouviu pela manhã, em uma das aulas de filosofia (era só o que estudavam nesse Universo Fantástico: ciências humanas, principalmente a mente e todo seu fascínio).
  - Então, John, ganhou uma vaga pra estudar na Instituição da Ilha de Mares Vermelhos? Incrível. John é realmente dono do maior potencial que já vi.
  - Sim, ao que parece ele ganhou a vaga ano passado, mas não queria ir, não se sabe o motivo ao certo, mas eu, como muitas outras pessoas, acredito que seja por que... - Então, a menina que comentava olhou para Anna e não concluiu, não precisou.

  Anna sabia da vaga desde o dia em que ele ganhou. John não queria ir, pois a Inst. Mares Vermelhos, apesar de ser a melhor escola preparadora de mentes fantásticas daquele mundo, aceitava apenas rapazes, as meninas com potencial equivalente eram recrutadas para a Instituição da Ilha de Pedras Preciosas, Anna era uma delas. Contudo, eles não queriam separar-se, então permaneceram em Neves Brancas, sem contar que eles adoravam aquele lugar. Foi uma terrível surpresa ela descobrir que ele foi embora, sem se despedir dela, deveria haver alguma explicação. Enquanto permanecia perdida em seus pensamentos, os outros conversavam animadamente em sua volta, falando sobre suas férias no Mundo Real e como as coisas nunca mudavam por lá. Alguns diziam não achar graça nenhuma na vida da Terra e só encontrar a felicidade no Fantástico, outros diziam preferir lá e não sabiam o que ainda faziam ali, naquele mundo imaginário e estúpido (esses em breve iriam embora de vez para suas vidas reais e nunca mais voltariam), tudo se tratava de opiniões, cada mente era única.
  - Anna, o diretor Tarsch quer dar uma palavra com você - avisou Rose, a conselheira.

