18 de jul de 2011

Starlight

  Cameron acordou e assustou-se ao perceber um braço e uma perna sobre seu corpo. E entrou em um verdadeiro pânico mental ao notar que aquele não era o seu quarto. Lentamente para não o acordar, ela retirou o braço dele de seu corpo, remover aquela perna é que seria complicado. Depois de algumas tentativas vãs ela desistiu, era impossível mover a perna sem o despertar. Ela estava de costas para ele e não conseguia lembrar quem era o homem com quem ela fora para cama. Ah, meu Deus, o que eu fiz com esse cara? - pensou ela e num sobressalto ela olhou para seu corpo - pelo menos não estou completamente nua. E virou sua cabeça para trás tentando enxergá-lo, sem sucesso, pois ele estava com o rosto enterrado em seus cabelos. Ela viu apenas os cabelos castanhos dele. Como se ele pudesse sentí-la, mexeu-se e no movimento retirou sua perna de cima dela. Estou livre - ela levantou-se e colocou suas roupas, tomaria banho em casa. Porém antes de fugir da casa daquele estranho ela olhou bem para ele, analisando-o - ele é realmente muito bonito, atlético e fica ótimo com essa barba matinal.
  Enquanto procurava as chaves de seu carro, ela olhou pela janela para saber onde se encontrava, contudo não reconheceu o lugar. Onde eu estou? - ela se desesperou. Teria de perguntar a ele. Então, sentou-se na cozinha, sem coragem de acordá-lo, e foi absorvida por seus pensamentos - como eu posso gastar meus dias dessa forma? Como eu posso descuidar-me desse jeito? E se esses forem realmente meus últimos dias? - e, nesse instante, eliminou esse tipo de pensamento de sua mente, ela amava demais a vida para pensar nisso.
  Ela realmente amava a vida, como ninguém nunca amou ou sequer compreendeu.
  - Bom dia - ela teve um sobressalto, ele acordara, ela não sabia o que fazer. Ao menos sua voz era agradável.
  - Bom dia - ela estava completamente embaraçada. - Desculpe, eu esperei que acordasse apenas para saber que lugar é esse
  - Calma. Estamos realmente afastados do centro, eu te levo depois, sem problemas.
  - Obrigada, mas se apenas me disser onde estou, eu posso ir sozinha - ele a olhou curiosamente e ela retribuiu o mesmo olhar. - O que aconteceu ontem, pode me dizer?
  - Ah, eu imaginei que não lembraria. - Ele riu um pouco antes de continuar - você bebe um pouco, não é?
  - Mas nós nos cuidamos pelo menos, por favor, diga que sim.
  - Não, não fizemos nada. - E completou ao ver a incredulidade na face dela - quase, na verdade. Mas estávamos tão bêbados que pegamos no sono.
  - O que eu faço numa situação dessa? - ela estava aliviada, ainda assim muito atrapalhada.
  - Toma um café - ele já estava abrindo os armários e pegando tudo que precisava para preparar panquecas. Ela não pôde deixar de esboçar um sorriso. - A propósito, me chamo Adam, caso não lembre - e ele também sorriu, e ficaram por alguns segundos assim, sorrindo um para o outro. Esses pequenos momentos sempre foram extremamente valorizados por Cameron, então, subitamente ela se lembrou dos exames.
  - Onde fica o banheiro? - ele apontou para a primeira porta do corredor, e Cameron dirigiu-se a ela.
  Ao entrar no banheiro, trancar a porta e conferir se estava realmente trancada (era a sua mania mais irritante), ela respirou fundo e tirou de sua bolsa os exames. Ela não os abrira desde que os pegara no consultório do doutor Smith. Ela estava com muito medo que o resultado desse exame fosse positivo, sim, seu tumor era maligno. E de uma só vez ela o abriu e viu o que não queria.

  - Tudo bem? - Adam perguntou, notando que ela estava pálida, quase desmaiando.
  - Não, não está nada bem - ela limitou-se a dizer, sem olhar para ele.
  - O que houve? - perguntou ele realmente preocupado.
  - Desculpe, desculpe, você não tem nada a ver com isso - ele não precisava ouvir nada daquilo, porém ela precisava falar com alguém. - Já conheceu alguém que amasse a vida acima de tudo, que soubesse realmente aproveitá-la? Essa sou eu. Eu sempre amei a vida mais que qualquer outra pessoa pensaria em amar. Talvez esse tenha sido meu erro - nesse instante suas lágrimas começaram a cair. A realidade tomava conta dela causando dores insuportáveis.
  - Calma, tudo vai ficar bem - ele a abraçou, ela se desvencilhou.
  - Não, não vai, você não sabe, não compreende - falava Cameron demonstrando todo o seu sofrimento. - Imagine viver amando a vida como se ela fosse acabar amanhã, de qualquer forma isso irá mesmo acontecer, mas agora imagine que esse amanhã esteja mais próximo do que você acredita - ela mostrou os exames. - Eu estou com câncer, dá pra acreditar? Câncer!
  - Eu sinto muito - disse Adam sem saber o que fazer.
  - Perdão, você não tinha que passar por isso, a culpa não é sua - disse ela dando-se conta do que estava fazendo. - Perdão, obrigada por tudo, mesmo - Cameron olhou-o profundamente, pegou as chaves de seu carro e foi embora, deixando-o boquiaberto e imóvel.

  Depois de alguns minutos na estrada, percebeu que estava afastando-se da cidade ao invés de se dirigir ao centro. Contudo não se importava. O vento já secara suas lágrimas, e ela já refletira o suficiente. Então, estacionou o carro no acostamento da rodovia e caminhou um pouco com seus exames na mão. Respirou profundamente, como se a entrada do ar causasse-lhe um prazer ímpar. E, subitamente, rasgou o seu exame em pedaços ínfimos. Aquele papel era pesado demais para que ela o carregasse. E o importante não estava escrito em lugar algum, e ela sabia: a vida tinha urgência em ser vivida agora.

3 comentários:

  1. Muito comovente e ao meu ver pelo menos, bem surpreendente.

    ResponderExcluir
  2. Só o Adam é um personagem perfeito demais.

    ResponderExcluir
  3. Antes de mais nada, quero agradecer pelo comentário; fiquei extremamente feliz. Já cheguei a pensar em ganhar algo em cima do blog, mas no final das contas eu acabo desistindo; o que eu quero mesmo é mostrar pras pessoas que em décadas passadas existiram grandes artistas. E então, basta que eu veja um comentário como o seu para que todo este meu trabalho valha a pena.

    Quanto ao texto, sempre que leio, imagino as cenas, músicas, pessoas ... e isso é simplesmente fantástico! A gente sempre acaba fazendo parte da história.

    ResponderExcluir