20 de ago de 2011

Memento Mori

 - Sabe que eu adoro gatos em geral, mas o meu, por ser meu, vale mais que todos - Anna dizia a John enquanto olhavam admirados o gato perseguindo sua caça, uma inofensiva cigarra. - E o meu principal motivo de voltar pra casa todos os dias é essa bola de pelos com gigantes olhos amarelos.
 - É um lindo motivo. Eu também sou apaixonado por esse gato. Contudo, já está na hora de melhorar a situação com seus pais, não acha? - John falava com sincera preocupação, mesmo sabendo que de nada adiantaria, ele mesmo concordava com o fato de que não tinha como aceitar os erros dos pais dela.
 - Eu amo meus pais e não há mais nada que eu possa fazer. Eu sei que não concordo com eles, mas os compreendo, ao menos. Eles poderiam me aceitar também. Eles são especiais para mim, mas as atitudes que eles tomam nas horas mais sensíveis são repugnantes. O apoio todo se dissolve quando eu realmente preciso. O orgulho que eles sentem é na verdade uma imensa cobrança em cima de mim. E eu já não posso suportar - ela olhou para o John arqueando as sobrancelhas, insinuando o que ele já sabia. - Essa última de meu pai foi o fim, sabe...
 - Realmente, terei de concordar, eu não esperava que fosse capaz de tal ato - John sempre a compreendia, mesmo tendo vontade de repreendê-la às vezes. - Porém, Anna, fim é um exagero, não acha?
 - É, mas não me expressei mal, não dessa vez. É o fim da admiração que eu sentia. E isso valia muita coisa pra mim... - ela olhou para baixo, demonstrando pela primeira vez desde o início da conversa a sua real tristeza. - Ele não criticou com palavras horríveis algo que gosto ou que eu esteja fazendo. Ele se referia, mesmo sem saber, a quem eu sou, entende? Ele acha que estou assim. Mas não, sou assim. E é tão ruim, John? Eu sou realmente uma pessoa ruim?
 - Claro que não. Você sabe, ele te ama, só não compreende. Ele tem muito orgulho de você, olha o que ele fala de você para todo mundo que vê. Você é a melhor coisa da vida dele. Ele só perde o controle por não conseguir te entender completamente. Você é especial demais; demais pra cabeça dele; demais pra todo mundo. E, sinceramente, acredito que só eu não me surpreenda. Só eu te conheço perfeitamente, Anna. E por favor, não mude por ser minoria. Você é rara, mas não está, de forma alguma, errada.
 - É pra isso que conto contigo, John. Eu estou crescendo, você está vendo. Apenas, por favor, não me deixe me tornar como eles, você sabe, adultos sérios e preocupados. Eu quero fugir disso. Eu só quero ser feliz, só isso.
 - Eu sei - disse ele sorrindo. - É por isso que eles não te compreendem. Eles nunca compreenderão gente como você, como nós. A gente tem de fugir disso, dessa vida imposta e aceitável, tornando-se cada vez mais detestável. Seremos felizes pelo resto de nossas vidas. Seremos o que somos, eternas crianças, eu e você e se encontrarmos alguém como nós, salvaremos também. Não temos de nos importar com os outros, com o resto...
 - Isso talvez seja um tanto egoísta - disse Anna refletindo.
 - Egoísta com eles? E se fossemos egoístas com nós próprios? Acredito que seria pior - John já estava salvando-a, aos poucos. Jamais deixaria que ela se entregasse. Ela não era normal, como ele. E John faria mais do que o possível para ela nunca o ser. Ele tinha mais percepção da realidade do que muita gente e sabia que ela também. Nunca a deixaria para trás. - E não é nada ruim, nem você, nem eu. Eles é que estão julgando a gente, querendo trilhar o nosso caminho. E mesmo assim nós os compreendemos, por isso somos melhores. Infelizmente não podemos salvá-los, mas já é um grande passo que nos salvemos. Continuamos assim, certo? Vivendo cada dia como se fosse o único, dentro de nossas infâncias, amando cada árvore, cada planta, animais, céu e mar.
 - E pessoas também - completou Anna, sentindo-se bem novamente.
 - Claro, é o mais importante. Todo o universo será nosso, sabe como. Em busca da Terra do Nunca, minha garota.
 - Memento Mori, John - Anna sorria como ele, agora. - Não vamos nos esquecer.
 - De jeito nenhum - ele ficava feliz por conseguir impedi-la de cair no abismo que os aguardava faminto. Ele ficava verdadeiramente feliz, como só uma criança de alma profunda poderia. E seus olhos brilhavam enquanto ele a olhava. Ela era a única, além dele, que poderia compreender o significado de tudo: "a vida tem de ser vivida como se cada dia fosse o último." Esta frase tornou-se tão comum que perdeu o grau de intensidade, e são raros os que lhe dão digna importância. Exatamente como aconteceu com a concepção de que um dia todos realmente irão morrer, e, por isso, morrem mais depressa, morrem estando vivos. - Só vamos enxergar o escuro quando formos finalmente engolidos por ele, por enquanto contemplemos a luz e todas as cores. E esqueçamos aqueles que em meio a toda luz apenas veem a escuridão, acreditando que é no fim que tudo fica bem; sem saber que o fim, como o próprio nome diz, é quando tudo acaba. E mais nada.

Um comentário:

  1. Simples e muito bem escrito ^^
    PARABÉNS
    http://cantinhocomtudo.blogspot.com/

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