28 de ago de 2011

Jupiter's lament

     Alexandra e Kate mais riam do que conversavam, radiantes por finalmente chegarem à praia. Estavam esperando por Anna no quiosque, esta ficara para trás olhando detalhadamente tudo do local, cada rocha, cada pedaço de areia, cada onda, sempre fascinada com tudo. Então Alexandra viu à mesa ao lado um grupo com três homens e reconheceu um deles, o mais velho, ao que parecia.
     - Olha quem está ali - Alexandra apontou discretamente para o homem de boné, barba e camiseta azul-marinho. - Eddie.
     - Ah, não, Anna não vai gostar nem um pouco de vê-lo quando chegar.
     - Não, acho que não terá problema algum. Ela própria me contou que a poucas semanas atrás conversou civilizadamente com ele e se entenderam.
     - Mas ela não me disse nada e, sinceramente, eles podem ter se entendido, mas eu não acredito que esteja tudo bem entre eles, não realmente, se é que me entende, depois de tudo que aconteceu...

     Calaram-se ao ver Anna aproximar-se reluzente e corada, ainda mais radiante do que as duas, esse tipo de passeio fazia muito bem a ela.
     - E aí, meninas - disse Anna sorridente. - Lindo este lugar, esta praia é maravilhosa. Adorei principalmente aquela parte ali - apontou para o lugar mais distante e isolado, onde findava a praia e iniciava-se um deslumbrante verde com a precedência de algumas rochas.
     - Você! sempre preferindo o que é deserto e fugindo do movimento - disse Kate divertindo-se. - Justo o movimento que é o mais importante.
     Ela olhou para Alexandra, as duas estavam apreensivas, não sabiam como falar que Eddie estava logo ali, ao lado. Anna poupou-as do constrangimento, pois a viram olhando repentinamente na direção dele e ficando imobilizada. E de modo mais estranho, ele olhara ao mesmo tempo e teve a mesma reação que ela. As duas assistiam constrangidas os dois fitando-se com a face surpresa e os olhos fixos um no outro. Então, Anna voltando ao normal primeiro, fingiu que não vira nada e olhou-as completamente perdida.
     - Eu esqueci... tenho de ver uma coisa na pousada, eu volto mais tarde - ela hesitou quando percebeu que as suas amigas sabiam o que estava acontecendo e que podia confiar nelas. - Eu não quero ficar aqui agora, quero dar uma volta, admirar um pouco mais o mar. Vocês entendem...
     As duas concordaram compreensivas e ela foi ao encontro das sublimes águas salgadas que tanto amava. Estava assombrosamente encantadora molhando seu vestido de uma cor idêntica a do mar; o vestido misturava-se às águas e só era diferenciado pelos desenhos amarelos e levemente alaranjados de girassóis. De repente Eddie também se levantou e foi em direção ao mar, mais especificamente, em direção à Anna. As duas amigas olhavam estupefatas, pensando que ele iria falar com ela, todavia, ele parou com alguns metros de distância dela. Ele ficou um certo tempo assim, contemplando-a enquanto ela contemplava o infinito que se seguia à sua frente. E veio em sua mente pensamentos turbulentos: "será que as coisas poderiam ter sido diferentes? Se eu tivesse me entregado ao desconhecido, como sei que ela faria...? Eu poderia ter ao menos tentando. Não, não posso acreditar sinceramente nisso. Nada que quiséssemos seria permitido. Simplesmente não era permitido... " Ele refletia tristemente, com um sorriso tolo no rosto e um brilho intenso nos olhos. Então, como se ela sentisse que estava sendo vigiada, olhou subitamente para trás e nesse momento a expressão de antes voltara e os dois permaneceram quietos, olhando-se entorpecidos e assombrados. Contudo as feridas que ele mesmo deixara nela, agora cicatrizadas, fizeram dela forte, por isso, ela foi a primeira a retornar a si. Cumprimentou-o com um simples "olá" e forçou inultimente um sorriso amável, virou-lhe as costas e foi embora. Deixando-o abismado, arruinado como muitas vezes o fizera.
 Eddie não pôde mover-se por longos segundo e, então, caiu de joelhos com as lágrimas suavemente escorrendo em seu rosto, amenizando a dor. Observou-a afastando-se cada vez mais, deixando marcas na areia branca e em seu íntimo. Viu-a ir cada vez mais longe, como a gravidade, o ar e tudo que o rodeava. Sabia que já tinha perdido seu corpo, que nunca tivera, de vez e para sempre, porém ainda acreditava ter sua alma. Agora sabia, não a tinha mais. "Nós nos perdemos pela eternidade, e eu já não tenho meus segredos. Então você vai partir, sim, cada vez mais distante." Ele não controlava seus pensamentos, não cessava suas lágrimas, não se movia, mal respirava. Acompanhado pelo som do mar. De joelhos, acompanhado apenas pelo mar.
     De repente vislumbrou alguém vindo ao seu encontro, na mesma trilha que ela fora, agora voltava. Ela estava voltando, lentamente, balançando o corpo e a cabeça com seu jeito de andar. Uma segunda chance, ele não seria mais tão estúpido e perguntaria logo que ela chegasse: "O que é aquilo?" - E apontaria para o imenso e belo infinito do horizonte - "É o que nos espera!" Ela parou em sua frente, ele olhou para cima, ainda de joelhos, pelos olhos inchados não podia enxergar com clareza. Ele esperou que ela se lamentasse, pedisse que ele fosse embora, que não a surpreendesse mais daquela forma, que a deixasse em paz de uma vez por todas, agora que ela conseguira, finalmente, seguir em frente sem rancor. Contudo, ela não o fez, pelo contrário, se ajoelhou em sua frente, olhando diretamente em seus olhos. Ela tocou seu rosto, era a primeira vez que EddieAnna, e sim a Sol.
     - O que está fazendo? - ela perguntou com um sorriso, tentando esconder o espanto.
     "Não é a Anna", foi o primeiro pensamento, "é a Sol". Então olhou por um minuto seu sorriso, era realmente lindo e seus olhos castanhos, levemente mais claros do que os de Anna, eram grandes e brilhantes. Ela era sua e isso o deixava contente.Sol tinha tanta personalidade quanto Anna, porém era muito mais doce e um pouco mais madura. E, principalmente, podia estar com ele. Era permitido.
     - Estava pensando em você - disse beijando-a uma vez - e em como eu agradeceria a Deus, se acreditasse - e beijou-a novamente - por você ter voltado depois de tudo que eu fiz - beijou-a pela terceira vez.
     - Eu sei que Anna está aqui - Sol disse afastando-se um pouco e de repente. 
     Eddie fingiu não ter ouvido ou não ter dado a mínima importância e disse de súbito - eu te amo! - Sol acreditou na sinceridade de tais palavras, entretanto ela sabia exatamente em que ou, especificamente, em quem ele estava pensando antes. De qualquer forma, não evitou outro sorriso. Os dois levantaram-se e de mão dadas foram encontrar o mar. Juntos, como deveria ser.