 Anna entrou na sala da direção, era muito aconchegante, fresca e com uma janela enorme, com vista para o jardim. Ela e John adoravam aquele jardim, o Universo Fantástico tinha as quatro estações muito bem definidas e agradáveis, porém o jardim das Neves Brancas permanecia durante todo o ano coberto por neve, como um infinito inverno rigoroso. No ápice do calor veranil, Anna e John não saiam do jardim. Pensar nisso a deixou triste.
  - Neste momento já deve estar sabendo sobre John, certo? - O diretor Tarsch falou calmamente com sua voz suave. Ele tinha os olhos azuis, os cabelos e barba espessos e brancos, o rosto rosado e redondo. Lembraria um duende se não fosse tão grande e gordo. Anna achava-o parecido com o Papai Noel, apenas John concordava.
  - Sim, já.
  - Quero que saiba que fui que o persuadi a ir embora daqui - Anna olhou-o assustada, estranho ele dizer isso a ela, daquela maneira. - Mas preciso explicar-lhe meus motivos, já me basta o que fiz antes. Chega de mentiras por aqui - Tarsch era conhecido pela ótima direção e por manter a paz constante em sua instituição, o que era muito difícil naquele Universo em que o poder vinha completamente da mente e todos poderiam tornar realidade seus pensamentos mais profundos e intensos. Tarsch era admirado inclusive pelos diretores de outras ilhas. Contudo, muitas vezes ele conseguia o que queria mentindo ou ocultando alguns fatos. Ele mesmo dizia que "nem sempre a verdade é bem-vinda  e nem todos a merecem." E por pensar assim, no ano interior ele mentiu para Anna e John e escondeu fatos muito importantes, que acabou afastando os dois, causando estragos piores do que se eles permanecessem juntos. - Aprendi que você e John estão prontos para a mais difícil sinceridade, são merecedores de toda honestidade e, de qualquer forma, é impossível ocultar algo de vocês por muito tempo. Não com essas mentes perspicazes que possuem.
  "Anna, você e John simplesmente não devem, não podem ficar juntos. - Antes que ela pudesse questionar, ele continuou - há uma profecia que fala de vocês dois, trata vocês como uma promessa, uma grande promessa de acabar com toda a escuridão do Universo Fantástico e, assim, do Universo Real também. Porém, nessa profecia vocês não apareciam no mesmo lugar, tampouco na mesma geração, entende? O tempo errou com vocês, fez de vocês amigos íntimos, quando deveriam ser completamente distantes. Vocês são como um só, e não deveriam ser. Não existe lugar para uma coisa assim em universo nenhum, duas pessoas que sejam como uma só, não como amantes, almas gêmeas e todos esses mitos, e sim como uma só alma literalmente. Isso sempre foi algo impossível, até vocês surgirem. Anna, vocês não devem ficar juntos.
  - Mas o que de tão terrível aconteceria? - Anna estava confusa.
  - Eu não posso dizer-lhe, sinto muito. - Vendo que ela parecia perturbada, continuou - eu contei ao John, ele entendeu e decidiu trocar de ilha, estudar sua mente em outro lugar, para tornar as coisas mais fáceis para você. Não pense que ele foi embora sem muito pesar, sem hesitar, ele não queria ir, mas depois do que eu contei a ele, ele não teve escolha. É um ótimo rapaz, dono de uma mente fascinante e fez o que era melhor para todos. Entenda, apenas um de vocês poderia saber o segredo e continuar aqui, o outro deveria ir para o Universo Real sem ter conhecimento nenhum sobre isso.
  - Está dizendo que é isso que eu devo fazer? Voltar a minha vida real? deixar o meu mundo fantástico, pois eu e John não podemos ficar no mesmo universo?
  - Exatamente, desculpe.
  - E por que diabos John tem de ficar e eu ir? Por que não é o contrário? - Anna estava muito abatida, era informação demais. E a vida real não era exatamente o que ela chamava de vida.
  - Na verdade, poderia ser qualquer um, dependeria apenas de quem soubesse do segredo. Se eu contasse o fato para vocês dois e deixasse que decidissem entre si quem permaneceria nesse Universo e quem deixaria tudo isso para trás, eu tenho certeza que seria muito penoso para ambos, pois a dor de se separarem já seria imensa e não chegariam a acordo nenhum. Então eu fiz a escolha por vocês, posso ter errado, mas fiz o que deveria ser feito, John também o fez, falta você, pois ninguém pode obrigá-la a nada, eu só estou dizendo-lhe as condições.
  - Se John, que sabe desse segredo e toda a verdade que eu não sei, achou que o melhor seria separarmo-nos, então confiarei nele como sempre. Irei embora, sem vontade nenhuma de deixar esse lugar, mas voltarei definitivamente para a minha vida real, meu país, meus pais, entrarei numa universidade e terei uma vida normal.
  O modo com que ela proferiu a palavra "normal" penalizou o diretor e o fez pegar uma carta na gaveta de sua secretária.
  - John deixou comigo para que eu lhe entregasse, confesso que pensei em não o fazer, pois o fato de John ter entendido e feito o que fez sem contestar deixou-me aliviado, e eu tive medo do conteúdo desta carta mudar o rumo certo do qual as coisas estão tomando. Mas acho que não posso controlar as coisas desse jeito, não quando se trata de Anna e John - a maneira com que disse seus nomes, fez Anna sorrir pela primeira vez naquele dia; um sorriso triste, ainda assim, sincero.
  - Diretor Tarsch - disse Anna pegando a carta e observando que estava lacrada -, quero deixar claro que caso o senhor não me entregasse a carta, eu compreenderia, pois o senhor quer e faz sempre o melhor para esta instituição e, se puder, por todo Universo Fantástico. Mas como o senhor confiou em mim o suficiente para entregar algo do qual não faz parte de seu conhecimento, correndo o risco de revelar coisas que não deveriam ser reveladas, saiba que minha admiração pelo senhor triplicou, mesmo que isso não tenha importância agora, um dia poderá ter: o senhor é umas das pessoas mais admiráveis que conheço.
  Ela se levantou e já ia pedir-lhe licença quando ele falou.
  - Anna, estou olhando dentro de seus olhos negros e eu juro é uma coisa absurda e incrível ao mesmo tempo, vi isso apenas ao olhar dentro dos olhos verdes de John, enxergo a alma de ambos, ela é limpa, completamente pura, é a coisa mais fascinante que já vi. Segurei-me para dizer isso desde que vocês pisaram em Neves Brancas: vocês têm uma mente brilhante. É invejável. E eu realmente me sinto péssimo por ver vocês dois se separarem, acredite, estou pior do que pareço. Entretanto, é necessário. Anna, sobre o fato de você compreender, eu não esperava outra coisa. Agora, ter a sua admiração é uma das melhores coisas que já ouvi, espero não lhe decepcionar.
  Eles trocaram um sorriso contido de pura compreensão e ela se retirou para o jardim. Ela tinha de se despedir antes de deixar o Universo Fantástico para sempre - era estranho pensar assim, pois ela nem sabia o motivo disso tudo, apenas confiava na decisão de John e na única certeza: não poderia ficar perto dele.

