10 de ago de 2011

O jogo dos miseráveis

 Anna observava de uma distância considerável o modo como todos os presentes naquela sala tratavam Eddie: os mais velhos com uma ternura tão doce que a repugnava, e os mais novos com uma devoção descomunal, todos tão exagerados e tolos. Tão enganados que a deixavam com pena. Entretanto, ela sabia e ao pensar nisso, que sabia, ela sorria para si mesma - estava liberta, finalmente.

 - Será que ainda é difícil falar com você? - disse Eddie aproximando-se.
 - Não me lembro de ter imposto qualquer obstáculo ou estabelecido qualquer regra sobre distância - respondeu Anna aproximando-se, também, dele.
 - Sabe do que estou falando.
 - Mas é claro, não poderia ser tão hipócrita assim, eu não sei, você sabe, eu não sei - retrucou Anna friamente. Então, ele quer jogar, pensou.
 - Como é que é? - perguntou ele incrédulo. - Eu sabia que ainda seria difícil falar com você.
 - Por favor, você sabe do que estou falando - Anna abriu seu sorriso irônico, sua principal marca venenosa.
 - Por favor digo eu. Já se passou muito tempo, pelo amor de Deus, não podemos ter uma conversa civilizada...
 - Tudo bem, você tem razão. - Ela tinha algo de maligno na face, na mente, no coração e prosseguiu utilizando disso - toda a razão. Se você quer conversar, vamos conversar sobre algo que quero saber há algum tempo - falava lentamente, outra marca, também desagradável. - Como você se sente no meio de todas essas pessoas? -  disse fazendo um gesto para os outros que compartilhavam com eles a mesma sala.
 - O que quer dizer?
 - Depois de tudo o que aconteceu, agora que já não existem mágoas e nem nada, vamos colocar as cartas na mesa. Sabemos de sua hipocrisia e, por favor, não me interrompa se for para negar, pois não me custa virar as costas e lhe deixar falando sozinho - Ana falava olhando-o profundamente nos olhos, tentando ler cada expressão facial sua, com certa maldade, uma satisfação. - Nós dois sabemos quem você realmente é. E estou certa de que essas pessoas que tanto gostam de você e lhe admiram de um jeito incomum, só lhe veem dessa maneira por que não conhecem seu íntimo. Sabem apenas do que você quer mostrar e deixar aparecer. E desconhecem tudo aquilo que você esconde atrás dessa capa imaculada: a inocência suja, o caráter duvidoso, a personalidade contraditória, o excesso de álcool no sangue, a falta de dedicação na mente, a falsidade em todas as palavras ditas e escritas também, perdoe-me pela crueldade do que digo, mas sabemos que é verdade, não negue. Para eles você transpira doçura. Mas para mim, que já tenho os olhos abertos, graças a você, meu bem, obrigada, você transpira tudo que é falso e sujo - nesse momento ela inspirou o ar profundamente, sorrindo e ironizando, dando um toque especial em tudo que acabara de dizer. Ela alimentava a dor na face dele, e sentia-se cada vez mais satisfeita consigo mesma. Ela sabia que ele sabia que ela sabia que estava correta em tudo que dizia, e sabia que isso causava uma dor intensa nele, era por isso que ela continuava, apenas para isso: ver a dor tomando conta de cada célula do corpo dele ao ouvir uma verdade conhecida, mas que ninguém ousava lembrá-lo. Contava pontos a cada fisgada de dor que lhe transcorria o corpo. - Eu conheço seu íntimo, Eddie, não conseguiu escondê-lo de mim. E não precisa me olhar assim, isso já não me convence. Eu não tenho a intenção de revelar a ninguém, pois me sinto, mesmo, privilegiada por ser uma das únicas a conhecer o que há por trás dessa máscara. E sabe, seria terrível, pois só há duas opções quando conhecem seu íntimo...
 - E quais são essas opções? - interrompeu Eddie mudando subitamente sua expressão ofendida para algo sarcástico, quase como ela. Ele havia entrado no jogo, e por mais que Anna estivesse surpresa, gostara disso, ela não via ele como alguém tão capaz quanto ela. Era um lado dele que ela sempre quis conhecer: a vileza por trás da sensibilidade.
 - Ou lhe amar com toda a alma, ou lhe odiar profundamente - dizendo isso, Anna viu-o sorrir. Então, ela completou desafiando-o - e acredito mais na segunda opção - este deveria ser o xeque-mate se ele não houvesse expandido ainda mais o sorriso. Em vez de dolorido, parecia reluzente. Ele estava saindo-se muito bem no jogo, para o espanto de Anna.
 - Você me odeia, Anna? Odeia profundamente? - perguntou Eddie, agora sorrindo apenas com os olhos. Como se dissesse: vá em frente, coloque as cartas na mesa.
 Ela demorou para responder. Foi pega de surpresa, ele reagira no final do segundo tempo. E antes de dar sua última jogada ela pensou: é hipócrita e vil, ainda assim, está a minha altura. - Não! - respondeu, quase se arrependendo da resposta. Porém, sinceridade era a regra principal do jogo, não era? Por isso tudo o mais era perdoável, a sinceridade traz consigo a crueldade. Ele fora, finalmente, sincero com ela. Ela também deveria ser (para não inverter a situação). Ela desviou o olhar para baixo, sentindo o olhar dele sobre ela. O jogo acabara então, Eddie ganhara. E ele sequer precisou citar qual opção sobrara. Ele não foi tão cruel assim. Ele, o grande hipócrita, era melhor do que ela.

2 comentários:

  1. Nossa, quero ler mais, você escreve muito bem. *-*

    ResponderExcluir
  2. Quando no final foi escrito "ele, o grande hipócrita" fez mais sentido o texto.
    Porque por trás da sua sinceridade dava para perceber claramente a segunda intenção... então o que significa sinceridade se existe uma segunda intenção por trás???
    Belo texto!

    ResponderExcluir