     Havia alguns metros dali, Anna observava a cena com os olhos repletos de lágrimas, um misto de ternura e tristeza em sua face e um sorriso sincero. "Tudo ficará bem para todos. Tudo ficará perfeitamente bem." Ela falava consigo mesma. E era exatamente dessa maneira que as coisas tinham de ser. E o céu estaria sempre ali por ela, e o mar estava verde.

22 de ago de 2011

Em linha reta

     Aquela cafeteria poderia não ser um lugar muito agradável, no entanto, tinha o melhor café do mundo e Anna saboreava-o lentamente, não querendo sentir o tempo passar. Não, ela não estava esperando ninguém, apesar de ter falado a Eddie que se ele quisesse realmente conversar, como dissera pela manhã, ela estaria ali, naquela cafeteria, naquele horário. Não, ela não estava esperava que ele fosse, pelo contrário, ela aprendera a não esperar nada dele. 
     Anna dissera que estaria lá às seis horas da tarde, o seu horário de sempre, e já eram quase sete horas, ele não aparecera, como ela imaginara. Então, levantou-se tranquilamente para ir embora e ao se virar deparou-se com Eddie olhando-a completamente imóvel.
     - Olá - disse ele num sobressalto.
     - O que está fazendo parado aí? - perguntou Anna assustada.
     - A gente combinou de se encontrar aqui, se esqueceu? - Eddie parecia nervoso em seu sarcasmo.
     - Sim, mas às seis horas, já são sete e eu estou indo embora - disse Anna sorrindo e desculpava-se, por mais que o erro do atraso fosse dele.
     - Perdão. Eu tive um problema - Eddie parecia ainda mais nervoso. - Não pode ficar por mais uma meia hora? Eu realmente estava contente com a ideia de poder falar com você... como antes.
     - Tudo bem, acho que mais um café não irá me fazer mal.
     Os dois sentaram-se à mesa na qual ela estava ocupando.

