22 de ago de 2011

Em linha reta

     Aquela cafeteria poderia não ser um lugar muito agradável, no entanto, tinha o melhor café do mundo e Anna saboreava-o lentamente, não querendo sentir o tempo passar. Não, ela não estava esperando ninguém, apesar de ter falado a Eddie que se ele quisesse realmente conversar, como dissera pela manhã, ela estaria ali, naquela cafeteria, naquele horário. Não, ela não estava esperava que ele fosse, pelo contrário, ela aprendera a não esperar nada dele. 
     Anna dissera que estaria lá às seis horas da tarde, o seu horário de sempre, e já eram quase sete horas, ele não aparecera, como ela imaginara. Então, levantou-se tranquilamente para ir embora e ao se virar deparou-se com Eddie olhando-a completamente imóvel.
     - Olá - disse ele num sobressalto.
     - O que está fazendo parado aí? - perguntou Anna assustada.
     - A gente combinou de se encontrar aqui, se esqueceu? - Eddie parecia nervoso em seu sarcasmo.
     - Sim, mas às seis horas, já são sete e eu estou indo embora - disse Anna sorrindo e desculpava-se, por mais que o erro do atraso fosse dele.
     - Perdão. Eu tive um problema - Eddie parecia ainda mais nervoso. - Não pode ficar por mais uma meia hora? Eu realmente estava contente com a ideia de poder falar com você... como antes.
     - Tudo bem, acho que mais um café não irá me fazer mal.
     Os dois sentaram-se à mesa na qual ela estava ocupando.

     - Não vai pedir seu café? - Anna perguntou rindo. - O que está fazendo? - Eddie estava absorto em seus pensamentos, olhando-a maravilhado, de forma quase tola, pensando em como ela estava diferente, alegre, sem ressentimentos ou mágoas, não era a Anna de um mês atrás, e sim a Anna de um ano atrás.
    - Claro, claro, desculpe - respondeu Eddie rindo e pediu o café.
    Tomaram os primeiros goles em silêncio e a tensão tornava-se a cada segundo mais acentuada, apesar da amabilidade de ambos. Eles sabiam o que os levara até ali, o que precisavam conversar e principalmente, sabiam de seu passado.

     - Você parece muito bem - Eddie quebrou o silêncio e sem obter resposta prosseguiu - quase não acreditei quando me disse sorrindo que não via problema algum em conversar comigo.
     - Não vejo problema algum, mesmo - retrucou Anna tornando-se séria de repente, querendo demonstrar toda a veracidade de suas palavras. - Existe algum problema para você, Eddie? - e, dizendo isto, lançou-lhe um olhar bastante significativo.
     - Não, não... acho que não - então, olhou-a com a expressão levemente triste. - E acho que você sabe muito bem o que quero dizer. Há muitas coisas que queria falar e que já tentei muitas vezes, mas nossas conversas nunca tomavam um bom rumo.
    - É verdade, mas você sabe, era muito difícil para mim. Mas agora passou e peço-lhe desculpas pela minha imaturidade.
    - Como é que é? Você não tem de pedir desculpas, eu é que tenho e queria justamente fazer isso.
    - Eu sei que não tenho de pedir e você também não.