19 de set de 2011

Até o fim

  - Você deveria continuar a tentar levantar-se - insistia Nick.
  - Você diz "de novo"? - Joana perguntava incrédula. - Acho que já tentei demais e caí todas as vezes, ando caindo o tempo todo.
  - Deveria continuar tentando - ele tentava ser persuasivo com seus olhos castanho-esverdeados e sua voz penetrante. - De novo e de novo e de novo e de novo.
  - Eu já excedi nos recomeços, sinto muito lhe decepcionar - Joana o fitou demoradamente, para mostrar que não absorvia seus efeitos persuasivos e ele baixou os olhos. - Eu simplesmente não posso mais.
  - O que pretende, desistir? - Nick perguntou com falsa indiferença, e em seguida olhou-a novamente, com maior intensidade e continuou - acredita mesmo que conseguirá alguma coisa desistindo?
  - Não conseguirei de qualquer forma - Joana respondeu áspera.
  - Está enganada. Se eu desejo encontrar algo que vale a minha vida e busco uma vez, não acho e desisto de procurar, então nunca encontrarei e terei chegado ao fim, finalmente, e de mãos vazias. No entanto, se eu continuar procurando, sem nem pensar em desistir, não importa que a busca torne-se incessante, que demore ou que eu nunca encontre o que procuro; o que realmente importa é que eu não terei me entregado nem chegado ao final, pois estou lá, indo à luta, pagando pra ver, para um dia poder realmente ver.
  "Afinal, você quer desistir pra quê? Para ter a certeza de nunca conseguir? O que você conseguirá com isso? Você pensa que a sua vida acabou, que nada mais vale a pena. Depois de tudo, quer abandonar o barco agora e infelizmente você tem esse direito, todavia, saiba que desistindo tudo estará perdido, acabado, desaparecido, no fundo do mais profundo do abismo dos oceanos, com a esperança socada e afogada.

  Joana refletiu sobre todas as palavras ditas por Nick. Ela estava convicta de que sua vida estava arruinada, o pior acontecera, era realmente o fim de tudo. Ela queria entregar-se. Contudo, se era realmente o fim, o que fazia com que ela não desejasse a própria morte? Ela não sabia ao certo, porém ainda existia uma certa vontade de viver. Talvez Nick estivesse com a razão e o sentido da vida fosse continuar tentando, levantando-se, subindo sem se importar em chegar ao topo, apenas subir. Ela, como qualquer outra pessoa, é muito mais capaz do que imagina. E não passou por tantas situações para ceder assim. Enquanto houvesse um pouco de vida, ela não se entregaria, iria até o fim sem desistir.