     - Não vai pedir seu café? - Anna perguntou rindo. - O que está fazendo? - Eddie estava absorto em seus pensamentos, olhando-a maravilhado, de forma quase tola, pensando em como ela estava diferente, alegre, sem ressentimentos ou mágoas, não era a Anna de um mês atrás, e sim a Anna de um ano atrás.
    - Claro, claro, desculpe - respondeu Eddie rindo e pediu o café.
    Tomaram os primeiros goles em silêncio e a tensão tornava-se a cada segundo mais acentuada, apesar da amabilidade de ambos. Eles sabiam o que os levara até ali, o que precisavam conversar e principalmente, sabiam de seu passado.

     - Você parece muito bem - Eddie quebrou o silêncio e sem obter resposta prosseguiu - quase não acreditei quando me disse sorrindo que não via problema algum em conversar comigo.
     - Não vejo problema algum, mesmo - retrucou Anna tornando-se séria de repente, querendo demonstrar toda a veracidade de suas palavras. - Existe algum problema para você, Eddie? - e, dizendo isto, lançou-lhe um olhar bastante significativo.
     - Não, não... acho que não - então, olhou-a com a expressão levemente triste. - E acho que você sabe muito bem o que quero dizer. Há muitas coisas que queria falar e que já tentei muitas vezes, mas nossas conversas nunca tomavam um bom rumo.
    - É verdade, mas você sabe, era muito difícil para mim. Mas agora passou e peço-lhe desculpas pela minha imaturidade.
    - Como é que é? Você não tem de pedir desculpas, eu é que tenho e queria justamente fazer isso.
    - Eu sei que não tenho de pedir e você também não.