     Os dois olharam-se profundamente, querendo entender um ao outro, sem muito sucesso. Então Eddie sorriu angustiado e olhou para baixo.
    - Você me odeia, não é? Sei que tem todos os motivos para isso, eu menti para você, da pior maneira possível, menti sobre quem eu era e o que eu fazia, menti sobre ter mentido e tornei a mentir. Você com certeza me odeia, mas é muito boa para assumir tal sentimento. E tenha certeza de que não era isso o que eu queria, eu te admiro demais, demais e me sinto péssimo por ter errado com você, por ter sido tão infame e detestável - Eddie hesitou e observou-a olhando-o paciente, esperando que concluísse, então balançou a cabeça sôfrego e continuou - como não odiaria? Certamente me julga vil, no pior sentido da vileza.
     - Então é só você que é vil e errôneo nesta terra? - Anna perguntou e os dois sorriram incontidos com a aquela citação de uma poesia de um de seus escritores favoritos. - Com certeza Álvaro de Campos concordaria comigo que não, absolutamente.
    - Há poucos dias eu achei que você ficaria feliz com a minha cabeça em uma bandeja e agora recebo esse maravilhoso sorriso.
    - Como eu disse antes, eu estava sendo imatura, mas em algum momento temos de crescer, concorda? - e olhou-o insinuante.
    - Não posso crer que tenha sido mais imatura do que eu - disse Eddie.
    - Eu também não - os dois riram livrando-se definitivamente do que sobrara de suas tensões. - O que eu quero dizer é que aprendi muito com tudo o que aconteceu.
    - Aprendeu exatamente o quê?
    - O básico, aquilo que todos deveriam saber, que eu acreditava que sabia e percebi muito tarde que não, pois eu fiz justamente o contrário do que minha consciência prega: eu não compreendi e... julguei. Logo eu que detesto julgamentos...
    - Você teve suas razões - Eddie interrompeu-a.
    - Talvez... mas não é justificável - Anna hesitou, tomou seu café e escolheu bem as palavras que diria a seguir, apesar de tudo e de todo o tempo que se passara, ela ainda gostava de impressioná-lo com o que falava, era um prazer inexplicável. - Quando as pessoas nos enganam e mentem sobre toda a sujeira que escondem, nossa primeira reação é chamar-lhes de "canalhas" ou de coisas piores, falar todas as coisas horríveis que nos vêm à mente e depois sair por aí difamando-as, dizendo que não são dignas de confiança, que são umas filhas-da-puta-mentirosas e o diabo a quatro. Nós acreditamos na verdade falsa de que somos as "vítimas" e que quem mentiu para nós são os "vilões". E o mais engraçado de tudo é que quando descobrem uma mentira nossa, e temos de escutar todos essas coisas que dizemos quando somos as "pobres-inocentes-enganadas", não acreditamos realmente que somos tão terríveis quanto ouvimos que somos, tampouco que eles são tão vítimas assim, pelo contrário, achamos que somos bons o suficiente para arrepender-nos de nossos atos e que eles são excessivamente dramáticos por julgar-nos tão miseráveis. O caso é que nós nos conhecemos o bastante para saber que não somos pessoas más, que mentimos apenas por que somos humanos e errar é inevitável. E isso está certo, o que está errado é que em alguma outra hora nós julgamos que é sem caráter aquele que está sendo infame conosco. Nós nos esquecemos que em outros momentos nós é quem fomos os sujos, mentirosos, abusadores do uso de máscaras das quais escondem toda a podridão; esquecemo-nos que também desfrutamos da vileza. Nós, os "bons samaritanos" deste instante, não lembramos sequer de checar o nosso prazo de validade antes de apontar o dedo e falar: você não presta. E é um absurdo tudo isso, é muito hipócrita; somos todos grandes hipócritas, eu vejo, você não vê? Somos hipócritas profissionais - ela tomou o último gole de café que restara, já estava frio, mas não importava. - A grande verdade humana: todos nós mentimos e nenhum mentiroso tem o direito de julgar o outro.
     - Perfeitas palavras, quando eu acho que não poderia, você vem e me surpreende - Eddie conseguiu dizer apenas.
     - E ao fim de tudo eu só tenho, ainda, uma única queixa de você - Anna lamentou, sem conseguir parecer realmente sentida.
     - E qual é? - Eddie perguntou repentino, sem demonstrar desapontamento.
     - De todos os seus erros, o único que eu acredito ser incompreensível foi o fato de dizer que era pra sempre algo que não poderia ser previsto. Mas é claro, não pôde evitar - Ele apenas abaixou a cabeça e, então, ela continuou - o resto não foi sua culpa, parece um absurdo eu dizer isso, mas são coisas que acontecem. Você achou outra pessoa, uma oportunidade de amor possível, contrária da nossa e não soube como me avisar nem como lidar com isso. As outras mentiras sobre a bebida, sobre as outras coisas também devem ter a sua explicação, sempre há. Eu compreendo, ao menos tento, e mesmo que eu esteja errada sobre minhas concepções e seus motivos terem sido outros, não importa, nada importa - ela hesitou - apenas que a admiração que sentia por você está de volta e que por trás de todos os resíduos do que aconteceu existe algo mágico e especial. E quando eu penso bem, consciente e segura, eu chego a seguinte conclusão: foi bom, não interessa o resto, foi bom.

     Ele tinha os olhos marejados, nenhum dos dois descreveriam o que sentiam naquele instante de forma diferente: uma imensa paz, finalmente, haviam encontrado a paz que procuraram durante todo aquele período turbulento do qual passaram.

     - Eu não acredito que deixei que você escapasse. É única no mundo - disse Eddie. - Se eu tivesse outra chance de retornar ao passado... 
     Anna controlou seu corpo inteiro, todas as sensações e pensamentos. Sabia que ele não deveria ter falado isso, porém, mais uma vez, compreendeu-o 
     - Eu tenho de ir embora. Nos falamos - Anna levantou-se e se foi. Eddie ficou. Ninguém faria nada. Não havia o que fazer quando tudo acabava dessa forma - bem.

2 comentários:

  1. Seu Blog parece ser legal
    Confesso que n lí o POST todo, só o Início, mas a história é bem legal
    Olha, por mim, quando seus textos forem muito grande, posta por partes
    assim ninguém vai ler n :S
    Msm assim, PARABÉNS pelas belas palavras que lí :)

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  2. Nossa, teu texto é muito bom.. Me senti no texto, pela forma que escreves.
    http://lollyoliver.wordpress.com/

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