14 de set de 2011

Carta I - o adeus que faltou

  Eu realmente precisava saber que tipo de homem você é hoje. E mostrar-lhe a mulher que estou me tornando. Talvez você se orgulhasse ou, ao menos, compreendesse.
  Eu ainda me recordo perfeitamente, era 2002, tínhamos sete anos de idade quando você entrou naquela sala de 2ª série daquela pequena escola. Era incrível como éramos tão iguais e desiguais ao mesmo tempo. Compartilhávamos desde muito cedo a paixão feroz por livros, animes e novelas de vampiros. E lembro de momentos singelos, eu e você subindo árvores, cantando Faroeste caboclo, Era um garoto e Anna Julia, e pergunto-me se você ouve Legião, Engenheiros ou Los Hermanos. Pergunto-me o que você deve estar ouvindo agora, talvez ópera, parece estranho, mas nós gostávamos de ópera quando não havia nada passando na televisão nas tardes sem aula. Mais estranho ainda, era você cantando ópera e eu nunca consegui dizer que você cantava tão bem quanto uma mulherzinha, Júnior, eu achava engraçado, umas das poucas coisas com que você conseguia fazer-me rir - já que a piadista sempre fui eu. Nós éramos terríveis com os professores, a culpada sempre era eu, claro, porém era você que fazia tudo o que eu queria. Nós éramos realmente uns diabinhos, e, inacreditavelmente, sempre fomos os melhores alunos da classe, lembra? Você era o melhor em história e eu em matemática. Entretanto, as coisas sempre mudam, pois eu aprendi a gostar de história e hoje entendo que é muito fácil ser boa na matemática... do ensino fundamental - e gostaria de saber o quanto você mudou.
  Nós dois tínhamos gostos extremamente parecidos, lembra que reluzíamos em dias de ir à biblioteca? E depois sentávamos no banco sob as árvores e líamos juntos a mesma página. No entanto, sempre fomos opostos um ao outro. Eu era uma menina muito durona e você um garotinho muito sensível. Recordo-me, infelizmente muito bem, daquela vez em que eu lhe bati, e você saiu derramando lágrimas, não sabe, pois eu não lhe disse, o quanto eu me arrependi, você era tão frágil e possuía olhos gigantes e puros. Você era tão inocente, quando eu aparecia toda racional e lógica. Você diversas vezes me irritou por ser tão correto, bonzinho e educado, eu nunca gostei de pessoas certinhas, e posso até prever o que você diria se me visse hoje: "Você não pode beber tanto assim, olhe o que está fazendo contigo mesma, está estragando tudo. Não pode ficar torturando-se assim por uma vida inteira só pelo que aconteceu, as coisas passam, mudam e você tem de crescer e não se fechar dentro de si e ficar bêbada toda noite e se comportar como uma qualquer e não deveria falar assim com seus pais também..." mas a verdade é que você sempre foi muito mais inteligente do que eu, e muito melhor, em todos os sentidos, e eu sempre admirei demais tudo em você, o problema é que eu nunca lhe disse isso. Eu nunca lhe agradeci.
  Sabe, garoto, falta pouco tempo para os nossos 17 anos e eu estava lembrando-me de seis anos atrás, em uma de nossas conversas, na qual você disse que "quando fizermos nosso 17º aniversário, se tudo correr bem e não falharmos, estaremos entrando na universidade juntos." E, sabe, eu não sei se conseguirei entrar na universidade, por mais que eu esteja esforçando-me para isso, eu simplesmente não sei. De qualquer forma, por enquanto eu não falhei, evitei os vermelhos e passei longe de qualquer exame, como eu prometi, como nós prometemos, eu não saí do rumo e queria saber se as coisas estão dando certo para você. Queria saber qualquer coisa sobre você. Por isso comecei a escrever esta carta, com a certeza de nunca poder entregar-lhe.