     Os dois olharam-se profundamente, querendo entender um ao outro, sem muito sucesso. Então Eddie sorriu angustiado e olhou para baixo.
    - Você me odeia, não é? Sei que tem todos os motivos para isso, eu menti para você, da pior maneira possível, menti sobre quem eu era e o que eu fazia, menti sobre ter mentido e tornei a mentir. Você com certeza me odeia, mas é muito boa para assumir tal sentimento. E tenha certeza de que não era isso o que eu queria, eu te admiro demais, demais e me sinto péssimo por ter errado com você, por ter sido tão infame e detestável - Eddie hesitou e observou-a olhando-o paciente, esperando que concluísse, então balançou a cabeça sôfrego e continuou - como não odiaria? Certamente me julga vil, no pior sentido da vileza.
     - Então é só você que é vil e errôneo nesta terra? - Anna perguntou e os dois sorriram incontidos com a aquela citação de uma poesia de um de seus escritores favoritos. - Com certeza Álvaro de Campos concordaria comigo que não, absolutamente.
    - Há poucos dias eu achei que você ficaria feliz com a minha cabeça em uma bandeja e agora recebo esse maravilhoso sorriso.
    - Como eu disse antes, eu estava sendo imatura, mas em algum momento temos de crescer, concorda? - e olhou-o insinuante.
    - Não posso crer que tenha sido mais imatura do que eu - disse Eddie.
    - Eu também não - os dois riram livrando-se definitivamente do que sobrara de suas tensões. - O que eu quero dizer é que aprendi muito com tudo o que aconteceu.
    - Aprendeu exatamente o quê?
    - O básico, aquilo que todos deveriam saber, que eu acreditava que sabia e percebi muito tarde que não, pois eu fiz justamente o contrário do que minha consciência prega: eu não compreendi e... julguei. Logo eu que detesto julgamentos...
    - Você teve suas razões - Eddie interrompeu-a.
    - Talvez... mas não é justificável - Anna hesitou, tomou seu café e escolheu bem as palavras que diria a seguir, apesar de tudo e de todo o tempo que se passara, ela ainda gostava de impressioná-lo com o que falava, era um prazer inexplicável. - Quando as pessoas nos enganam e mentem sobre toda a sujeira que escondem, nossa primeira reação é chamar-lhes de "canalhas" ou de coisas piores, falar todas as coisas horríveis que nos vêm à mente e depois sair por aí difamando-as, dizendo que não são dignas de confiança, que são umas filhas-da-puta-mentirosas e o diabo a quatro. Nós acreditamos na verdade falsa de que somos as "vítimas" e que quem mentiu para nós são os "vilões". E o mais engraçado de tudo é que quando descobrem uma mentira nossa, e temos de escutar todos essas coisas que dizemos quando somos as "pobres-inocentes-enganadas", não acreditamos realmente que somos tão terríveis quanto ouvimos que somos, tampouco que eles são tão vítimas assim, pelo contrário, achamos que somos bons o suficiente para arrepender-nos de nossos atos e que eles são excessivamente dramáticos por julgar-nos tão miseráveis. O caso é que nós nos conhecemos o bastante para saber que não somos pessoas más, que mentimos apenas por que somos humanos e errar é inevitável. E isso está certo, o que está errado é que em alguma outra hora nós julgamos que é sem caráter aquele que está sendo infame conosco. Nós nos esquecemos que em outros momentos nós é quem fomos os sujos, mentirosos, abusadores do uso de máscaras das quais escondem toda a podridão; esquecemo-nos que também desfrutamos da vileza. Nós, os "bons samaritanos" deste instante, não lembramos sequer de checar o nosso prazo de validade antes de apontar o dedo e falar: você não presta. E é um absurdo tudo isso, é muito hipócrita; somos todos grandes hipócritas, eu vejo, você não vê? Somos hipócritas profissionais - ela tomou o último gole de café que restara, já estava frio, mas não importava. - A grande verdade humana: todos nós mentimos e nenhum mentiroso tem o direito de julgar o outro.
     - Perfeitas palavras, quando eu acho que não poderia, você vem e me surpreende - Eddie conseguiu dizer apenas.
     - E ao fim de tudo eu só tenho, ainda, uma única queixa de você - Anna lamentou, sem conseguir parecer realmente sentida.
     - E qual é? - Eddie perguntou repentino, sem demonstrar desapontamento.
     - De todos os seus erros, o único que eu acredito ser incompreensível foi o fato de dizer que era pra sempre algo que não poderia ser previsto. Mas é claro, não pôde evitar - Ele apenas abaixou a cabeça e, então, ela continuou - o resto não foi sua culpa, parece um absurdo eu dizer isso, mas são coisas que acontecem. Você achou outra pessoa, uma oportunidade de amor possível, contrária da nossa e não soube como me avisar nem como lidar com isso. As outras mentiras sobre a bebida, sobre as outras coisas também devem ter a sua explicação, sempre há. Eu compreendo, ao menos tento, e mesmo que eu esteja errada sobre minhas concepções e seus motivos terem sido outros, não importa, nada importa - ela hesitou - apenas que a admiração que sentia por você está de volta e que por trás de todos os resíduos do que aconteceu existe algo mágico e especial. E quando eu penso bem, consciente e segura, eu chego a seguinte conclusão: foi bom, não interessa o resto, foi bom.

     Ele tinha os olhos marejados, nenhum dos dois descreveriam o que sentiam naquele instante de forma diferente: uma imensa paz, finalmente, haviam encontrado a paz que procuraram durante todo aquele período turbulento do qual passaram.

     - Eu não acredito que deixei que você escapasse. É única no mundo - disse Eddie. - Se eu tivesse outra chance de retornar ao passado... 
     Anna controlou seu corpo inteiro, todas as sensações e pensamentos. Sabia que ele não deveria ter falado isso, porém, mais uma vez, compreendeu-o 
     - Eu tenho de ir embora. Nos falamos - Anna levantou-se e se foi. Eddie ficou. Ninguém faria nada. Não havia o que fazer quando tudo acabava dessa forma - bem.

