7 de jul de 2011

Bresso

  Os carros cruzavam velozes na rua próxima, os prédios e suas luzes transbordavam uma beleza urbana e ofuscavam qualquer brilho que as estrelas pudessem oferecer. A cidade noturna era esplendente, naquele momento era mais radiante do que a própria natureza, despertando a admiração de olhos fascinados, de quem estava só ou acompanhado, seus sons embriagavam os apaixonados, aborreciam os razinzas, trazendo vida a tudo que há muito já estava morto.
  Anna observava todo o movimento da mesa de um bar, com seu vinho predileto de inverno e com um sorriso que demonstrava seu fascínio inabalável por tudo, por tudo.
  Segundo após segundo, logo o sol apontaria em algum canto do qual Anna, completamente desnorteada pelo álcool e pela vida, tentava adivinhar.
  Os segundos continuavam passando, como tinha de ser, se é que tinha de ser alguma coisa, não importava, os segundos continuavam passando e a vida também, ainda mais depressa.
  A cadeira vazia à sua frente mostrava aos outros sua solidão, e mostrava a ela sua solitude, e ao pensar nisto Anna sorria ainda mais, encontrara sua serenidade finalmente, todavia, finalmente até quando? Até que finalmente sucedesse o próximo segundo e a cadeira fosse sorrateiramente ocupada por alguém, não alguém qualquer, mas aquele alguém. Anna bebeu seu vinho indiferente com a atrevida companhia, e ele pediu uma cerveja com seu sotaque alemão, causando calafrios pelo corpo de Anna.
  - Como vai a vida? - perguntou Eddie finalmente.
  - Morrendo e renascendo por aí - respondeu Anna, não querendo questionar sobre ele, sabia que ele estava bem.
  - Eu vou vivendo às vezes - disse Eddie, respondendo a pergunta inexistente.

  Longos segundos de silêncio se passaram.

  O silêncio era agradável, contudo deveria ser quebrado, então, como sempre foi Anna que se deu ao trabalho. - Ela sabe que você está aqui? - perguntou ela, pela primeira vez olhando nos olhos de Eddie, este abaixou a cabeça.
  - Não - respondeu Eddie, surpreendendo-a, pois ela esperou que ele negasse, se defendesse ou travasse a fala como sempre fizera, e tomou a cerveja de seu copo em um só gole.
  - Eu imaginei - disse Anna. - Tomara que ela não passe e te veja aqui...
  - Eu não me importaria - interrompeu Eddie impaciente. - Talvez fosse até melhor.
  - Quanta frieza dentro de uma pessoa que eu julgava tão sensível - desdenhou Anna. - Sol me pareceu ser uma mulher incrível...
  - E é! - ele parecia cada vez mais impaciente, já arrependido de estar ali. - Ela é incrível, doce e me faz muito bem. É ela que tem me salvado todos os dias - e ao falar esta última frase, ele a olhou quase suplicante, torturado e vencido.
  Anna ficou perplexa pela coragem dele de lhe falar tais coisas, expor seus sentimentos dessa forma, todavia, não emitiu nenhum som, apenas do toque em sua taça de vinho.
  - Ela me faz muito bem - continuou Eddie. - O problema é que o mal que você me faz é ainda maior.
  O olhar incrédulo de Anna levantou-se imediatamente para os olhos predadores dele, ela era uma presa tão fácil.
  O silêncio perdurou por algum tempo, então Eddie tornou a falar em um tom de puro desespero - eu não aguento mais! Eu não posso mais! Ela me ajudou, muito mais que isso, me salvou durante todo esse tempo, até você voltar a aparecer diariamente em minha vida. Eu tento te evitar, mas evitar não é natural e deveria ser fácil - nesse momento deu uma pausa, para continuar em seguida quase sussurrando - eu dou voltas naquele prédio só para não cruzar por você, não enxergar seu olhos, mas a cada dia tem sido mais doloroso. E é só no fim da tarde que encontro meu alívio... nela.
  - Obrigada pelas palavras, conseguiu mudar tudo - ironizou Anna.
  - Eu quero mudar tudo, só não sei o que fazer... me diz! - Sem obter resposta Eddie continuou - eu queria tanto fugir...
  - Fugir, diante de tantas possibilidades, esta é a única que sempre passou em sua cabeça, não é? - falou Anna com desdém. - A fuga é o seu elemento.
  - E se eu terminasse? - perguntou ele.
  - Seria mais tolo do que eu poderia imaginar - respondeu Anna.

  O último gole de vinho foi tomado, Anna olhou intensamente para Eddie, analisando cada expressão que passava em sua face e enfim disse, dessa vez branda, quase doce, quase... - eu espero que você fique bem e que tome logo a sua decisão, por você, e caso precisar me procure, as minhas pontes nunca são destruídas, e você sabe o caminho. E eu espero que a Sol fique bem, ela sem dúvidas é uma mulher incrível, e isso é o que mais dói ao fim de tudo - parou de falar por um momento para evitar uma lágrima. - Você teve sorte, saiba disto e saiba que eu tive sorte também porque eu não espero nada de você nem de ninguém, apenas da vida, e eu vou vivendo por aí, sempre feliz como você me pediu, e esta é a maior sorte que se pode ter.
  A noite chegou ao fim, o vinho também, no entanto o dia estava apenas começando, e Anna foi sorrindo para casa, e, misteriosamente, Eddie também.

2 comentários:

  1. Oi Pamela!
    Eu também sinto falta dos grandes clássicos Disney...para mim a Disney mudou depois que surgiu Toy Story. Os desenhos de hoje são bem feitos e divertidos mas não possuem a magia e a essência mítica que os antigos possuíam. Mas talvez esse seja o reflexo da globalização, que foca em "politicamente correto" e efeitos especiais.

    bjs

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  2. Já disse que me encanto com seus textos, não? Mas hoje serei breve, pois logo que comecei a ler, algo chamou minha atenção:

    ' Os prédios e suas luzes transbordavam uma beleza urbana e ofuscavam qualquer brilho que as estrelas pudessem oferecer. A cidade noturna era esplendente'.

    Olha, vou ser sincera, você tirou as palavras da minha boca, nada me encanta mais do que uma paisagem noturna.

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