2 de jul de 2011

Pessoa

  Depois de dois ou três meses mergulhada na mais profunda depressão, Anna só poderia estar sentindo-se a pessoa mais feliz do mundo e esbanjar sua alegria no bar com seus amigos - esbanjar totalmente sua alegria, talvez o excesso de álcool tenha ajudado um pouco. Não demorou muito para que ela enxergasse um rosto desconhecido no grupo. Um rosto agradavelmente estranho, olhos verdes penetrantes, barba por fazer na face branca e desgrenhados cabelos loiros.
  - Anna, sagitariana com ascendente em touro, cética por natureza, prazer - disse ela ao estranho, exaltando-se e divertindo-se.
  - Prazer, Billie - limitou-se a dizer ele aborrecido, com os olhos de quem não dorme direito a quatro ou cinco dias e a expressão maçante. Nada convidativo.
  Não se falaram, tampouco se olharam pelo resto da noite.

  Seis meses depois, Anna encontra-se de volta em sua depressão e os amigos a arrastam para o típico bar, quando aquele conhecido estranho surge no mesmo grupo.
  - Anna, sagitariana com ascendente em touro, cética por natureza, tudo bem? - cumprimentou Billie totalmente expansivo e contente por vê-la. Ele estava irreconhecível.
  - Tudo - respondeu Anna simplesmente.
  Não se falaram, tampouco se olharam pelo resto da noite.

  Passara-se quase um ano, Anna já havia saído e retornado a sua depressão diversas vezes, até que foi completamente tomada pela doença e abominava, mesmo, ver a luz do sol. Contudo, nessa noite seus amigos convenceram-na, usando do argumento de que nunca mais insistiriam se ela saísse com eles. E ela, sem nenhum ânimo, aceitou. Entretanto, ela preferia passar, como nas outras noites, em casa lendo Fernando Pessoa, com sua cerveja e solidão.
  No bar, aquele de sempre, ela viu o estranho, aquele de sempre, sentado do outro lado da longa mesa repleta de amigos com suas alegrias incontidas. Os únicos melancólicos do lugar eram aqueles dois estranhos conhecidos. Ela o fitou por alguns minutos, curiosa por ele estar tão calado quanto ela. Depois de ela desviar sua atenção dele, ele a fitou por alguns minutos, curioso por ela estar tão calada quanto ele. E assim continuaram, calados e solitários no meio de todos.
  Anna levantou-se silenciosamente para comprar um maço de cigarros, ninguém percebeu. Billie levantou-se silenciosamente para comprar um maço de cigarros, ninguém percebeu.
  - Uma cartela... - os dois falaram ao mesmo tempo e olharam-se sem aparentar nenhum entusiasmo.
  - Quanto tempo - Billie disse acendendo seu cigarro, sem voltar para a mesa.
  - Quanto tempo - Anna repetiu, também acendendo seu cigarro.
  - Você parece tão animada quanto eu por estar aqui - disse Billie irônico.
  Os dois olhavam-se melancolicamente, com as expressões aborrecidas, enquanto tocava uma música de Guilherme Arantes.
  - Eu gosto dele - ela deu uma tragada no cigarro e continuou - do Arantes, porém ouvir justo essa música agora me faz lembrar coisas que eu não gostaria de lembrar.
  - Eu também gosto dele, mas ele me faz lembrar certas coisas que eu também preferiria não lembrar.
  - Romances sujos e decepcionantes? - perguntou Anna.
  - Romances sujos e decepcionantes! - concordou Billie.
  Anna estranhava tantas coincidências, desconfiou que ele estivesse mentindo e lançando a ela um papo de aconteceu-com-você-e-comigo-também-então-vamos-misturar-nossas-mágoas-na-cama. 
   - Eu queria estar em casa, lendo Fernando Pessoa - Billie não percebeu que ao dizer isso, ela o olhou espantada. Não, ele não estava mentindo, tinha algo nele que estava em profunda sintonia com ela.
  Nesse momento ela sorriu, apenas, e ele retribuiu. Foram sorrisos desconfiados, porém sinceros. Eles voltaram à mesa e conversaram por horas. Sentiram-se mais felizes. E nessa noite eles se conheceram de verdade; perceberam que ambos gostavam de ler Pessoa e pessoas, por isso eram tão contidos. Nessa noite eles deixaram que suas solidões se misturassem e compartilharam de seus vazios. Por fim, foram embora juntos, e pela primeira estavam na mesma sintonia, deixando ao mesmo tempo suas depressões para trás.

2 comentários:

  1. Oi Pamela!
    Opa fico feliz que minha explicação ajudou alguém a atender sobre as definições das séries japonesas! Mesmo eu dando apenas uma pincelada no assunto até porque dentro dos gêneros tem subgêneros, parece até tribo urbana rs.

    bjs
    http://www.empadinhafrita.blogspot.com

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  2. Quando comecei a ler, imaginei que a história iria se repetir por dias, meses, anos, e que certamente não teria um final feliz. Fiquei surpresa, e gostei muito. Apesar da desconfiança, prevaleceu a sinceridade. Acho que este foi um dos melhores contos que já li por aqui.

    Até mais!

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