20 de ago de 2011

Memento Mori

 - Sabe que eu adoro gatos em geral, mas o meu, por ser meu, vale mais que todos - Anna dizia a John enquanto olhavam admirados o gato perseguindo sua caça, uma inofensiva cigarra. - E o meu principal motivo de voltar pra casa todos os dias é essa bola de pelos com gigantes olhos amarelos.
 - É um lindo motivo. Eu também sou apaixonado por esse gato. Contudo, já está na hora de melhorar a situação com seus pais, não acha? - John falava com sincera preocupação, mesmo sabendo que de nada adiantaria, ele mesmo concordava com o fato de que não tinha como aceitar os erros dos pais dela.
 - Eu amo meus pais e não há mais nada que eu possa fazer. Eu sei que não concordo com eles, mas os compreendo, ao menos. Eles poderiam me aceitar também. Eles são especiais para mim, mas as atitudes que eles tomam nas horas mais sensíveis são repugnantes. O apoio todo se dissolve quando eu realmente preciso. O orgulho que eles sentem é na verdade uma imensa cobrança em cima de mim. E eu já não posso suportar - ela olhou para o John arqueando as sobrancelhas, insinuando o que ele já sabia. - Essa última de meu pai foi o fim, sabe...
 - Realmente, terei de concordar, eu não esperava que fosse capaz de tal ato - John sempre a compreendia, mesmo tendo vontade de repreendê-la às vezes. - Porém, Anna, fim é um exagero, não acha?
 - É, mas não me expressei mal, não dessa vez. É o fim da admiração que eu sentia. E isso valia muita coisa pra mim... - ela olhou para baixo, demonstrando pela primeira vez desde o início da conversa a sua real tristeza. - Ele não criticou com palavras horríveis algo que gosto ou que eu esteja fazendo. Ele se referia, mesmo sem saber, a quem eu sou, entende? Ele acha que estou assim. Mas não, sou assim. E é tão ruim, John? Eu sou realmente uma pessoa ruim?
 - Claro que não. Você sabe, ele te ama, só não compreende. Ele tem muito orgulho de você, olha o que ele fala de você para todo mundo que vê. Você é a melhor coisa da vida dele. Ele só perde o controle por não conseguir te entender completamente. Você é especial demais; demais pra cabeça dele; demais pra todo mundo. E, sinceramente, acredito que só eu não me surpreenda. Só eu te conheço perfeitamente, Anna. E por favor, não mude por ser minoria. Você é rara, mas não está, de forma alguma, errada.
 - É pra isso que conto contigo, John. Eu estou crescendo, você está vendo. Apenas, por favor, não me deixe me tornar como eles, você sabe, adultos sérios e preocupados. Eu quero fugir disso. Eu só quero ser feliz, só isso.
 - Eu sei - disse ele sorrindo. - É por isso que eles não te compreendem. Eles nunca compreenderão gente como você, como nós. A gente tem de fugir disso, dessa vida imposta e aceitável, tornando-se cada vez mais detestável. Seremos felizes pelo resto de nossas vidas. Seremos o que somos, eternas crianças, eu e você e se encontrarmos alguém como nós, salvaremos também. Não temos de nos importar com os outros, com o resto...
 - Isso talvez seja um tanto egoísta - disse Anna refletindo.
 - Egoísta com eles? E se fossemos egoístas com nós próprios? Acredito que seria pior - John já estava salvando-a, aos poucos. Jamais deixaria que ela se entregasse. Ela não era normal, como ele. E John faria mais do que o possível para ela nunca o ser. Ele tinha mais percepção da realidade do que muita gente e sabia que ela também. Nunca a deixaria para trás. - E não é nada ruim, nem você, nem eu. Eles é que estão julgando a gente, querendo trilhar o nosso caminho. E mesmo assim nós os compreendemos, por isso somos melhores. Infelizmente não podemos salvá-los, mas já é um grande passo que nos salvemos. Continuamos assim, certo? Vivendo cada dia como se fosse o único, dentro de nossas infâncias, amando cada árvore, cada planta, animais, céu e mar.
 - E pessoas também - completou Anna, sentindo-se bem novamente.
 - Claro, é o mais importante. Todo o universo será nosso, sabe como. Em busca da Terra do Nunca, minha garota.
 - Memento Mori, John - Anna sorria como ele, agora. - Não vamos nos esquecer.
 - De jeito nenhum - ele ficava feliz por conseguir impedi-la de cair no abismo que os aguardava faminto. Ele ficava verdadeiramente feliz, como só uma criança de alma profunda poderia. E seus olhos brilhavam enquanto ele a olhava. Ela era a única, além dele, que poderia compreender o significado de tudo: "a vida tem de ser vivida como se cada dia fosse o último." Esta frase tornou-se tão comum que perdeu o grau de intensidade, e são raros os que lhe dão digna importância. Exatamente como aconteceu com a concepção de que um dia todos realmente irão morrer, e, por isso, morrem mais depressa, morrem estando vivos. - Só vamos enxergar o escuro quando formos finalmente engolidos por ele, por enquanto contemplemos a luz e todas as cores. E esqueçamos aqueles que em meio a toda luz apenas veem a escuridão, acreditando que é no fim que tudo fica bem; sem saber que o fim, como o próprio nome diz, é quando tudo acaba. E mais nada.