  Eu queria saber o que você pensou quando eu fui embora, quando você percebeu que eu não voltaria, por quanto tempo você lamentou, pois eu sonhei com você por semanas e semanas infindáveis. Júnior, eu nunca tive culpa, eu simplesmente não sabia e me pergunto todos os dias o que você pensa disso tudo, hoje, se é que pensa. Eu pressenti naquele dia - quando eu pedi para você aceitar meu presente e ficar mais um pouco, você deveria ter aceitado e ficado, por uma briga boba entre duas crianças você foi embora mais cedo do que eu esperava, e eu simplesmente pressenti, você deveria ter pressentido também. Eu ressalto aqui: eu não tive culpa alguma. Foi algo muito cruel da parte de meu pai, veja bem, eu entrei no carro e ele disse: "Se despediu dos seus colegas?" "Não, por quê?" "Porque pra essa cidade, a partir de amanhã, você não volta mais." Júnior eu caí, foi um soco profundo, fundo, fundo. E foi isso, e eu queria explicar-lhe o que aconteceu, dizer-lhe adeus, ao menos - não tive chance. E desde esse dia nasceu uma imagem em minha mente, que aprecio muito, apesar de triste, que é de você ouvindo Yesterday dos Beatles e perguntando-se se um algum eu voltarei. E desde esse dia eu me pego ouvindo Patience da banda Guns N' Roses e prometendo que voltarei a essa cidade, baterei à porta da oficina de seus tios e perguntarei por você, para ao menos lhe dizer o adeus que faltou.
  Nós éramos apenas crianças, sim, eu sei, o drama é desnecessário, no entanto, o tempo fez de mim uma pessoa extremamente dramática e sentimental, inacreditável, não? Nós não passávamos de duas crianças e tudo o que eu dissesse na época seria apenas tolices infantis. Contudo, o tempo passou e hoje eu posso afirmar com convicção: o que eu senti era amor, simples, sincero e puro - o que só pode acontecer em corações ingênuos. Agora vejo o meu interior: nada ingênuo, nada puro. Talvez se eu lhe encontrasse novamente, então, eu pudesse ressuscitar o que há muito morreu em mim.
  Júnior, eu não falei pra mais ninguém sobre o John - até tentei, porém eles nunca demonstraram compreender verdadeiramente o que era o John. Só você.
  Só você. E eu sinto sua falta e das coisas estúpidas que fazíamos. E eu olho uma foto que eu tenho contigo, você fantasiado de príncipe e eu de bruxa - daquela peça da qual participamos - "A Bela Adormecida", se não me engano. E eu sorrio ao olhar esta foto. Eu sorrio ao lembrar de você. Éramos apenas crianças e isso não importa, pelo contrário, faz tudo ser ainda mais especial e mágico. Você sempre caía nas minhas "mágicas" falsas. Você sempre foi o ingênuo e eu sempre cruel. E eu sempre lhe amei, meu amigo.
  Eu prometo a mim mesma que um dia vou encontrá-lo por aí, em qualquer esquina e convidá-lo para tomar uma cerveja e ouvir Led Zeppelin, sem saber qual seria a sua resposta, sem saber se você bebe ou que estilo musical você gosta - sem saber que tipo de homem você se tornou. E quer saber? Não importa, eu sempre quis a sua companhia, independente de tudo. Eu sempre precisei de você para crescer e tornar-me uma pessoa melhor e agora... eu não cresço mais.

