24 de jul de 2011

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  "Depois de 12 horas dormidas o sono esvai-se completamente, o que fazer nas outras 12 horas que restam?" - ela havia escrito isso com uma caneta escura em um pedaço rasgado de papel.

  John observava seus movimentos atentamente. Os olhos dela vermelhos repletos de uma fúria inesperada.
  - Eu não aguento mais - dizia ela em meio a espasmos. - Eu não posso mais... Minha cabeça... Não aguenta mais.
 Ele se sentia a cada minuto mais torturado; completamente impossibilitado diante de tal circunstância. Já havia se passado horas e ela não melhorara nem um pouco.
  De repente, ela começou a tomar atitudes violentas contra si mesma, puxando os próprios cabelos e arranhando-se inteira. John não aguentava mais, porém estava lá por ela e sabia o que fazer ou, pelo menos, acreditava que sabia. Sem esperar que seus ataques violentos piorassem, ele a apertou contra o peito e comprimiu-a com muita força; ele possuía a cabeça dela enterrada em si, envolveu seu corpo e pôde sentir seus ossos, completamente angustiado por seu estado - ela estava gravemente magra. Nesse momento, ela projetou sua ira no corpo dele, mordendo as partes que alcançava e arranhando suas costas furiosamente - quase arrancando pedaços. John sentia e aguentava toda a dor, era excruciante, porém ele a apertava ainda com mais força contra si. Depois de um longo tempo neste estado, ora ferindo com menos intensidade, ora voltando com a força anterior, ela cessou. Contudo, não estava acabado, John sabia disso enquanto ouvia sua respiração ofegante e manteve-a na mesma posição, todavia, agora o gesto mais parecia um abraço apertado do que ele tentando contê-la de seus surtos brutais. Ela se acalmou, por fim, e levemente se desvencilhou dele.
  Ela voltando ao seu estado normal, porém, não totalmente consciente, viu um lampejo da dor física na face de John, a qual ele tentava não demonstrar; notou as manchas de sangue na camisa dele e percebeu o estrago que estava causando. E ele notou que por trás de todo aquele vazio (o ódio tornava-se vazio quando os ataques cessavam) em seus olhos, havia arrependimento e dor.
  - Vá embora - ela conseguiu com muito esforço sussurrar, olhando-o suplicante.
  Então, olhando-a com toda a intensidade que possuía, ele disse segurando sua mão (ela tentou soltar a mão dele, porém ele segurou com aquela força masculina de modo que seria impossível desprendê-lo de seus dedos) - deixar-lhe pode realmente parecer uma proposta tentadora no momento, mas, é impossível. Esqueceu-se de que estamos no mesmo barco em meio ao oceano e que eu jamais conseguiria nadar até a margem sem a sua ajuda? Perdão, eu terei de ficar até você estar boa o suficiente para me obrigar a ir embora.
  Ela apenas lançou um olhar vazio a ele e respirou profundamente como se contasse suas inspirações - como se ele não estivesse ali e nada no mundo importasse. John sabia que ela não tinha culpa do vazio que sentia e que ela lutava para sentir algo, qualquer coisa, contudo, a duras penas, o que acabava sentindo era um ódio fora do comum. A situação era grave em um ponto muito além do que qualquer um imaginaria - John sabia muito bem que o motivo da maioria das depressões seguidas por suicídios era o vazio, a perda da fé em sentir qualquer coisa além daquele vazio extremo; e ela demonstrava sua força em sentir, ela tentava de todas as formas sentir algo, por isso ele não a culpava por sentir aquele ódio doentio. Ele não a culpava de maneira alguma. E só desejava que ela comesse algo, tomasse um banho e dormisse um pouco. No entanto, isso seria demais para ela. Então, perdia-se olhando-a absorta em seu vazio, enquanto apenas implorava em pensamento: "por favor, chore um pouco." Contudo ela estava excessivamente seca para derramar uma lágrima sequer.

  Depois de quase duas horas em silêncio, olhando-o sem expressão nenhuma, ela sentiu - e ele também - que os ataques estavam voltando. Ela o olhou uma última vez desculpando-se e praticamente gritando com os olhos para que ele fosse embora, antes de ter em si toda a sua fúria de volta, dessa vez anunciada através de gritos angustiantes e ensurdecedores.

  John não se conteve e chorou. Ele não sabia até quando isso tudo iria durar nem qual fim teria; sabia que não podia deixá-la sozinha nesse estado, pois seria fatal. Por mais que ele soubesse da possibilidade de ficar exatamente como ela, ele ficaria até o fim. Enquanto ele tivesse um pingo de paz de espírito, ele faria de tudo para ajudá-la, mesmo que em vão. E se fossem para acabar, acabariam exatamente como tinham começado - juntos. Então ofereceu seu corpo novamente a ela, se ela tinha de descarregar seu ódio, tudo bem, desde que não fosse em si mesma.

Um comentário:

  1. Que doidera. Bem legal! Você tem uma boa escrita, tem potencial pra fazer um booooooom trabalho mesmo! Gostei bastante! Parabéns!

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