14 de ago de 2011

Jupiter crash

  As ondas sabem como carregar para longe e para o fundo um homem doente por um coração. E é assim mesmo. É exatamente desta forma, ele se foi, levando o que tinha de melhor para mim, deixando o melhor de mim. E no fundo do oceano eu posso ouvir o que ele tentou explicar-me com seus olhos verdes de mar. Atração fatal de algo impossível. E todas as distâncias que um dia nos separaram e que desapareceriam, como nossas almas, aumentaram milhões de milhas. E há milhões de milhas, se olharmos para o céu, para sentirmos as estrelas, e elas sempre estiveram lá. "E o que é assim? O que é exatamente desta forma?" - eu perguntava quando você o seguiu ao fundo do oceano sem contestar, com aquele sorriso dizendo "finalmente chegou a minha hora." E eu senti a sua falta, como você sempre sentirá de algo que não conhecemos. E eu sinto a sua falta. E vejo tudo parado ao meu redor, flutuando nas teorias sobre o fim do mundo. E por um momento eu posso acreditar, é o fim do mundo. "Calma, anjo, é só o fim do mundo, não é o fim do amor" - você me diria tão quente em sua frieza como se soubesse realmente que estava mentindo. E todas as noites e dias que se passaram até aqui, eu chorei por você, como eu disse, como você sabia que eu faria. Porém nunca lhe disse nada, jamais o farei. Então eu vejo você partindo, onda após onda após onda, cada vez mais longe, até que se perca no horizonte, até que eu não possa mais enxergar. Afundando em todo amor que senti e agora as águas salgadas engolem você. E na rocha brilhante, iluminada pela lua, com uma lágrima estúpida preenchendo o oceano, eu posso sentir você, sentir como você nunca me sentiu. Tão quebrado sobre mim. Tão mal feito em sua beleza. Sim, sempre foi tudo para mim. "Então é isso? É isso o que você procurava? A estrela mais distante, as águas mais irritadas? Nunca encontraria em mim!" - eu gritei ao vento, então escorregue ao fundo e não volte nunca mais. Eu fui atrás dele, como uma tola esperançosa. E foi isso, ele me deixou chorando, enquanto eu implorei a Júpiter que o trouxesse de volta. E cai no mar para ouvir o som sedativo na morte. A lua assistiu, temendo que o pior acontecesse - que eu voltasse a respirar. "Não, nunca foi isso! O que eu procurava era você! Na estrela mais distante, nas águas mais irritadas. E eu me encontrei em você" - eu ouvi ele dizer no fundo verde do oceano e por um momento acreditei que estivesse dentro de seus olhos, onde sempre quis estar. "Por favor, pare por um momento. Eu amei você... todavia, era atração fatal de algo impossível. Há milhões de milhas que nos separam, apenas respeite a linha" - foram as últimas palavras que ouvi dele antes de me ver de volta em terra firme, há milhões de milhas de distância das águas verdes. E eu voltei a respirar.