8 de set de 2011

O dia de minha utopia

Ei, está havendo uma crise de sentimento
Não sei mais
Quem é
O que é
Como é que se sente.

Hitler revelou seu pensamento
E era justamente sobre sentimento
E falou que se casaria
E falou "eu me sinto doente"
E perguntaram "o quê? Casamento?"
(E ninguém questionou a doença)
"Sim, e ela se chama Judia"
E todos assombrados olharam
E os narcisistas o acusaram
Seu crime era o arrependimento
E Hitler falou "é verdade!"
E seus olhos encheram-se de bondade
E ele morreu no outro dia

O dia de minha utopia.

7 de set de 2011

Borboletário

Inspira: corpo de volta à superfície. Expira: imerges, como sentes.
Inspira: sobes. Expira: Desces
Inspira. Expira.
Inspira.
Expira.
Respira.

A água entorpece meu corpo
Como ninguém mais o faria.
E a borboleta que beija meu rosto,
Sente meu gosto
E tão vazia,
Que voa.
Tão leve, vazia, vadia
Voa.

3 de set de 2011

Um novo jornalismo é possível

 Nossa terra é rica, sim senhor, e não estou falando em cultura, não. O Brasil tem muito dinheiro, estamos cientes disso, apesar de ser uma coisa distante da maioria de nossa gente. E o dinheiro rola e rola solto a todos que têm a sorte de colocar suas mãos ávidas nele. Sorte ou perspicácia? Descaramento! Todos nós estamos cheios disso, desse descaso dentre os poderosos. Fala-se diretamente de políticos? Falar-se-ia se não fosse algo tão repetitivo. Portanto, é do poder que a mídia exerce sobre nós que se fala agora.
 Então, todos se lembram do famoso termo: "alienados" e é exatamente esse o ponto. Os políticos são os reis dos alienados, e os reis nunca carregaram a culpa de toda a sujeira sozinhos.
 Há muito tempo atrás, buscando apoio na história, nós, o povo, a duras penas conseguimos o direito de votar. Para isso, nossos antepassados esforçaram-se ao máximo e sofreram de modo absurdo. E, por fim, conseguimos - homens, mulheres, pobres ou não, todos votamos diretamente em quem desejamos que nos represente. Então, já fazemos o que temos de fazer, votamos e não temos culpa se não há um mísero vivente que seja honesto para agir como nos confiou que agiria, diante de tal fato estão certos os que votam nulo - este é um grande e absurdo engano. Trata-se daquele conceito falso e preguiçoso de que "todo político é corrupto" -  no fundo sabemos que não é bem assim. De qualquer forma, aquele que vota nulo ainda é menos ignorante do que aquele que vota na mais bela propaganda ou no melhor discurso, caindo nas garras da mídia; ou aquele que vota em um palhaço por "protesto". Ainda assim, existem outras possibilidades.
 O primeiro grande passo: lutar contra a mídia. Sim, a mídia e os políticos corruptos fazem parte da mesma corja - um ajuda o outro e o resto que se dane. Os políticos com o dom da desviação de verba pública conseguem um ótimo tempo no horário político e não sofrem, como os outros políticos que acabam tornando-se anônimos, aquela distorção de tudo o que falam, e, se tudo "correr bem", grande parte da verba desviada pára nas mãos que controlam a mída - muito espertos. E os jornalistas, que estão lá para representar-nos e deixar-nos cientes de tudo o que acontece, deixam o dinheiro falar mais alto e os mais "respeitáveis" nunca citam nada sobre os escândalos que prejudicaria o protegido corrupto - os atos secretos continuam secretos. Infelizmente as coisas são realmente assim, os jornalistas deixam-se corromper. Muitos deles acreditam fazer um grande trabalho em seus programas de fofocas perseguindo celebridades - mesmo que a maioria dos famosos (recuso-me a usar banalmente a palavra "artista") realmente goste de ter sua vida exposta a toda população, se assim não fosse, não existiria Big Brother Brasil (nada concretamente contra este programa, apenas o meu bom senso).
 Portanto, cabe a vocês, jornalistas, não deixar-se vender; lembrar-se de seu papel: são os representantes do povo, este povo é cego e vocês são nossos olhos. Veja bem, enxergamos aqui o que nos mostra lá dentro. Vocês têm o acesso, o poder de seus microfones e da câmera ao vivo, o reconhecimento e o respeito, então, avante soldado. Do contrário, continuarão raros aqueles que fazem uma pesquisa relevante antes de votar, analisando tudo que foi feito antes pelo candidato e não acreditando cegamente em tudo que vê na televisão; muitos aqueles que por falta de opção votam nulo, desperdiçando a chance de tentar mudar alguma coisa; em demasia os ignorantes que votam no que já foi eleito há muito tempo pela mídia.
 Se um novo jornalismo é possível, um novo governo também o é - e está dito.