10 de ago de 2011

O jogo dos miseráveis

 Anna observava de uma distância considerável o modo como todos os presentes naquela sala tratavam Eddie: os mais velhos com uma ternura tão doce que a repugnava, e os mais novos com uma devoção descomunal, todos tão exagerados e tolos. Tão enganados que a deixavam com pena. Entretanto, ela sabia e ao pensar nisso, que sabia, ela sorria para si mesma - estava liberta, finalmente.

 - Será que ainda é difícil falar com você? - disse Eddie aproximando-se.
 - Não me lembro de ter imposto qualquer obstáculo ou estabelecido qualquer regra sobre distância - respondeu Anna aproximando-se, também, dele.
 - Sabe do que estou falando.
 - Mas é claro, não poderia ser tão hipócrita assim, eu não sei, você sabe, eu não sei - retrucou Anna friamente. Então, ele quer jogar, pensou.
 - Como é que é? - perguntou ele incrédulo. - Eu sabia que ainda seria difícil falar com você.
 - Por favor, você sabe do que estou falando - Anna abriu seu sorriso irônico, sua principal marca venenosa.
 - Por favor digo eu. Já se passou muito tempo, pelo amor de Deus, não podemos ter uma conversa civilizada...
 - Tudo bem, você tem razão. - Ela tinha algo de maligno na face, na mente, no coração e prosseguiu utilizando disso - toda a razão. Se você quer conversar, vamos conversar sobre algo que quero saber há algum tempo - falava lentamente, outra marca, também desagradável. - Como você se sente no meio de todas essas pessoas? -  disse fazendo um gesto para os outros que compartilhavam com eles a mesma sala.
 - O que quer dizer?
 - Depois de tudo o que aconteceu, agora que já não existem mágoas e nem nada, vamos colocar as cartas na mesa. Sabemos de sua hipocrisia e, por favor, não me interrompa se for para negar, pois não me custa virar as costas e lhe deixar falando sozinho - Ana falava olhando-o profundamente nos olhos, tentando ler cada expressão facial sua, com certa maldade, uma satisfação. - Nós dois sabemos quem você realmente é. E estou certa de que essas pessoas que tanto gostam de você e lhe admiram de um jeito incomum, só lhe veem dessa maneira por que não conhecem seu íntimo. Sabem apenas do que você quer mostrar e deixar aparecer. E desconhecem tudo aquilo que você esconde atrás dessa capa imaculada: a inocência suja, o caráter duvidoso, a personalidade contraditória, o excesso de álcool no sangue, a falta de dedicação na mente, a falsidade em todas as palavras ditas e escritas também, perdoe-me pela crueldade do que digo, mas sabemos que é verdade, não negue. Para eles você transpira doçura. Mas para mim, que já tenho os olhos abertos, graças a você, meu bem, obrigada, você transpira tudo que é falso e sujo - nesse momento ela inspirou o ar profundamente, sorrindo e ironizando, dando um toque especial em tudo que acabara de dizer. Ela alimentava a dor na face dele, e sentia-se cada vez mais satisfeita consigo mesma. Ela sabia que ele sabia que ela sabia que estava correta em tudo que dizia, e sabia que isso causava uma dor intensa nele, era por isso que ela continuava, apenas para isso: ver a dor tomando conta de cada célula do corpo dele ao ouvir uma verdade conhecida, mas que ninguém ousava lembrá-lo. Contava pontos a cada fisgada de dor que lhe transcorria o corpo. - Eu conheço seu íntimo, Eddie, não conseguiu escondê-lo de mim. E não precisa me olhar assim, isso já não me convence. Eu não tenho a intenção de revelar a ninguém, pois me sinto, mesmo, privilegiada por ser uma das únicas a conhecer o que há por trás dessa máscara. E sabe, seria terrível, pois só há duas opções quando conhecem seu íntimo...
 - E quais são essas opções? - interrompeu Eddie mudando subitamente sua expressão ofendida para algo sarcástico, quase como ela. Ele havia entrado no jogo, e por mais que Anna estivesse surpresa, gostara disso, ela não via ele como alguém tão capaz quanto ela. Era um lado dele que ela sempre quis conhecer: a vileza por trás da sensibilidade.
 - Ou lhe amar com toda a alma, ou lhe odiar profundamente - dizendo isso, Anna viu-o sorrir. Então, ela completou desafiando-o - e acredito mais na segunda opção - este deveria ser o xeque-mate se ele não houvesse expandido ainda mais o sorriso. Em vez de dolorido, parecia reluzente. Ele estava saindo-se muito bem no jogo, para o espanto de Anna.
 - Você me odeia, Anna? Odeia profundamente? - perguntou Eddie, agora sorrindo apenas com os olhos. Como se dissesse: vá em frente, coloque as cartas na mesa.
 Ela demorou para responder. Foi pega de surpresa, ele reagira no final do segundo tempo. E antes de dar sua última jogada ela pensou: é hipócrita e vil, ainda assim, está a minha altura. - Não! - respondeu, quase se arrependendo da resposta. Porém, sinceridade era a regra principal do jogo, não era? Por isso tudo o mais era perdoável, a sinceridade traz consigo a crueldade. Ele fora, finalmente, sincero com ela. Ela também deveria ser (para não inverter a situação). Ela desviou o olhar para baixo, sentindo o olhar dele sobre ela. O jogo acabara então, Eddie ganhara. E ele sequer precisou citar qual opção sobrara. Ele não foi tão cruel assim. Ele, o grande hipócrita, era melhor do que ela.

6 de ago de 2011

Sem importância

  Eles se olhavam, cada um a sua maneira, todavia, ambos com muita intensidade.
  Ela sentia algo especial, que ele era especial, que não queria separar-se dele pelo resto da vida, que o amava profundamente. Cada gesto dele, cada olhar, era como se a transportasse a um paraíso interno. Era perfeito, perfeito; era tudo.
  Ele sentia o que sentia por qualquer outra mulher, nada especial, apesar do forte desejo. Desejava uma mulher, não aquela mulher.
  Ele a queria, não como ela o queria, no entanto, queria.

  - Eu poderia passar na sua casa amanhã e te levar em um lugar especial - disse ele desejando profundamente que ela aceitasse, dissesse um "sim" com um sorriso daqueles raros e lascivos. Porém, caso a resposta fosse não, ele fingiria, mas não se sentiria realmente perturbado, pois tentaria a sorte com outras mulheres. Ela não tinha tanta importância quanto ele dizia ter.
  - É, talvez - respondeu ela, desejando mais profundamente do que ele o próprio sim. E caso não conseguisse, caso negasse, sentir-se-ia perturbada por um longo tempo. Não queria perdê-lo. Não podia perdê-lo. Não existiam, para ela, os outros homens. Ele era único, único. Importante demais para deixar que se fosse.

  Eles sorriam, com verdadeira e resplandecente felicidade. Ele segurou o rosto dela por um instante, a sensação que ela teve foi de flutuar, de sentir o cheiro de maresia, era diferente de tudo, era mais que tudo. A sua intenção com o toque era provocá-la, apenas, todavia, também se sentia muito bem
  Então, aconteceu finalmente o beijo e tudo o mais que viria a seguir. Eles se sentiram plenamente felizes - de modos diferente, por motivos diferente - ambos tiveram o que queria nessa noite. Não era relevante que um quisesse mais e outro menos. Eles tiveram o que queriam.

1 de ago de 2011

Quando o céu encontra o mar

Na sonolência da madrugada
Esperando a maré voltar
Observa-se o céu
Observa-se o mar

No infinito eles se casam
O céu encontra o mar
E já não se vê céu
E já não se vê mar
Escurece o mundo

Penetro levemente nesta escuridão
Quando na calada da noite o mar deixa-me nele sangrar
E sou, também, céu. E sou, também, mar.
Encontramo-nos em um só e no horizonte misturamos nossa solidão
Escurecendo-me o mundo